João Anatalino

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EU SOU O ASSASSINO

MANCHETE
Mizael Bispo é condenado a 20 anos de prisão pelo assassinato de Mércia NakashimA

Do UOL, em Guarulhos (SP)14/03/201317h23

O policial reformado e advogado Mizael Bispo de Souza foi condenado nesta quinta-feira (14) a 20 anos de prisão pelo assassinato da ex-namorada, a advogada Mércia Nakashima, ocorrido em 23 de maio de 2010. O corpo e o carro da advogada foram encontrados em uma represa na cidade de Nazaré Paulista, na Grande São Paulo. Mércia foi morta aos 28 anos.
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Como é ridículo tudo isso. Já faz quatro dias que estou aqui, sentado neste banco de réu, e nada do que ouvi parece ter algum sentido. É tudo uma farsa montada para justificar o salário que a sociedade paga aos atores que participam desse teatro.
Não precisava de nada disso. Afinal, todo mundo parece ter certeza de que eu, efetivamente, matei a Marta. Vejo isso nos olhos do juiz, dos jurados, do promotor, da platéia, e até do meu próprio advogado de defesa. Mas é preciso cumprir os protocolos. Tudo isso é um ritual do qual não podemos fugir. As pantomimas dos litigantes, a liturgia do tribunal. O promotor que tem que provar que eu sou culpado e o meu advogado que precisa provar que eu sou inocente. Mesmo que todo mundo já saiba qual é a verdade, o ritual tem que ser cumprido, senão não vale.
Todo mundo sabe que eu matei a Marta. E todo mundo sabe por que a matei. Afinal, eu sou um homem conhecido pelo caráter violento, autoritário, egoísta e egocêntrico. Fui policial e agora sou advogado. Entrei na polícia justamente por que esse o lugar era próprio para um cara com as minhas tendências neurológicas e os meus valores culturais.
Na verdade, sempre achei que existem pessoas superiores e pessoas inferiores. Os segundos foram feitos para servir aos primeiros. E podem e devem ser descartados quando não mais forem úteis. Quando era jovem gostava de bater nas pessoas. Sentia-me poderoso quando fazia isso. Por isso entrei para a polícia, numa época em que não havia essa perseguição que existe hoje contra os policiais. Era um tempo em que o policial era temido (respeitado não, pois policiais nunca o foram), pois ele tinha o aparato do estado a seu favor e podia descer o cacete em todo mundo sem ter que ficar justificando depois porque o fez.
Não havia essa baboseira de direitos humanos para tolher nossos impulsos. Aposto que existe muita gente hoje que sente saudade daqueles tempos. Não havia essa bandidada toda a tripudiar do poder do estado. Hoje quem manda são eles. Não são mais os policiais que caçam os bandidos, mas o bandidos que caçam os policiais. Tudo se inverteu.
Por isso é que eu deixei a polícia logo que tive tempo para aposentar e me tornei advogado. Antes eu caçava, batia, matava e sumia com a carcaça desses caras e tudo ficava por isso mesmo.

Hoje me dedico a defendê-los. É um paradoxo, mas são as voltas que a vida dá. É assim que são as coisas. Nunca diga que dessa água não beberá, pois será sempre essa água que sobrará para matar a sua sede.
 
É por isso que estou aqui, no banco dos réus. Matei a minha namorada, Marta. Matei-a por ciúmes. Em outros tempos, eu sequer seria denunciado. Seria um crime de honra. Homem tinha o direito de matar a mulher que o traísse. Hoje não. Essa baboseira de direitos humanos tirou dos homens o direito de exercer a sua supremacia sobre as mulheres. Cornos, hoje em dia, são, como esses ativistas dizem, apenas um acidente de percurso. Quem ama não mata, disse o juíz. Leva os chifres com classe, e ainda paga uma pensão por eles.
Besteira. Todos os assassinatos são praticados por amor ou por ódio. Hitler matou milhões pelos dois motivos. No fundo, era a mesma motivação do Billy The Kid, do Jack o Estripador, ou do Papa, quando mandava matar os hereges que ousavam contestar a doutrina da Igreja. O ódio ou o amor. Mata-se porque se odeia muito ou então porque se ama muito. Cornos estão na categoria do amor próprio. Quem leva chifres sente o seu amor próprio ferido de morte.  

Isso de levar chifre e aceitar como coisa normal, só se for na cabeça dos outros. Na minha não. Na minha, cornos doem como tumores malignos. Matei Marta porque ela me traiu. A maldita dizia me amar, mas estava saindo com outro cara. Descobri isso porque afinal ela me confessou que estava apaixonada por outra pessoa e queria terminar o nosso relacionamento. Eu não podia aceitar isso. Ela era minha. Era tão minha quanto o meu carro, a minha casa, a minha carteira e as minhas camisas. O que você faria com alguém que quer tomar as suas coisas? Deixa que ele tome? Isso é covardia. Eu não sou covarde. As minhas coisas são minhas coisas. O que é meu ninguém me tira. 
Eu já fui um policial. Matei gente que roubava coisas das pessoas. Porque não mataria quem rouba de mim? Marta estava tirando de mim algo que eu valorava muito. O corpo dela, a atenção dela, o amor dela. Isso vale muito mais que os bens de muita gente, que eu protegi com a minha própria vida. Levei tiro de bandido por causa disso. Isso ninguém leva em conta. Esse maldito promotor só fica falando da minha torpeza. Que planejei o assassinato com requintes de crueldade. Que atraí a vítima para uma armadilha, de forma traiçoeira e cruel. Que não dei a ela a mínima chance de defesa.
 
A Marta não podia me deixar. Eu amava de fato aquela guria. Ela era bonita, muito bonita. Aqueles olhinhos puxados de sansei, aqueles cabelos pretos, lisos, que caiam como uma cascata de águas negras sobre os ombros dela. Aquele corpo exuberante,que me dava tanto prazer.  Me apaixonei assim que a vi, na faculdade.Namoramos durante três anos. Eu sou divorciado, ela era solteira. Eu tenho minha banca de advogado, ela acabava de se formar em direito e estava estudando para fazer concurso para o Ministério Público. A gente não pensava em se casar não. Havíamos combinado ficar juntos enquanto a paixão durasse. Alguma coisa parecida com aquele soneto do Vinícius, que ela tanto gostava. Que fosse eterno enquanto durasse.
Para ela durou pouco. Por mim eu gostaria que fosse pela vida toda. E tudo ia bem até o dia em que ela me disse que queria terminar tudo. Que estava apaixonada por outro cara. Nossa. Meu sangue subiu para o alto da cabeça, como se tivesse sido puxado por uma bomba de vácuo, dessas que se usam em poços de petróleo. Ele foi parar todo em minhas têmporas, que começaram a pulsar como se o próprio coração estivesse ali e não no meu peito. E os meus olhos, de repente, também se inundaram de sangue, pois ficaram vermelhos como se fossem dois sóis em pleno crepúsculo nos cerrados.
Engraçado. Eu nem quis saber quem era o cara. Acho que homem não tem culpa em casos assim. O homem é pegador por natureza. Se ele pega uma mulher, é por que ela fez por quanto. Eu mesmo sou um grande pegador. Caiu na minha rede, é peixe. Meu ódio foi todo dirigido a ela. Ela era a culpada. Ela devia pagar por aquele sentimento de perda que eu estava experimentando naquele momento.  
No entanto, tive a cabeça fria o suficiente para disfarçar. Fingi aceitar o que ela decidira. Devo ter sido convincente. Mas eu já tinha o plano formado. Foi uma arquitetura tão rápida que eu mesmo me surpreendi com tamanha eficiência do meu cérebro para armar uma cilada daquelas para a safada. Pedi a um amigo que nos convidasse para passar o fim de semana no seu sítio, próximo a uma bela represa. Ele era amigo de nós dois. Nada estranho que convidasse a ambos. Ela topou. Eu também.
No meio da estrada que leva ao sítio, o capanga que eu tinha contratado a abordou. Sob o pretexto de conduzi-la por um caminho mais curto para o sítio, ele a levou para a beira da represa que fica próxima, onde eu estava esperando por ela.
Foi ali que eu a estrangulei. Depois empurramos o carro, com ela dentro, para dentro da represa. Tudo funcionaria como se fosse um acidente. A polícia, quando achasse o corpo, se um dia achasse, encontraria também vestígios de droga no carro e no cadáver. A conclusão seria que uma jovem drogada perdeu o controle do carro e caiu dentro da represa. 
 
A coisa toda estava armada para dar certo. Só não deu porque um dos peritos encontrou vestígios de lama em meus sapatos e identificou-a com a lama das margens da represa. Coisa maluca. Eu só havia visto coisas assim em filmes. Mas foi acontecer justo comigo. E depois havia o mesmo tipo de lama nos sapatos do meu capanga. Ele era, por acaso, o vigia do sítio do meu amigo. Assim, quando o corpo foi descoberto e a polícia começou a ouvir os depoimentos de pessoas que possivelmente pudessem saber de alguma coisa, logo deram com o tal vigia. Ele não é advogado como eu, capaz de sustentar uma mentira com firmeza e determinação. Logo entregou tudo. Uma coisa puxa outra e eu acabei sendo enredado. Meus álibis, um a um, foram derrubados pelo maldito promotor. Meu romance com Marta foi todo levantado. Meu passado de violência também. As minhas crises de ciúmes, as vezes sem conta que eu a ameacei de morte, se ela me deixasse. Tudo pesou e o delegado que presidiu o inquérito foi muito competente. Juntou tudo aos autos. O promotor não deixou por menos. Tenho que reconhecer que o maldito é muito eficiente. Relatou, com muita ênfase e riqueza de detalhes, como eu fizera para matá-la e depois empurrar o carro para dentro da represa. Eu mesmo não seria capaz de descrever melhor o que eu fiz. Até parece que ele estava lá.
É claro que eu não confessei e nunca vou confessar. Ainda que eu venha a ser considerado culpado pelo júri, sempre haverá o beneficio da dúvida, e é nisso que eu vou me apoiar. Todas as provas são circunstanciais. O testemunho dos parentes dela, que foram unânimes em me pintar como um psicopata ciumento e perigoso; o testemunho do meu amigo do sítio, que disse que eu só apareci lá depois de certa hora, que combinava bem com a hora em que Marta foi morta, de acordo com os peritos; até o testemunho do vigia, que confessou tudo, é circunstancial. Eles podem ser contraditos. Mesmo as provas periciais podem ser contraditas.
Essa é a tese da defesa. Pode colar. E se não colar no júri, ela valerá muito na apelação. De qualquer modo, estou tranqüilo. Neste país, pessoas como eu nunca são punidas como se deve. Sempre dão um jeito de escapar das penas mais pesadas. Estas só são aplicadas nesses pobres diabos que não tem onde cair mortos. 
Por isso é que eu estou com este simulacro de sorriso no rosto. Pensem o que quiserem, seu jurados idiotas. Este sorriso é de deboche mesmo. Vocês vão passar pelo menos umas quatro noites inteiras neste tribunal, vão comer uma merda de lanche, vão ouvir uma arenga insuportável durante horas e horas e vão odiar o fato de terem sido escolhidos para servir de jurados neste caso. E no fim, vão pronunciar uma sentença que farão vocês ficar o resto da vida com a pulga atrás da orelha. Pois se me condenarem, haverá sempre a dúvida de terem condenado um inocente: isso implicará em sentimento de culpa. Se me inocentarem ficará sempre a dúvida de terem libertado um criminoso. Isso também lhes tirará muitas noites de sono. Assim, seja o que for que vocês decidam, a pena maior, quem pagará são vocês, pois esse sentimento de culpa os acompanhará até o túmulo. A minha pena, seja qual for, durará apenas alguns anos, pois de qualquer modo, serei beneficiado pela progressão, essa maravilhosa estratégia que os maiores criminosos de nossa sociedade – os políticos– inventaram. Aliás, é por isso mesmo que eles nunca se propõem a reformar o nosso esdrúxulo Código Penal. Pois no dia em que o nosso sistema penal for sério, os primeiros a ir para a cadeia serão eles mesmos.
 
Condenaram-me a vinte anos de prisão. E daí? Grande merda. Esses babacas dos parentes da Marta parecem satisfeitos com isso. Xingaram, me chamaram de assassino maldito, e no fim, eu vi nos olhos deles um sentimento de satisfação pela sentença de condenação. Idiotas. Eu vou apelar. Tenho certeza que a sentença será reduzida. E depois, há o instituto da progressão. DE qualquer forma, não cumprirei mais que cinco anos. Além disso, sou militar e advogado. Cumprirei minha pena numa prisão militar. Com um celular e mais algumas regalias (que eu posso muito bem comprar dos meus carcereiros), levarei dentro da prisão uma vida normal. Só terei restrição nos meus movimentos, não na minha liberdade. Mas isso não é tão importante. Talvez até arranje mais alguns clientes para minha banca de advogado, lá dentro.
Que todo mundo pense que eu vou pagar pelo meu crime. Que a sociedade idiota, compassiva e sentimental chore seus mortos. Que os babacas dos direitos humanos pensem que estão melhorando o mundo. Que os ingênuos jovens e esses ativistas imbecis saiam ás ruas com velhos e surrados slogans para protestar contra a corrupção, o desgoverno, a falta de segurança, o crime.
Tudo isso existe desde o começo do mundo e existirá enquanto o homem estiver no mundo. Por que tudo isso é o homem. E eu sou o homem. Eu tenho a Marca de Cain. Eu sou o assassino.  
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Nota: este conto, embora inspirado em fatos reais é fruto exclusivo da imaginação do autor. Quaisquer semelhanças com personagens vivos ou mortos, terá sido mera coincidência.
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 05/09/2013
Alterado em 12/09/2013
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