João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

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ESTUDOS MAÇÔNICOS- SODOMA E GOMORRA, UMA METÁFORA IDEOLÓGICA

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“ Lot partiu de Segor (...) e habitou numa caverna e suas duas filhas com ele. E a mais velha disse à mais nova: (...) Vem, embriaguemo-lo e deitemos com ele(...) para que possamos conservar a linhagem do nosso pai.”Gênesis, 19;30.
 

A promíscua Sodoma foi por Deus condenada.
Aniquilada ruiu, para nunca mais se levantar.
Mas a esposa de Lot, para traz resolveu olhar;
Em estátua de sal acabou sendo transformada.



E por milhas em torno, em tudo ali por perto,
A linda paisagem que fora a nêmesis adâmica,
Era agora um lençol de estéril cinza vulcânica,
Um lugar amaldiçoado, e para sempre deserto.



A mortandade foi tal, que por ali nada restou.
Fosse árvore, ou homem, e nem sequer animal,
Restou nessa terra maldita que Deus condenou.


As filhas de Lot, para dar-lhe um descendente,    
Com o próprio pai praticaram o coito seminal

Maculando em pecado a inocência da sua gente.
 
Abraão, o mago caldeu
 
Lot era sobrinho de Abraão, o patriarca hebreu que fundou a nação dos judeus. A Bíblia não explica a verdadeira razão de Abraão ter deixado a Mesopotâmea, terra dos caldeus, para se mudar, com sua família e todos os seus agregados para a Palestina. Mas lendo Flávio Josefo, um historiador judeu dos tempos de Jesus Cristo, ficamos sabendo que Abraão, na verdade, era um sacerdote caldeu que um dia descobriu que havia uma força no universo que fazia com que tudo obedecesse á uma certa lei. E era por conta dessa força que o sol brilhava durante o dia e se escondia durante a noite. Por isso, igualmente, a lua substituía o sol á noite, quando ele se ausentava, e dava força às marés. E tam-bém influenciava todos os fluxos líquidos da terra, inclusive aquele que acontece às mulheres pelo menos uma vez por mês. 
Com isso ele começou a imaginar que se havia um processo que regulava os caminhos dos astros no céu, deveria haver também algo semelhante para regular a vida dos homens na terra, E por traz disso devia haver uma Vontade a presidir tudo, ou seja, um Deus que controlava esse processo, e por sua vontade, tudo acontecia ou deixava de acontecer na terra e no céu.
E daí a descobrir que Ele tinha um propósito para a raça humana, foi apenas mais um passo. Esse propósito era uma idéia de aperfeiçoamento contínuo das faculdades espirituais do homem, até que ele mesmo se igualasse aos seus próprios construtores, que eram os anjos (os chamados elohins).
Essa é a tese defendida pelos comentadores da Bíblia, os rabinos que escreveram o Talmud e desenvolveram a grande tradição da Cabala. Esta última, segundo os cabalistas, começou a ser escrita pelo próprio Abraão, quando ele teve essas iluminações.

A maquete da obra

     Mas para que isso acontecesse, pensou Abraão, era preciso que Deus separasse entre os povos existentes naquela época uma matriz que pudesse ser trabalhada segundo esse modelo. Pois na sua cabeça, Deus era como se fosse um Arquiteto projetando um grande edifício. Todavia, a antiga religião dos caldeus pregava que o mundo era obra de uma infinidade de deuses. Havia o deus da chuva e o deus que promovia a seca; o deus que trazia a doença e o deus que fazia a cura; o deus que representava a luz e o deus que presidia as trevas; o deus do doce e o deus do amargo, o deus que dizia sim e o deus que dizia não.
Abraão, de posse dessa nova inspiração, intuiu que havia um único Deus. Ele era En Sof, o Incriado, que ao criar-se a si mesmo tornou-se En Sof Aur, a Luz manifesta. E a sua luz, manifestada no vácuo, transformou-se no universo. Ele era, portanto, tudo isso e muito mais...
Todavia, em Ur dos caldeus, onde ele vivia, e em outras cidades da Mesopotâmea, como Babilônia, Assur, Nippur, Nínive, havia um grande número de pessoas que viviam do cultivo da religião. Sempre foi assim. Dizem que a prostituição é a mais antiga profissão do mundo, mas não é verdade. O exercício do sacerdócio é bem mais antigo. O comércio da fé é um negócio que nasceu praticamente junto com a invenção da linguagem. E sempre se mostrou muito lucrativo. Até hoje é. Já houve tempo em que todas as famílias importantes queriam ter um padre na família. Porque ser padre era mais importante que ser médico, advogado, engenheiro, político ou militar. Além das boas rendas que proporcionava ainda tinha aquela prerrogativa de se ter um bom intermediário para negociar os pecados da família quando chegasse a hora de fazer a contabilidade com Deus.
 
Sucedeu que com essa idéia de um único Deus, Abraão prejudicou o ganha-pão de muita gente na Caldéia dos grandes magos, e por isso ele foi expulso da Mesopotâmea. A Bíblia diz que foi Deus quem mandou que ele saísse de lá. Talvez fosse mesmo, pois se Abraão ficasse lá, talvez nem Ele pudesse salvá-lo da fúria homicida que ele provocou com aquela idéia de um deus único que podia ser consultado sem intermediários e não recebia propinas para fazer os serviços que a Ele competia fazer para manter os seres humanos felizes.
Abraão então foi embora e levou sua família para a Palestina. Família, naqueles tempos, era todo o clã, que no caso de Abraão, constituía praticamente uma tribo inteira. Dela fazia parte os irmãos, os cunhados, primos, agregados, que eram os pastores dos seus rebanhos, as aias, os outros serviçais, os servos etc. etc.
Essa família foi a maquete que Deus usou para dar á humanidade o modelo de sociedade que Ele tinha na cabeça.
 
Lot e Abraão

     Abraão tinha um sobrinho chamado Lot. Ele também, como o tio, era sacerdote da religião caldaica. Os caldeus, como se sabe, sempre foram tidos como mestres em astrologia, adivinhações, profecias e outros conhecimentos arcanos que ainda hoje são cultivados no mundo inteiro. Portanto, o grupo de Abraão, na verdade, tinha dois líderes, e o que tinha de acontecer, quando isso ocorre, aconteceu. Os dois grupos acabaram brigando. Não os dois líderes, Abraão e Lot, que eram parentes, mas os pastores de um e outro, pois cada um deles queria os pastos melhores para seus respectivos rebanhos.
Foi assim que o grupo se separou. O grupo de Lot preferiu acompanhar o curso do Rio Jordão e foi parar nas proximidades do Mar Morto (que não era nada morto naquela época), e o grupo de Abraão seguiu o sentido contrário, indo parar nas terras conhecidas pelo nome de Canaã, se fixando próximo a uma cidade chamada Hebron. (Daí talvez o nome que lhes deram, de hebreus).
Lot, com seus conhecimentos da ciência da época, se tornou gente importante na cidade de Sodoma, que então era a metrópole da área. Ali, nas cercanias do Mar Morto, segundo a Bíblia e também Flávio Josefo, havia uma florescente civilização, que vivia da agricultura, pastoreio, exploração de minas de cobre e sal, e também de um buliçoso comércio que servia de entreposto entre as cidades da Mesopotâmea e o Egito, então as duas regiões mais civilizadas do mundo na época. Era a terra dos cinco reinos, como a chama a Bíblia, com cidades importantes como Sodoma, Gomorra, Salém, Zhoar e outras.
Só que o povo dessas cidades não era lá muito chegado a essas coisas de moral. Principalmente em questões relativas ao sexo. A sacanagem ali era tanta, que os termos sodomia e sodomita se tornaram sinônimos de promiscuidade sexual.
Conta-se que os sodomitas, principalmente, não faziam muita distinção entre homens e mulheres em questões de sexo. O que estava á mão servia, não importando se era macho ou fêmea. Nessa panela se cozinhava tudo junto. Irmão, irmã, pai, mãe, filha, filho, sobrinha, sobrinho, qualquer um servia na hora da farra.
Os hebreus, como eram conhecidos os grupos de Lot e Abraão, eram mais comedidos nessas coisas. Eles eram monogâmicos e tinham uma certa ética nessas questões de sexo. Quando muito topavam pegar uma ou outra servente da esposa, quando esta não conseguia lhes dar filhos, mas esse negócio de homossexualismo e relações incestuosas, não era com eles não.
Um dia, diz a Bíblia, e Flávio Josefo também corrobora essa informação, Deus se cansou da promiscuidade e da degeneração sexual em que as cidades da região estavam mergulhadas. Provavelmente Ele temia que esses costumes acabassem contaminando o povo que Ele escolhera para sua maquete.
Então, primeiro mandou contra elas uma invasão de guerreiros do leste, chamados assírios, que devastou a maioria das cidades da região e reduziu algumas delas á cinzas. Mas Sodoma sobreviveu, principalmente por que havia muitos hebreus, do grupo de Lot, vivendo nela.  Por causa deles até Abraão entrou na briga e ajudou os sodomitas a expulsar os assírios.
Mas mesmo assim, a gente daquela cidade não se emendou. Então Deus mandou dois anjos, segundo diz a Bíblia, lindos rapazes, irem à casa de Lot e avisar a ele para sair de Sodoma com seu clã, porque Ele iria destruir aquela cidade. Não deu outra. Quando os tarados sodomitas viram a beleza dos rapazes, logo resolveram fazer o serviço neles. Lot pediu e implorou aos degenerados para que deixassem os rapazes em paz, pois eles eram hóspedes dele. Ofereceu até as duas filhas, duas garotas ainda virgens, no lugar deles, mas que nada. Os caras queriam mesmo eram os rapazes. Bem, a história diz que Deus (ou o próprio Lot, porque não esqueçamos que ele era um mago caldeu), fez os homens que tentaram invadir sua casa para pegar os rapazes ficarem cegos momentaneamente. Então, pela porta dos fundos deu fuga a eles.
Com tudo isso Deus ficou muito bravo mesmo com os sodomitas. Mas esse negócio devia ser mesmo bom, porque Lot não conseguiu convencer ninguém da cidade (parece que nem seu próprio povo) a ir embora com ele. De maneira que só ele com suas filhas e sua mulher saíram de Sodoma antes de Deus mandar contra ela uma chuva de fogo e enxofre (ou um terremoto, com liberação de gases tóxicos e inflamáveis) que arrasou toda a planície em volta, transformando-a na região inóspita e desértica que é até hoje. Essa região era conhecida como Vale do Betume, pois ali havia muitos poços de betume, sinal da presença do petróleo, que é hoje a grande riqueza da região. Essa, aliás, é uma boa explicação para o que aconteceu a Sodoma e Gomorra. Pelo menos contenta as mentalidades céticas, que precisam por racionalidade em tudo. Mas ninguém sabe o que realmente aconteceu lá. Há até quem diga que as cidades do Mar Morto foram, na verdade, destruídas por uma explosão nuclear, provocada quiçá, por exploradores extraterrestres. Daniken, Pawels-Bergier e outros adeptos dos deuses astronautas aventam essa possibilidade. Houve até gente que andou procurando sinais de radiação por aquelas bandas, mas nunca se achou nada.
Aliás, nem ruínas, nem sinais de que um dia tal civilização tenha existido foram encontrados, o que levou outros historiadores a duvidar da veracidade das histórias da Bíblia. Mas Flávio Josefo diz que no seu tempo (século I da era cristã), a estátua de sal em que a mulher de Lot se converteu quando olhou para traz para ver a chuva de fogo e enxofre que consumia as cidades gêmeas de Sodoma e Gomorra, ainda estava lá.
 
As filhas de Lot
 
Seja qual for a verdadeira história que está por traz disso, o fato é que Lot escapou da destruição só com suas duas filhas. Duas garotas virgens, na flor da idade. Não havia nenhum homem nas redondezas além do já quase velho papai. E pior: parecia que Deus tinha destruído a humanidade toda, só deixando vivos os três. Que maçada.
Talvez não houvesse mais nenhum homem no mundo. Elas achavam que iam morrer virgens e sem filhos. Bom, elas não haviam morado tanto tempo em Sodoma á toa. Afinal, se os sodomitas faziam o que faziam, porque elas não podiam? A culpa, se culpa houvesse, seria de Deus, que não deixou nenhum homem vivo sobre a face da terra. Elas não tinham noção de geografia, não sabiam o quão grande era o mundo e que a catástrofe só tinha ocorrido no Vale do Betume.
Então o que fizeram as danadinhas? Pegaram o pai mesmo. Deram uma fogueira no velho e transaram com ele. O fato é que as duas filhas de Lot engravidaram e tiveram, cada uma, um filho com o próprio pai. Um deles se chamou Amon, que deu origem ao povo amonita, e o outro se chamou Moab, que deu origem ao povo moabita.
 
Uma metáfora IDEOLÓGICA
 
Essa é uma história meio sórdida, mas ela está na Bíblia e foi recontada com uma certa malícia por Flávio Josefo. Mas eu suspeito que nela há uma grande manipulação política dos rabinos israelenses, que aliás, são mestres em fazer isso. Pois moabitas e amonitas sempre foram inimigos de Israel. Até hoje são, nas pessoas dos seus descendentes, os palestinos. A briga entre esses povos é milenar. Que melhor forma há para degradar seus inimigos do que dizer que eles são frutos de incesto? Que sua origem é promíscua? Que são filhos do pecado?
Mas não é só os rabinos israelenses que fazem ideologia com essas histórias. Praticamente todos os povos antigos têm histórias desse tipo. Os deuses gregos eram extre-mamente promíscuos. Os egípcios também. Ísis era irmã de Osíris. Os faraós se casavam, de preferência, com suas próprias irmãs. Édipo matou o pai e dormiu com a própria mãe, Zeus, o pai dos deuses pegava todas, não importando se eram parentes ou não, e aí por diante. 
Essas metáforas remontam à origem dos nossos desejos e se referem à luta que se trava dentro do nosso inconsciente para separar o bem do mal, a ética da desordem, a moral da degradação, o instinto animal da consciência de humanidade, que acompanha todo processo civilizatório.
A verdade é que Abraão, com a descoberta da noção do Deus único, também deu nascimento ás noções de Ética e Moral, como componentes necessários ao desenvol-vimento de uma civilização sadia. Assim, o embate entre o povo de Israel e os seus vizinhos, tal como nos conta a Bíblia, é a história dessa luta entre os nossos instintos mais primitivos e a nascente consciência da humanidade a dizer que há uma distinção entre homens e animais, pois o homem, ao crer num Deus, e a necessidade de respeitá-lo, honrá-lo e temê-lo, terá que, obrigatoriamente, aprender a controlar os seus instintos mais primitivos.
 
A posição da Maçonaria

     Afora a mensagem nitidamente ideológica que o episódio carrega (a de que os israelitas são puros, éticos, morais, civilizados e seus vizinhos não), a história de Sodoma e Gomorra e das Filhas de Lot é uma rica metáfora que nos leva a refletir. Será que, passados tantos séculos, nós já conseguimos superar o complexo das Filhas de Lot? Ao ver a realidade dos nossos dias, com tantos abusos dessa ordem, me parece que falta ainda um longo caminho para essa sublimação. Quantos séculos ainda iremos levar para isso e quantas intervenções divinas ainda serão necessárias para que possamos dominar essa inata perversão moral que a nossa origem animal nos legou?
Só Deus sabe, mas a prática maçõnica tem uma posição formada sobre isso. Essa posição se reflete em duas metáforas interessantes que informam sua filosofia. A primeira é a de que a consciência humana foi um atributo que Deus legou aos homens para que ele botasse ordem no caos. Ordo Ab Chaos. Essa aliás, nos parece, foi a também a motivação de Deus quando tirou Abrão e sua família de Ur dos caldeus e mandou que ele fosse procurar uma nova terra para criar um novo povo. Uma terra longe daquele caos espiritual que devia ser a religião da Caldéia, onde a feitiçaria, a astrologia, a necromancia, e todas as superstições que inundam o espírito humano faziam do homem muito mais um escravo dos seus medos do que um “pedreiro da obra universal”, como Abrão pensava que deveria ser.
Dessa forma é que ele viu, que ao invés de ficar levantando “zigurats”(torres para ficar observando os astros e cultuar falsos deuses), os homens deviam usar o seu talento para a ganhar a vida com honra e  vivê-la com virtude. Daí a divisa que hoje norteia a maçonaria: erguer masmorras ao vício e levantar templos à virtude.
Essa é a idéia maçônica que a religião de Abrão legou ao mundo. A de que Deus é o Grande Arquiteto do Universo e que ele não precisa de templos suntuosos para ser cultuado, pois ele está em toda parte, já que todo o universo é a casa dele. Por isso ele erguia altares de pedra por onde passava e via a presença de Deus em todos os lugares.
A nação de Israel, com sua tradição ética e moral, e a sua visão espiritualista de um universo estruturado como se ele fosse um edifício que é construído diariamente por todos os homens com suas obras, e sustentado em sua base (colunas) por um escol de “escolhidos”, é o arquétipo inspirador da idéia maçônica. Nessa inspiração está a sua força e também a justificativa para a maioria das teorias conspiratórias que lhe são atribuídas. Exatamente como são atribuídas também aos judeus, que para algumas pessoas, ainda são os responsáveis por tudo de ruim que há mundo.
Mas como Israel sobreviveu a todos os ataques que ao longo da história lhe foram feitos, e permanece como o único povo antigo que ainda conserva e vive segundo sua milenar tradição, também a maçonaria sobreviverá por muito tempo pois ela se inspira no mesmo arquétipo. Esse arquétipo é o da utopia, ou seja, a idéia de que existe uma ordem social perfeita que pode ser alcançada pela fé de um grupo na existência de um Ser Supremo, e que este dirige os esforços do grupo na tarefa de construir essa Obra. Essa é uma boa coisa para se acreditar.      
 
 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 13/03/2014
Alterado em 13/03/2014
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