João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


A expressão “subir a Escada de Jacó”, na linguagem maçônica, significa absorver a ideia de que o iniciado pertence a uma Confraria de pessoas especiais, que devem viver, na prática, os ensinamentos maçônicos, lutando sempre pela defesa dos fundamentos sobre os quais a instituição Maçonaria está assentada: a Liberdade, a Igualdade e Fraternidade. E nesse sentido respeitar e honrar a instituição á qual pertence com uma conduta ilibada no mundo profano e uma atitude tolerante e respeitosa para com todas as crenças e religiões, pois que essa é conduta  que se espera de um verdadeiro maçom. 
Literalmente, essa expressão foi inspirada em um texto bíblico. Jacó era filho de Isaac e neto de Abraão, patriarca que, segundo o Livro Sagrado, trouxe os primeiros israelitas para a Palestina. Ao viajar para a terra onde morava seu tio Labão, á procura de uma esposa entre suas primas, ele se deitou para descansar próximo á uma cidade chamada Luz. [1]
Logo adormeceu e teve um sonho, ou visão, na qual viu anjos subindo e descendo uma escada que ia da terra até o céu. Jacó interpretou o seu sonho como sendo uma visão da promessa de Deus, feita a seu avô Abraão, e a seu pai Isaque, de que daria á sua descendência aquela terra. E se essa promessa fosse cumprida, Jacó e seus descendentes, ou seja, o povo de Israel, dariam ao Eterno Deus a sua parte, que seria a porção semanal chamada vaitsé.[2] 
    Mas como Jacó achou que tivera uma visão da Casa de Deus, e que seus olhos tinham contemplado a Porta dos Céus, palavra que em hebraico se diz Bet-El, logo os intérpretes da Bíblia começaram a fazer ilações entre o sonho do patriarca e outras visões proféticas, constantes do Livro Sagrado ou de outros trabalhos elaborados por místicos e videntes, judeus e cristãos. Entre os intérpretes judeus a principal conexão bíblica da Escada de Jacó com visões de outros profetas foi feita com a do rabino Ezequiel, visão essa conhecida pelos cabalistas pelo nome de Mercabah, ou Carro de Rodas de Fogo de Ezequiel. E entre os gnósticos cristãos a principal analogia se faz com a chamada viagem do patriarca Enoque pelas “altas moradas dos mais sábios e imutáveis reinos do Todo-Poderoso, das mais gloriosas e brilhantes estações de muitos olhos dos servidores do Senhor, e o inacessível trono do Senhor; e os graus e manifestações e hostes incorpóreas e o inefável ministério e a multitude dos elementos, e as várias aparições e o canto indizível das hostes dos querubins, e a Luz infinita” Esse estranho e místico texto retrata a viagem que o patriarca Enoque fez pelos Sete Céus da esfera celeste, levado pelo Arcanjo Raziel, para que ele visse e descrevesse as moradas celestiais e os caminhos que uma alma deveria percorrer para alcançar a devida redenção. Essa viagem é o tema de uma estranha obra gnóstica chamada “O Livro dos Segredos de Enoque”, um dos livros considerados apócrifos pela Igreja Católica.[3]
    
Entre os maçons essa visão tem sido interpretada como um símbolo da ligação existente entre o céu e a terra – ou entre as coisas sagradas e profanas, o homem e Deus –, e os anjos vistos por Jacó, subindo e descendo essa escada (levando coisas da terra para o céu e trazendo coisas do céu para a terra), são os intermediários dessa ligação.
Essa interpretação traduz a ideia cultivada na tradição maçônica, segundo a qual as hostes angélicas são formadas por “mestres” construtores do universo e os homens são os seus “aprendizes”. 
Essa ideia, que é uma inspiração emprestada da filosofia gnóstica, também encontra muitas raízes em outras doutrinas místicas. Nesse sentido, é importante lembrar que em todas as tradições esotéricas existem alusões à “escadas” que os iniciados devem subir, para alcançar a iluminação. Nos Mistérios de Indra, praticados pela classe nobre dos hindus, há a Escada de Brhama, a qual o brâmane deve subir, para atingir os céus de Brhama e penetrar na sua divina Luz. Nos Mistérios Mitraicos, a escada de Mitra é uma peregrinação pelos céus governados por aquele Deus, e na Cabala, a escada dos dez degraus, simbolizada pela Árvore da Vida é uma autêntica jornada iniciática que todo cultor dessa tradição deve subir para contemplar e entender, de fato, os Mistérios da Obra de Deus.
De algum modo todas essas "escadas" se referem aos “mundos”, ou estágios de sabedoria que o espírito humano deve galgar para ter o seu núcleo luminoso - que é a sua alma - filtrado de toda impureza que a sua passagem pelo mundo da matéria lhe deixou. Pois a alma é vista como uma centelha de luz, energia saída do Centro Irradiante, que é o Criador. Ela, como todo o resto da energia irradiada pelo Criador, gerou massa, e nela ficou aprisionada. A mente, espelho dos nossos desejos, é a prisão da alma. Por isso ela deve ser aberta, purificada, expurgada de todos os seus conteúdos viciosos, inspirados pelos sentidos. Pois só assim, a alma reencontra a sua pureza inicial, feita de luz e pode ascender, limpa, leve e solta, ao território da Divindade, para com ela se integrar.
 
Essa também é a visão que a Cabala nos dá do processo de redenção da alma, visão essa que é compartilhada pela Gnose e pela Teosofia. Essa visão é o núcleo central de toda a sabedoria iniciática. Na cadeia iniciática do Bramanismo, por exemplo, esses estágios de purificação da alma correspondem á purificação do corpo através da Ioga, da mente através da contemplação dos nossos estados externos e internos (mentepsicose); a viagem pelo vazio de si mesmo (atingindo o nirvana, a ausência de sentimento, o controle de todos os sentidos); com esses exercícios se obtém a purificação total da mente (passagem da esfera material para a espiritual), na qual ocorre a contemplação do palácio do Grande Rei (onde a alma se prepara para receber a Luz) e finalmente, a entrada na Casa de Brhama (onde se dá a integração da alma, transformada em pura luz, com o Centro Irradiante, que é Brhaman).
Na doutrina católica há um paralelo desse arquétipo na prática das sete virtudes teologais, que são a Fé, a Esperança, a Caridade, a Temperança, a Prudência, a Fidelidade, a Castidade e a Justiça, as quais se opõem aos sete vícios, ou pecados capitais, que são a avareza, a usura, a gula, a intemperança, a luxúria, a inveja e a preguiça.  A aquisição dessas virtudes de caráter eliminam, gradativamente, os vícios, e a alma vai se purificando por esse processo. É uma estratégia bem mais simples que as desenvolvidas pela Cabala e pelas doutrinas esotéricas, pois aqui se percebe claramente a influência da doutrina moralista desenvolvida pelos teólogos da Igreja de Roma, principalmente Santo Agostinho e Tomás de Aquino. Trata-se mais de uma prática de vida do que uma disciplina iniciática, já que aqui não se fala de uma iniciação, propriamente dita, mas apenas de fé e comportamento.
Assim, a Escada de Jacó, na doutrina católica, é uma jornada pela senda da virtude, representada pela aquisição de um catálogo de qualidades de caráter, que a Igreja julga fundamentais para que a alma do catecúmeno alcance o devido merecimento para conquistar o seu lugar no céu. Essa ideia, como veremos, será aproveitada no catecismo maçônico dos graus superiores, na alegoria da Escada Mística.[4]
 
Já os muçulmanos dizem que Alláh é o Senhor da Escada, pela qual os anjos e o espírito do homem subirão até Ele um dia; um dia cuja duração é de cinquenta mil anos.[5] Isso porque, na ótica do Islã, o homem não tem livre arbítrio, ou seja, a salvação da sua alma não depende do que ele faça em vida, mas sim da vontade de Alláh, que é o Senhor de todos os destinos
Psicologicamente a Escada de Jacó é um arquétipo que simboliza, especificamente, á jornada mística do espirito humano em busca da iluminação.  Isso porque todo simbolismo iniciático tem em vista a libertação da luz interior que o ser humano encerra. Subir a Escada de Jacó é, pois, uma verdadeira viagem que alma humana deve fazer para retornar ao Centro Irradiante, emissor da energia responsável pela existência do universo. No simbolismo da Cabala significa percorrer a Árvore da Vida de baixo para cima, saindo da sefirot Malkuth, onde estamos localizados em nossa vida terrena, até Kether, a coroa da Criação, primeira manifestação da Energia Criadora no mundo da Existência Positiva.[6]
Resumindo, subir a Escada de Jacó é uma jornada que a nossa alma deve empreender pelo território da moral e da virtude, para se livrar dos vícios e desejos que a tornam prisioneira da matéria. É, em suma, uma jornada em busca de Luz.
 
 
 
[1] Êxodo, 28:20- Imagem: Enciclopédia Barsa.
[2] Idem, 28:22
[3] Livro dos Segredos de Enoque, Ed. Mercuryo, S.Paulo, 2001.
[4] Vide capítulo
[5] Até Ele ascenderão os anjos com o Espírito (o anjo Gabriel) em um dia cuja duração será de cinqüenta mil anos. ”Alcorão:Sura 70:4-7
[6] Vide capítulo XI sobre os conceitos de Existência Negativa e Existência Positiva e o capítulo
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 28/02/2016


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