João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


A lenda do pelicano

     Conta uma lenda medieval que um pelicano saiu de seu ninho em busca de comida para os seus recém-nascidos filhotes. Não notou que por perto se escondia um predador, só esperando a sua ausência para atacar o ninho. 
    Mal o pelicano desapareceu no horizonte, o danado atacou os coitadinhos, que ainda não tinham aprendido a voar e nem a se defender. 
    O predador devorou a todos, só deixando como sobra as pequeninas ossadas com as penas que mal começavam a despontar. Quando o pelicano voltou ao ninho viu a tragédia que ocorrera. Atirando-se sobre os restos dos corpos dos filhos, chorou horas e horas, até que suas lágrimas secaram. 

     Sem mais lágrimas para chorar pelos filhos mortos, começou a bicar o próprio peito, fazendo verter sobre o corpo dos pequeninos o sangue que jorrava dos ferimentos que ele mesmo provocara com aquela mutilação. 
     No seu desespero não percebeu que as gotas do seu sangue, pouco a pouco iam reconstituindo a vida dos seus filhos mortos. E assim, com o sangue do seu sacrifício e as provas do seu amor, a sua família ressuscitara. 
     Provavelmente foi a partir dessa lenda que o pelicano se tornou um símbolo de amor e sacrifício. Durante a Idade Média eram vários os contos e tradições em que esse pássaro aparecia como  representação da piedade, do sacrifício e da dedicação á família e ao grupo ao qual se pertencia. Essa terá sido também, a razão de os cátaros, os rosa-cruzes, os alquimistas e outros grupos de orientação mística  terem adotado esse pássaro em suas simbologias.
     Para os alquimistas o pelicano era um símbolo da regeneração. Alguns operadores alquímicos chegaram inclusive a fabricar seus atanores ― vasos em que concentravam a matéria prima da Obra ― com capitéis que imitavam um pelicano com suas asas abertas. Tratava-se de captar, pela imitação iconográfica, a mesma mágica operatória que a ave possuía, ou seja, aquela capaz de regenerar, com seu próprio sangue, os filhotes mortos. 
     Os rosa-cruzes, em sua origem, na maioria, eram alquimistas. Daí o fato de terem adotado o pelicano como símbolo da capacidade de regeneração química da matéria da Obra não é estranho. E é compreensível também que em suas imaginosas alegorias eles tenham associado essa simbologia com aquela referente ao sacrifício de Cristo, cujo sangue derramado sobre a cruz era tido como instrumento de regeneração dos espíritos, medida essa, necessária para a salvação da humanidade. Daí o pelicano tornar-se também um símbolo cristão, representativo das virtudes regeneradoras do cristianismo, da mesma forma que a rosa mística e a fênix que renasce das cinzas.

Os popelicans


    Porém, o grupo que mais contribuiu para que o pelicano se tornasse um símbolo místico por excelência foram os cátaros. Os sacerdotes dessa seita, que entre os séculos XI e XII se tornaram os principais opositores da Igreja Católica na Europa, chamavam a si mesmos de “popelicans”, termo de gíria francesa formado pela contração da palavra pope (papa) com pelican (pelicano). Significa, literalmente, “pais pelicanos”, numa contra facção com os sacerdotes da Igreja Católica que eram considerados os predadores da lenda (no caso uma serpente, como conta Leonardo da Vinci em sua versão da lenda.[1]
       De certa forma, os cátaros, com suas tradições místicas e iniciáticas, se tornaram irmãos espirituais dos cvaleiros templários e antecessores dos rosa-cruzes e dos maçons. Condenados pela Igreja Romana por suas idéias e práticas heréticas, eles foram exterminados numa violenta cruzada contra eles movida pela Igreja em meados do século XIII.
     Os cátaros chamavam a si mesmos de filhos nascidos do sacrifício de Jesus. Eles diziam possuir o verdadeiro segredo da vida, paixão e morte de Jesus, que para eles não havia ocorrido da forma como os Evangelhos canônicos divulgavam. Na verdade, eles não acreditavam na divindade de Jesus nem na sua ressurreição, mas tomavam tudo como uma grande alegoria na qual a prática do exemplo de Cristo era a verdadeira medicina da ressurreição. E dessa forma eles a praticavam, sacrificando a si mesmos em prol da coletividade a qual serviam. Dai serem eles mesmos "popelicans.”[2]

 
O Cavaleiro do Pelicano

      A Maçonaria adotou a lenda do pelicano por influência das tradições rosa-cruzes que o seu ritual incorporou. Por isso é que encontraremos, no grau 18, grau rosa-cruz por excelência, o pelicano como um dos seus símbolos fundamentais. O próprio título designativo desse grau é o de Cavaleiro do Pelicano ou Cavaleiro Rosa-Cruz. 
     O Simbolismo do pelicano é uma alegoria que integra, ao mesmo tempo, a beleza poética da lenda, o apelo emocional do mistério alquímico e o romantismo do sacrifício feito em nome do amor. Tanto o Cristo quanto a natureza amorosa vertem seu sangue para que seus filhos possam sobreviver. José de Alencar, grande expressão da literatura romântica brasileira utilizou esse tema em um de seus mais conhecidos trabalhos, o poema épico Iracema. Nesse singelo poema a índia Iracema, sem leite em seus seios para alimentar Moacir, o filho dos seus amores com o português Martim, rasga o próprio seio e o alimenta com seu sangue. Assim, o filho da aborígene com o colonizador torna-se o protótipo do homem que iria povoar o novo mundo, a “nova utopia”, a civilização renascida, fruto da interação da velha com a nova civilização. Seriam esses “filhos renascidos” do sacrifício da sua mãe que iriam, na visão do escritor cearense, mostrar ao mundo uma nova forma de viver. 
 
O mito da Fênix
 
     Por isso é que no grau 18 iremos encontrar toda uma tradição inspirada em temas alquímicos e cavalheirescos, tais como a alegoria da procura pela Palavra Perdida, que é claramente um tema hermético-cabalístico, da mesma forma que o mito da Fênix, o mítico pássaro que renasce das próprias cinzas, que na verdade, é uma alegoria que se refere ao processo de obtenção da pedra filosofal, o objetivo último de todo trabalho alquímico.


     É verdade que nos ritos maçônicos as referências ao processo  alquímico foram transformadas em alegorias de fundo espiritual para dar um caráter de esoterismo e transcendência á liturgia ritualística que ali se representa. De outra forma, cristianizaram-se diversas alegorias de inspiração hermética, para dar aos iniciados nesse grau uma aparência de doutrina alinhada com o pensamento cristão. Dessa forma, a Palavra Perdida, que na origem se soletrava IHVH, (o Tetragramaton dos gregos), passou a ser soletrada INRI, iniciais colocadas na cruz de Cristo.[3]  
     Dessa forma, o catecismo do grau 18 do Rito Escocês, nada mais é do que o pensamento rosa-cruz cristianizado. Por isso é que, no painel do grau são representadas algumas das mais interessantes alegorias alquímicas. Ali encontraremos a pedra que transpira sangue e água, posta sobre um triângulo que representa o Gólgota. E sobre o vértice desse triângulo uma rosa, simbolizando o sangue que o Filho do Homem verte sobre a cruz para a remissão dos pecados da humanidade. No meio da rosa, a letra G, símbolo da Maçonaria, que representa a iluminação final, obtida pelo iniciado. No meio do painel o mítico pássaro Fênix, renascendo das próprias cinzas, está a denunciar o caráter hermético do grau, pois esta alegoria representa a própria essência da obra alquímica, ou seja, a ressurreição do metal impuro que foi destruído pela ação do fogo, e renasce das suas próprias cinzas, em outro estado, mas agora como metal puro, nobre, ou seja, o ouro.

O banquete místico

     Outra indicação de que o grau 18 foi inteiramente cristianizado é a obrigatoriedade do seu ritual ter que ser realizado nas quintas-feiras santas, no horário em que Jesus teria feito a sua última ceia com seus discípulos. Essa tradição denota a inspiração crística do grau, no sentido de que essa simbologia evoca um rito de passagem muito caro aos cristãos, que é a Santa Ceia. A Santa Ceia, como se sabe, foi a “iniciação de fato” a que Jesus submeteu seus discípulos para definitivo ingresso na sua Fraternidade. Essa iniciação se consumou com o simbólico ágape, no qual ele concitou seus discípulos a “beberem seu sangue e comerem sua carne”, para que eles, com esse ato, pudessem estabelecer uma eterna comunhão com ele. Essa tradição era comum em todas as antigas iniciações, pois o simbolismo de “comer o deus e partilhar do seu sangue”, constitui um dos mais antigos costumes da humanidade, como informa James Fraser em seu estudo clássico sobre mitos e tradições dos povos antigos
. [4]
     Daí, também o enceramento do grau ser feito com um banquete ritual onde os irmãos dividem um carneiro, evocação ao simbolismo do “cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, simbolizando que os iniciados nesse grau, doravante chamados de “Cavaleiros Rosa-Cruzes” são os “novos homens”, renascidos como a fênix, responsáveis pela “transformação do mundo” preconizada pelos Manifestos Rosa-Cruzes.


     Se lembrarmos que na mística cristã, Jesus é o “Cordeiro de Deus”, esse simbolismo alcança o seu significado místico completo, pois a partir daquele momento, os Cavaleiros da Rosa-Cruz são como os apóstolos de Cristo, porque “compartilharam da sua carne e do seu sangue.”
    O grau 18 é um grau inteiramente crístico, como se pode ver. Toda sua simbologia e liturgia é evocativa de motivos cristãos. Entre os símbolos do ofício do maçom, o compasso, o esquadro e o tríplice triângulo, uma rosa mística dentro de uma cruz de ébano reina absoluta em sua imponente beleza.  Três colunas resplandecentes, com a trilogia virtuosa nela inscrita (fé, esperança e caridade) embelezam o ambiente. As palavras de passe e saudação do grau são inspiradas no episódio da Anunciação. [5]
 
     Com essa incursão nos mistérios mais profundos da alma humana e sua conexão com os segredos da natureza, que presume-se, eram do conhecimentos dos rosa-cruzes, é encerrado o ensinamento dos graus capitulares. A próxima escalada será pelos graus filosóficos das Lojas Aeropagitas, Kadosh e Administrativa, ocasião em que o iniciado maçom entrará em contato com temas de profunda espiritualidade, completando, dessa forma, sua escalada pela Escada de Jacó. [6]

 
 
[1] Leonardo da Vinci também reconta essa estória, que segundo alguns autores, seria uma fábula de Esopo. Na imagem, o avental do grau 18, tendo como símbolo o pelicano.
[2]Veja-se no romance O Pêndulo de Foucault” de Humberto Ecco, um interessante jogo de palavras com esse termo e o segredo dos templários.
[3] Esta também é uma clara inspiração alquímica, pois as iniciais INRI,  é um acróstico que revela uma divisa muito utilizada pelos alquimistas  Ela significa “Ignea Natura Renovatur Integra”, que pode ser interpretada como “A natureza inteira se renova pelo fogoalegoria que os alquimistas usavam para representar o processo pelo qual se obtinha a pedra filosofal. 
[4] James George Fraser- O Ramo de Ouro- Ibrasa, 1986.
[5] Mateus, 1:23- Lucas, 1:28. Na imagem o símbolo da Rosa-Cruz.
[6] A análise das influências históricas e filosóficas dos graus filosóficos e Kadosh foi feita no nosso livro “Mestres do Universo”, publicado pela Ed. Biblioteca 24x7- 2010 em 2010.

(excerto do capítulo XXIV da nossa obra "Conhecendo a Arte Real- 2º Edição) Ed. Madras, S. Paulo).
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 08/04/2017
Alterado em 08/04/2017
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