João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


PASSAGEM DA NOITE


Quando criança, acordei uma vez no meio da noite e pensei que havia ficado cego. A escuridão era total. Devo ter feito um escândalo formidável, pois me lembro dos meus pais correndo feito loucos, abraçando-me, confortando-me, como se eu tivesse realmente me machucado.. 
Mas desde então o meu maior medo sempre foi ficar cego. Deve ser horrível ficar cego. Andar por um mundo onde a luz não penetra, onde se podem encontrar sabe lá que tipo de monstruosidades. Vi uma vez um filme feito no fundo do oceano, onde nenhuma luz conseguia penetrar. Existiam coisas medonhas vivendo nessas profundezas escuras!
Não tenho medo do que é simplesmente escuro. Sei que o escuro que aparece neste mundo em que vivemos é apenas a luz obstruída. Removida a obstrução, ela reaparece em toda a sua integridade. Por isso as religiões de todos os povos ensinam que a nossa alma deve sempre procurar a luz. A luz é boa, a escuridão é ruim. Deus fez o mundo tirando a luz das trevas. Está escrito na Bíblia.
Eu costumava usar essa metáfora bíblica para resolver alguns problemas práticos. Sempre que as coisas "escureciam"  na minha vida, eu pensava logo que alguma coisa estava obstruindo a entrada da luz e imaginava um meio de removê-la. A minha mente então focava o obstáculo e eu podia concentrar minha atenção em removê-lo. Costumava dar certo. Essa metáfora sempre ajudava minha mente a achar uma solução para os meus problemas.
 
Até então, como adulto eu ainda não enfrentara nenhuma experiência onde a escuridão é total e a gente sente que ficou cego. Mas agora eu estava de volta àquela experiência da minha infância. Acordei novamente no meio da noite, em meio á uma treva espessa. Um breu indevassável e silencioso me cercava. Busquei o recurso da metáfora, procurando focar no obstáculo que obstruía a passagem da luz, mas desta vez não funcionou. Procurei, às apalpadelas, o interruptor, e tentei acender a luz do quarto. Nada. A energia estava desligada. Lembrei-me que antes de deitar, uma tempestade ‘havia se formado no céu. Relâmpagos cortavam o ar por todos os lados, como espadas flamejantes rasgando um véu, e os trovões ribombavam no céu, numa competição maluca de sons abafados e contínuos, que pareciam jamantas carregadas de dinamite colidindo umas com as outras.
 “Parece que São Pedro tem uma pedreira no céu”, minha filha de dez anos me disse uma vez, quando uma dessas tempestades desabou em cima da nossa casa. Eu achei engraçada a comparação que ela fez.  Mas era isso mesmo que parecia aquele balé de estocadas luminosas, acompanhadas de estrondos assustadores que enchiam o céu de riscos, num espetáculo lindo e assustador ao mesmo tempo.
"De certo foi isso que cortou o fornecimento de energia. Amanhã estará tudo bem", pensei.
Lembro-me de ter levantado e aberto uma fresta da janela. Afastei um pedacinho da cortina e tentei ver se enxergava alguma coisa. Nada. Estava mais escuro lá fora do que dentro do quarto. A chuva continuava caindo, intermitente. 
Lembrei-me da preocupação com que a minha mulher foi se deitar.  “Será que essa chuva vai ser uma daquelas tempestades brabas? Perguntou ela. “Se for, talvez seja melhor a gente não ir dormir. Nunca se sabe. Esse barranco que fica atrás da casa me dá medo. Não sei. Nunca confiei nele."
“Bobagem”, respondi. “Nossa casa tem alicerces bem firmes. Não há perigo. Vamos dormir.” 
Fomos. Acho que foi a preocupação dela que me fez acordar no meio da noite nessa total escuridão. Dizem que quem dorme com cachorro no quarto sonha com lobisomem. Quem dorme com preocupação na mente sonha com mulher ou com problema para resolver. Uma e outra são a mesma coisa, afirmam os sábios. Uma vez fui dormir depois de ter brigado com a minha mulher. Nunca tinha feito isso antes. Brigar era comum para nós. A gente brigava por qualquer bobagem desde que nos casamos, mas nunca íamos para a cama sem fazer as pazes antes. Nessa noite, em que fomos dormir sem fazer as pazes, sonhei que um cachorro tinha comido o meu pinto.
 
Ouvi dizer que escuridão completa não existe, assim como a pura luz. Uma e outra sempre conservam um pouquinho de cada uma. Se isso for verdade, talvez eu tivesse mesmo ficado cego. Pois não consegui enxergar absolutamente nada em meio à treva espessa que inundava meu quarto. Era estranho. Não havia sons nem imagens, nem quaisquer sinestesias nessa escuridão. Parecia que eu estava dentro daquela canção do Simon e Garfunkel. Hello darkness, my old friend, I came to talk with you again, because a vision softly creeping, left its seeds while I was sleeping...” *
Sei que minha mulher estava roncando como de hábito. Ás vezes ela ronca como uma chaleira no fogo. Fsssssssss, fssssssss, fsssssss.Outras vezes parece uma lixadeira desbastando uma tábua cheia de nós. Rrrrrrrrrr. Rsssssss. E tinha também aquele som de locomotiva a vapor diminuindo a marcha para entrar na estação.Rrrrrrrr, ffffff, Rrrrrr, ffffff. Estranho. Eu sabia que ela estava roncando, mas não escutava o som. Também sabia que estava chovendo e não ouvia os pingos tamborilando na vidraça. Lembro-me de estar sentado na cama, mas não conseguia sentir a sinestesia da pele em contato com a textura das roupas de cama. 
Parecia que todos os meus sentidos tinham sido amortecidos por aquela escuridão. “ Se cá fora nada vês que te agrade, vai para dentro de ti” disse um desses poetas anônimos que escondem na noite dos inéditos as suas mágoas cotidianas. “Quem sabe se nesse labirinto que tu és, consigas capturar uma réstia de luz. Quando conseguires esse sucesso, dá o teu grito de liberdade. Tú estarás irremediavelmente morto.”
Era um poema mórbido aquele, e eu não tinha a menor idéia do porque me lembrara dele naquele justo momento.
 
De hábito, eu nunca gostei muito dessas aventuras pelos porões da inconsciência. Minhas próprias memórias, e o arquivo morto do meu inconsciente, não são lá muito confortáveis de explorar. Meu passado não me orgulha e talvez por isso o presente me incomodasse. Do futuro também nunca gostei de falar. Não vale a pena perder tempo com incertezas. Por isso sempre evitei o mergulho fundo no inconsciente pelo medo da lama que  poderia libertar. 
Mas nessa noite eu não tinha outra alternativa. Para dentro de mim mesmo era a única direção que eu poderia caminhar naquele momento. Do lado de fora estava tudo escuro. Era um mundo de onde fora banida toda e qualquer informação que pudesse dizer aos meus sentidos que ainda existia um mundo real do lado de fora de mim. Cada passo que eu desse, se eu pudesse dar qualquer passo dentro daquele quarto, me levaria a lugar nenhum, porque fora de mim era um vácuo sem qualquer direção. Sabia disso pelo nada que eu sentia existir no quarto e fora daquela janela, cuja fresta eu abrira. 
Então eu resolvi caminhar para dentro de mim mesmo.  Lá talvez houvesse uma possibilidade de sair em algum lugar. Sentia que dentro daquele labirinto em que me metia, era possível encontrar alguma luz. 
Então viajei, como um astronauta que se vê, de repente, atirado em um buraco negro. Senti a forte gravitação, a infinita relatividade. Uma que me empurrava para o vácuo infinito, outra que tentava me puxar para dentro de mim mesmo. Vi, num relance, tudo que havia vivido desde que fui concebido. Desde o momento em que não podia ser distinguido de uma minúscula bolinha de proteínas e ácidos graxos. Depois, o difícil caminho percorrido num canal estreito, silencioso, úmido e escuro, até saltar para um vazio iluminado e sonoro, mas desprovido de calor e proteção. Depois a difícil adaptação. Aprender a comer, a andar, a falar, a fazer as necessidades sozinho. A sentir dor e prazer. A distinguir o que devia amar e o que devia odiar. Aprendi que tinha deveres e direitos. Que umas coisas podia fazer, outras não. Que em umas pessoas podia confiar, e de outras desconfiar. Que tinha que agradar algumas e desagradar outras. 
Deus! Tudo isso passou pela minha mente com a velocidade da luz. Eu estava sentado na cama, mas parecia que estava levitando. Contei centenas de anos revividos em átimos de nano segundos, minhas vidas passadas e a atual, e no entanto, eu estava tão lúcido como se tivesse, realmente, vivido tudo outra vez. 
Sofri e gozei de novo cada fracasso e cada vitória. Cada dor e cada momento de prazer. Toda paz e toda guerra de todas as minhas vidas!
 
E foi então que vi aquela pequenina luz. Era, de início, um minúsculo pontinho azul, como se fosse uma pequena lâmpada de natal acesa no fim de um túnel. Mas eu sabia que era a luz de uma explosão nuclear. Foi estranho. Ela estava fora de mim, mas eu sabia que provinha de dentro de mim, da minha mente e do meu corpo se desintegrando. 
Eu sabia, também, que à medida que me aproximasse dela, ou que ela se aproximasse de mim, eu seria envolvido por ela, que ela me descarnaria todo, me dissolveria e dispersaria como a água faz com o açúcar, o vento com a poeira, o ar com a fumaça. Mas eu tinha que ser envolvido por ela, porque ela me atraia como um magneto atrai limalha de ferro. Então eu fui ao encontro dela, já sem dor ou prazer, sem alegria ou tristeza, por que todos os valores, todas as crenças, todas as sinestesias que antes se hospedavam neste complexo que eu chamava de Ego, haviam desaparecido como se tivessem sido lavadas com um produto que não deixa marcas nem resíduos.
Leve como o mais fluído dos gases entrei na zona de luz. Mas, antes de ser totalmente absorvido por ela eu vi, de relance, meu corpo deitado sobre os escombros daquilo que fora a minha cama. Em cima dela, ao meu lado, o corpo da minha mulher estirado, sangrando, mas ainda respirando e tentando se livrar da lama e dos entulhos sobre os quais ambos estávamos sepultados. 
E só então eu percebi que estava morto. Esse foi o meu último sonho, do qual  jamais acordaria.
 
_______________
* Alô, escuridão, minha velha amiga
Venho conversar com você novamente,
Porque uma visão sussurando docemente
Deixou suas sementes enquanto eu estava dormindo.
.."
Simon e Garfunkel- O Som do Silêncio.



 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 13/09/2017
Alterado em 13/09/2017
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