João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


A SANTA GESTALT
 
“Não estou mais triste por continuar tendo esta alucinação que me faz rir quando estou triste. Então prossigo rindo o tempo todo e isso faz os outros pensarem que eu sou louco. É aí que a minha alucinação (da qual não lhes falei) torna-se eles...”   Esquizofrenia Aristotélica- Fritz Perls “Isto é Gestalt”.
 
 
     Foi o Maikelson quem primeiro viu o fenômeno, estampado na vidraça do seu quarto. Foi ele quem o mostrou para sua mãe, que ficou, primeiro pensativa, depois curiosa, e  por fim satisfeita. 
     Aliás, o Maikelson, um mulatinho de sete anos de idade, que recebeu esse nome pelo fato de seu pai, o pedreiro Zezão, ser fã incondicional do Michael Jackson, era dado à visões desde os seus primeiros anos de idade. Ele já tinha visto Jesus Cristo no seu quintal, chutando bola com ele. Já tinha visto São Benedito na cabeceira da sua cama, enxugando sua testa, quando ele teve sarampo e quase morreu de febre. Já falara com o Papa João Paulo II, que morrera em 2005 e aparecera em sua casa alguns dias antes da abdicação de Bento XVI para dizer que o próximo Papa seria brasileiro. Não aconteceu o que ele disse, mas como o novo Papa é argentino, e considerando a idade do menino, que não distinguia ainda entre ser brasileiro ou argentino, as pessoas consideraram que ele havia acertado a previsão. 

    O fato é que o menino já gozava de uma certa fama de santo no bairro, fama essa que o Zezão não deixava de explorar, pois montara em sua casa uma espécie de consultório onde muita gente costumava vir em busca dos conselhos e das receitas que ele dava, segundo ele, “inspiradas” pelas visões do Maikelson. 
     A família do Zezão estava até satisfeita com o que eles chamavam de “dom” do menino. Afinal, além das “doações” que ele recebia por conta dos conselhos e das receitas “inspiradas” que ele dava, a mãe do garoto ainda faturava uma boa grana servindo "quentinhas" para os consulentes. E com os salgadinhos que ela mesma fritava e vendia para o povão que não cansava de fazer fila na porta da sua humilde casa em busca de cura para os seus males físicos e psíquicos, ela contabilizava uma gorda fatura no fim do dia. 
     Com isso eles já haviam prosperado tanto que deixaram o barraco sem água e luz que ocupavam na beira de um córrego fedorento, em um bairro afastado da cidade e compraram uma boa casinha em um bairro mais próximo do centro, com três quartos, um deles com banheiro conjugado, e até uma garagem para o Gol zero quilômetro que o Zezão havia adquirido. 
 
      Por isso é que eles não se importaram muito quando souberam que o menino Maikelson tinha os dias contados. Descobriram isso da pior forma possível. Um dia, em que a casa estava cheia de consulentes, o menino não apareceu para “inspirar” o Zezão nos conselhos e consultas. Ele foi até o quarto do garoto e o encontrou deitado no chão, desmaiado. Levado ao hospital, foi diagnosticado que o garoto tinha um tumor no cérebro e que mesmo com tratamento quimioterápico e até uma possível cirurgia, dificilmente sobreviveria por mais um ano. 
    Zezão tomou isso como se fosse a vontade de Deus e até botou na conta da história de vida do menino. Pois com um dom desses, ele não poderia mesmo ter uma vida normal. Pessoas assim morrem jovens e viram santos, alguém teria dito para ele, e ele acreditou. Ou então foi ele mesmo que desenvolveu essa crença e acabou convencendo o resto da família e os vizinhos e amigos, que então passaram a cultuar o menino como se ele fosse, de fato, uma nova Odetinha, só esperando a sua morte para reivindicar um processo de canonização. E naturalmente a construção de um santuário num terreno que o Zezão, já prevendo o futuro, havia comprado ali no bairro.  
     O padre da igreja do bairro, é claro, não estava gostando nada da evolução daquele negócio. Em primeiro lugar ele odiava a concorrência. O povo parecia acreditar mais nos conselhos do Zezão, inspirado pelo Maikelson, dos que nos sermões que ele fazia. Havia mais gente na casa do garoto, nos domingos de manhã, esperando por uma consulta do garoto, do que na igreja, para assistir as missas que ele rezava. 
     “Tenho pena da coitada dessa criança”, dizia ele. “Ela está sendo explorada por pessoas sem escrúpulos”. Esse foi o primeiro diagnóstico que ele fez. Não colou. As pessoas continuavam a procurar a casa do Zezão. Ele então mudou o discurso e passou a dizer que aquilo era coisa do demônio. O “demônio”, esgoelava ele em suas homílias, “é tão esperto que até consegue se passar por santo. Ele pode enganar as pessoas fazendo com que elas pensem que estão sendo beneficiadas com milagres de Deus, mas na verdade, o que ele faz é para a perdição de suas almas. Só a Igreja está autorizada a reconhecer milagres.” 
      Apesar da sua eficiência dialética, a oratória do padre não convenceu o bom povo do bairro, que continuou a fazer fila na porta da casa do Zezão. Ele agora já tinha comprado o terreno próximo à sua casa e montado um grande restaurante popular que vendia comida por quilo. 
     Também não adiantou muito o padre pedir ajuda á polícia, denunciando Zezão por exploração de menor e manipulação da fé pública. O Conselho Tutelar, chamado a intervir no caso, não encontrou motivo nenhum para tomar qualquer providência, pois o menino era muito bem tratado pela família e não estava sofrendo qualquer constrangimento de ordem psicológica. Acresça-se a isso o fato de o conselheiro escolhido para fazer o relatório estar sofrendo de uma úlcera, que segundo ele, teria sido curada por uma receita do “santinho”. O Ministério Público, na pessoa do Promotor da Infância e Juventude, a quem foi pedido parecer, também não encontrou nenhum motivo para abrir qualquer procedimento no caso. 
     No fim, só restou ao padre engolir a raiva e o desprezo por tudo aquilo, e por que não dizer, a sua inveja, já que os fiéis estavam deixando na caixinha do Zezão muito mais ofertas que costumavam deixar na caixa de esmolas da Igreja.

     Foi por isso que ninguém estranhou, quando, quatro semanas antes do Maikelson entregar a sua inocente alma a Deus, apareceu aquela imagem na vidraça do seu quarto. Era uma imagem estranha, que a principio, a mãe do menino pensou que fosse uma mancha. Ela até pegou um pano molhado com álcool e esfregou na janela várias vezes. A mancha não saiu. Na verdade ficou até mais nítida. Tentou ainda tirá-la com uma loção limpa-vidros, mas nada da danada da mancha sair. Foi uma empregada, chamada para tentar fazer o que ela não conseguira, que exclamou assim que viu o estranho borrão:
    ̶  Mas essa não é a imagem de Nossa Senhora?
   Nos dias que se seguiram, a casa do Zezão, além de local de peregrinação em busca de conselhos e receitas para a cura das suas moléstias, virou também atração turística. Milhares de pessoas se acotovelavam em frente á janela do menino para ver a imagem da Nossa Senhora refletindo na janela do pretenso santinho agonizante. O restaurante da família teve que ampliar o espaço de serviço e a capacidade da cozinha. Zezão comprou mais mesas e cadeiras e fez um puxadinho coberto com telhas de amianto. Comprou geladeira nova e alugou banheiros químicos que foram instalados nas proximidades para atender a multidão. Cerca de vinte funcionários mais foram contratados para cozinhar e servir.
     Além disso, Zezão fez parceria com um sujeito que produzia camisetas estampadas e outros souvenires. Logo, milhares de pessoas começaram a circular pela cidade vestindo camisetas com a cara do santinho do bairro estampada nelas ou com a imagem da santa da vidraça. Não tardou para aparecer as fitinhas, os bonés, as canecas, os chaveiros, medalhinhas e molduras com o retrato do menino. Dezenas de barraquinhas apareceram da noite para o dia na rua, servindo todo tipo de comida, além de outros souvenires. Zezão tentou cobrar roailties dos barraqueiros. Alguns concordaram em pagar, outros não. Deu briga e até algumas mortes foram contabilizadas em razão do conflito. Disseram que o Zezão mandava matar quem não pagava. A polícia não conseguiu apurar nada nem provar que as mortes estavam ligadas às franquias que o Zezão queria cobrar dos barraqueiros. O fato virou notícia nos jornais de repercussão nacional e o local tornou-se um verdadeiro santuário. Os policiais encarregados de investigar se algum crime estava sendo cometido ali se acomodaram com as propinas que lhe foram pagas e sossegaram. De agentes públicos que eram passaram a ser seguranças da família do Zezão.
    
     O pároco do bairro é que não se conformou com isso. Depois do fracasso junto ás autoridades, ele consultou o Bispo e este o aconselhou que agisse pelos meios oficiais. “Vamos investigar a coisa toda, e se for mesmo um milagre, por que não reconhecer?”, disse o Bispo. Assim, iniciou-se o moroso e complicado processo de investigação que precede o reconhecimento de um milagre e a beatificação de seu autor primeiro, e posterior canonização depois. “Esse é um processo que pode levar dezenas de anos”, lembrou o Bispo “e nesse ínterim, as pessoas esquecem.” E se fosse uma farsa, como eles achavam que era, a desmoralização dos farsantes seria uma consequência lógica do fato.
     Então a Igreja chamou um famoso perito em arte vitral e um renomado médico-psiquiatra para analisar as estranhas imagens na vidraça do quarto do menino e todas as pretensas curas que eram atribuídas a ele. No laudo que ele apresentou ao Bispo e que foi divulgado na imprensa, o perito em arte vitral concluiu que, quanto á imagem, tudo não passava de irisação, um fenômeno que ocorre quando a luz solar bate sobre vidros de superfície irregular que ficam em contato constante com a umidade. Ao refletir as cores do arco-íris, eles projetam reflexos que formam desenhos irregulares, que podem sugerir figuras diversas. As cores bizarras que eles apresentam lhes dá um caráter de vitral de igreja e isso é a causa da impressão causada no povo.  
     Já o médico psiquiatra concluiu que as visões que o garoto tinha eram uma consequência da sua doença e que as pretensas curas a ele atribuídas constituíam um fenômeno produzido por sugestão, “fenômeno esse muito comum em casos como esse, em que ocorre uma espécie de histeria coletiva que induz um estado de bem estar, que pode inclusive agir sobre o processo homeostático das pessoas, ajudando-as a se curar de suas enfermidades, principalmente quando estas são produto da sua mente,” escreveu ele em seu laudo.
     A Igreja, agora falando oficialmente, concluiu que “a pretensão de que essa imagem fosse uma manifestação da graça divina era fazer um insulto a Deus. Deus era perfeito e se quisesse mostrar a glória da mulher que ele escolhera para se manifestar na terra, Ele não o faria de uma forma tão grosseira, através de uma imagem na qual não se distinguia nem a forma de uma mulher. A tal imagem, concluiu o autor do parecer eclesiástico, sarcasticamente, “mais parece uma garrafa de boliche do que a imagem de uma santa mulher.”
     Quanto ás pessoas que viam nela uma imagem de santa, o bispo declarou, enfaticamente: ─ Isso é o que a psicólogos chamam de “Gelstat”. As pessoas acrescentam ás imagens suas próprias ansiedades e vêem o que suas mentes querem ver. Essas coisas estão além da nossa imaginação.
 
     Maikelson morreu dois dias depois que a Igreja declarou oficialmente que a tal imagem na sua janela era uma “Gestalt”. Seu enterro foi o mais concorrido funeral que aquele bairro assistiu até hoje. Zezão mandou fazer uma grande capela no túmulo que ele comprou. Até hoje milhares de pessoas ainda o visitam em busca de milagres. Não são poucos os que afirmam terem sido contemplados. Mas ele mesmo não teve muito tempo para gozar a fortuna que juntou. Foi morto a tiros dois meses depois do enterro do menino, por um daqueles barraqueiros com quem ele entrara em conflito por este se recusar a pagar a franquia que ele exigia para que o cara pudesse vender suas mercadorias para o povão que buscava as graças do seu filho santinho. Houve quem dissesse que o tal barraqueiro era, na verdade, um pistoleiro que o padre contratara para dar um jeito naquela “zona”.   
     Se não foi, pelo menos o padre deve ter ficado satisfeito com o desfecho do caso, pois depôs no tribunal a favor do barraqueiro, e segundo as más línguas, ainda pagou advogado para ele.
    A Prefeitura, afinal, resolveu acabar com a farra e proibiu todo o comércio que se formara no local, em decorrência do culto ao “santo” Maikelson. A mãe do menino tornou-se evangélica e tentou construir um templo na sua propriedade, para fundar uma igreja chamada “do evangelho Maikelsoniano.” A construção não saiu do alicerce, mas uma seita já estabelecida comprou o terreno e ergueu lá um suntuoso templo onde se fazem muitos “milagres”. Não é raro um "cego de nascença" sair de lá enxergando o que ele nunca tinha visto antes. É comum também, alguns paralíticos jogarem suas muletas para a platéia e saírem saltitantes como gazelas novas, como se suas pernas sempre tivessem sido sãs.  
     A vidraça, com a suposta imagem da santa, foi retirada da casa e levada para a igreja do bairro, onde continua a ser visitada até hoje. São milhares de crentes que lá costumam se enfileirar para prestar culto à santa do bairro, a Santa Gestalt. E deixar, é claro, gordas esmolas por conta das graças recebidas. O padre até já pediu ao Vaticano que reconheça a nova denominação. Até porque muitos milagres já estão sendo atribuídos á Nossa Senhora da Gelstalt. Várias meninas no bairro já foram batizadas com o nome da nova santa.  A vida voltou ao normal.
     Enquanto isso, lá nas profundezas do inferno, o Diabo alimenta a sua caldeira, fuma seu cachimbo e agradece á sua linda santa, a Gestalt, por ser tão eficiente na arte de enganar as pessoas. Graças á ela nunca faltarão almas para povoar o seu sinistro reino.

 

 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 30/10/2017
Alterado em 30/10/2017
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