João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


A MORTE DUPLA

Uma leve pressão na nuca e um ligeiro tremor nas mãos foi o primeiro sentimento que ele teve. 
Um sentimento inquietante, como se algo estivesse errado, algo que ele não sabia o que era. Depois veio o sono. Um sono repentino, pesado, que dava a impressão que suas pálpebras pesavam um quilo e mais. Não conseguia mantê-las abertas. Mas ele não queria dormir. Não era hora de dormir. 
Eram apenas duas horas da tarde, tinha muita coisa para fazer. Que coisa esquisita aquele sono naquela hora. Nunca fora de dormir á tarde. Tinha plantão para atender no hospital, mas antes precisava ir ao banco pagar aquela fatura da prestação do apartamento  que comprara. Era o mais imperioso no momento. A fatura já vencera ha dois dias. Cada dia que passava vencia juros de 0,30% por dia. " Uns ladrões aqueles caras da construtora", pensou. Juros de 0,30% ao dia é pura agiotagem. Nem os bancos, reconhecidamente agiotas, cobravam juros tão escorchantes. Mas ele sabia disso e assim mesmo fizera o negócio. Afinal, o apartamento era o que sempre sonhara. Três bonitos quartos, um deles com banheiro conjugado, uma sala em L para dois ambientes, uma cozinha pequena mas bem bonitinha, com todos os aparelhos necessários, fogão, micro-ondas, geladeira, filtro de água, torradeira, enfim tudo que um jovem casal precisava para começar a vida. 
Ia se casar no mês seguinte. Viviane, sua noiva, não cabia em si de contente.Ele também. Seis anos de namoro, freqüentando a faculdade juntos, ele fazendo medicina, ela psicologia, finalmente iam ter o seu final feliz. Casamento, carreira, filhos. Suspirou com satisfação. 
Mas agora aquele sono repentino. Não, não podia dormir agora. O torpor aumentava. Sentou-se na poltrona do apartamento novinho e pensou que dentro de um mês estaria morando ali. Bocejou. O peso nas pálpebras aumentara. O torpor também. Mas ele não podia, mesmo, dormir. 

Duas horas e dez minutos. Tinha que ir, de qualquer maneira, ao banco. Nada de pagar juros para aqueles agiotas. Fez um esforço danado para levantar e ir ao banheiro. Jogou água no rosto. Mas que coisa... A água não tinha uma temperatura. Pelos menos ele não sentiu nenhuma. Era como se seu rosto estivesse protegido por um vidro. A água batia, escorria, mas não fazia som nenhum, nem provocava qualquer sensação identificável. Talvez fosse aquele torpor que sentia no corpo. Estranho. Estava leve como uma nuvem, mas o corpo estava tão entorpecido que ele não sentiu o girar da chave na mão, quando abriu a porta do apartamento e saiu. Não tinha sensibilidade nas mãos nem no resto do corpo. Somente aquele torpor. Na rua também tudo estava muito estranho. As pessoas falavam, mas ele não as ouvia. Andava por entre elas como se fosse um fantasma. Parecia que ninguém o via nem ouvia. 
O banco era próximo. Apenas um quarteirão distante do seu prédio. Pensou naquela maldita porta que havia lá. Sempre enguiçava com ele. Tinha que esvaziar os bolsos, tirar moedas, chaves, e ás vezes até o cinto, por causa da fivela de metal, e já tivera que tirar até a aliança para passar pela maldita porta. “Qualquer dia vou ter que ficar completamente nu para entrar nessa porcaria de banco”, ele já dissera para o guarda com cara de idiota que ficava controlando a entrada. Tinha certeza de que ele era o problema. Ele, o guarda com cara de idiota, controlava o mecanismo da porta e só barrava as pessoas com quem gostava de implicar. E ele era uma delas.
Mas naquele dia não aconteceu nada daquilo. Era o mesmo guarda com cara de samambaia que estava controlando a porta. E ela não foi obstáculo. Passou por ela como se a tivesse atravessando sem abri-la. Dirigiu-se á maquininha emissora de senha. “Coisa mais idiota”, pensou, “ter que pegar uma senha para ser atendido no caixa”. 
Havia umas seis pessoas na sua frente. Entrou na fila. Não saberia dizer quanto tempo passou até que ouviu aquele estampido surdo atrás de si. Voltou-se imediatamente para ver do que se tratava, e a única coisa que viu foi uma mancha de sangue se espalhar no peito do guarda com cara de idiota. Ela formava uma espécie de rosa rubra, embaixo da mão dele.
Gritou. Fez um movimento em direção ao guarda que caia. No mesmo instante percebeu que alguém se voltava para ele com um cano fumegante de revólver na mão. Da boca daquele cano saiu uma labareda azulada, seguida de um som abafado e uma nuvenzinha de fumaça. Algo queimou no seu flanco direito. Botou a mão no lugar da queimadura e tirou-a empapada de um líquido quente, grosso, viscoso. Sua mente começou a apagar-se. Nãooooo! Ele gritou.

Acordou empapado de suor. Estava sentado na poltrona do seu apartamento. Seu flanco direito ainda queimava. Passou a mão no local, esperando encontrar um líquido quente e viscoso. Nada. Estava tudo bem. Tinha sido apenas um pesadelo. Adormecera por alguns minutos. Não mais que cinco minutos, verificou, pois o relógio marcava duas horas e quinze minutos. 
Lembrou-se que precisava ir ao banco. Tinha que pagar a fatura vencida do apartamento. Levantou-se e foi ao banheiro. Exatamente como fizera no sonho. A lembrança estava bem nítida em sua mente. Abriu a torneira, jogou água no rosto. Mas agora ele sentiu. A frialdade da água batendo em seu rosto despertou-o de vez. Não era mais aquela sensação de água batendo na vidraça. “Meus Deus! Que sonho tão real”, pensou. 
Pegou a fatura em cima da mesa da sala e saiu. Desta vez sentiu a chave trabalhando na fechadura. Ouviu o click dela girando no tambor. Desceu até a rua. As pessoas iam e vinham. Ele agora as ouvia perfeitamente. Deu bom dia para algumas e ouviu bom dia de volta. 
O banco era apenas a um quarteirão dali. Não demorou mais que cinco minutos para chegar na porta dele. A porta. A maldita porta com o guarda com cara de samambaia. Será que ela ia se comportar como no sonho? Se abriria simplesmente para ele entrar sem aquele odioso ritual a que usualmente era submetido? Mas não. A porta emperrou como das outras vezes. Tirou as chaves do apartamento e colocou na abertura que havia ao lado. Depois despejou na caixinha de vidro algumas moedas que tinha no bolso. Tirou a cinta, com sua fivela de metal. “ Todo dia a mesma coisa. Vai querer que eu fique pelado?”, perguntou ao guarda com cara de idiota. Mas ele continuou olhando para ele com aquela cara inexpressiva."Que coisa mais ridícula!" 
Finalmente a porta girou e ele entrou. “Ah!, a maldita senha”, pensou. Foi até a maquininha e  pegou um número. Havia umas seis pessoas na frente dele. “Merda!”, pensou. “Quem mandou deixar essa bosta atrasar?” Se não fosse esse atraso poderia muinto bem pagar a fatura no caixa automático. Entrou na fila. 
Foi então que ouviu o estampido atrás dele. Voltou-se e viu o guardinha com cara de samambaia levar a mão ao peito, tentando estancar uma rosa vermelha que se abria no peito dele. Mas agora a cara dele tinha uma expressão. Era de dor, espanto, perplexidade. Voltou os olhos para a direita e viu um cano de arma fumegante apontado para ele. “É um assalto!” ouviu alguém gritar. “Todo mundo com as mãos para cima!”. Gritou, vendo o guardinha desabar no chão, com as mãos tintas de sangue. Fez um movimento para correr em seu socorro. Era médico. Era o seu dever. 
E tudo foi tão rápido que nem teve tempo de pensar que já vivera aquilo antes. Viu a labareda azulada que saia do cano do revólver. O som do estampido. A fumaçinha, que agora tinha um cheiro de pólvora que ele não sentira antes. A sensação de queimadura no flanco esquerdo. O sangue quente e viscoso nas mãos. Sim. Ele já sentira tudo aquilo antes. " Ele me acertou no fígado", pensou. A sua mente começou a apagar-se. “Não é possível”, foi o seu último pensamento. “Será que estou tendo o mesmo sonho outra vez?”              
 
A notícia estampada no jornal do dia seguinte falava do assalto a uma agência do banco X, na rua Y, e dos dois mortos que os assaltantes deixaram. Os mortos eram o guarda que controlava a porta e um jovem médico, recém formado, que não se sabe por que cargas d!gua foi baleado pelos bandidos. Ele não esboçara nenhuma reação contra eles. Apenas fizera um movimento em direção ao guarda baleado, provavelmente para ajudá-lo. Afinal de contas ele era médico. Esse era o seu dever.  
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 03/12/2017
Alterado em 03/12/2017
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