João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


                                       CAPÍTULO 12

     Minha mãe gostava muito da Rosana. Acho que era a única nora que ela gostava. Também a Rosana tinha aquele jeitinho de mulher que não dividia, apenas somava. Explico. Eu era o filho caçula da minha mãe. Ela teve oito filhos. Só quatro chegaram à vida adulta. Três meninos e uma menina. O meu irmão mais velho, Osvaldo, casou-se com dezoito anos, com uma menina que ele conheceu em uma plantação de repolhos, onde os dois trabalhavam e a minha mãe só veio a saber dela quando ele a trouxe para casa e disse que ela era a mulher dele. Era uma moça xucra de tudo, que em menos de três anos já tinha engravidado três vezes e perdido dois filhos, um com menos de um ano e outro dentro da barriga. Alguém disse para ela que crianças que morrem assim tão cedo viram anjos, e todo casal devia dar um de presente para Deus. E ela se sentia gratificada por isso. Por isso eu disse que ela era xucra.
    Minha mãe, que também era analfabeta e havia perdido quatro filhos ainda na infância, para a malária, a varíola e a febre tifóide, segundo ela, também achava a menina xucra. E não gostava dela porque acreditava que ela judiava do meu irmão. Não sei avaliar isso, mas se tivesse que julgar, daria meio a meio para cada uma. Faria como Salomão: cortaria a disputa pelo meio e daria metade para cada uma. Aquela que renunciasse á parte dela ficaria com a razão inteira.
    O fato é que a intolerância com essa minha cunhada durou a vida inteira. A vida inteira das duas, pois ambas já morreram. A minha mãe foi primeiro, e a minha cunhada apenas uns cinco anos depois. Mas enquanto viveram foi aquele relacionamento conflituoso de sogra e nora que mal se suportavam e só se falavam mesmo para simular uma educação que não tinham.
     Já com o meu cunhado, um paraibano que se casou com minha irmã Matilda, as razões do desagrado eram outras. O sujeito era um cangaceiro aculturado. Minha irmã o conheceu na fábrica onde os dois trabalhavam. Ela tinha vinte anos e o maior desejo da sua vida era sair de casa e ter a sua própria família.
     Não tiro as razões dela. Viver com a minha mãe não era fácil nem para nós, os meninos, quanto mais para uma menina como ela. Minha mãe tinha a cultura dela, herdada de uma infância e juventude passada longe da luz elétrica, dos bancos escolares, das conquistas mais elementares da civilização. Nascida no começo do século vinte, e criada num lugar onde o povoado mais próximo levava pelo menos cinco horas a cavalo para atingir, ela só podia passar para os filhos aquilo que havia aprendido aquilo que ela sabia.
     Minha mãe nunca se deu bem com o meu cunhado. Eram dois bicudos que viviam em mundos diferentes sem saber o quanto tinham de semelhança em suas intolerantes visões da vida. Ele achava que mulher só existia para prover as necessidades de um homem, por isso a primeira coisa que fez foi tirar minha irmã do emprego e forçá-la a ficar em casa, servindo-o como se fosse uma criada sem salário, a seu serviço durante o dia cuidando da casa e das coisas dele e de noite satisfazendo-o na cama, pouco se importando se ela gostava ou não.
     Mas devia gostar, porque logo no primeiro ano engravidou, e que eu me lembre, ela parecia estar feliz com tudo isso. E que eu me lembre ainda, nos dezoito anos que ela viveu com ele, a impressão que se tinha era que ela estava satisfeita. Até que um dia ela pediu divórcio, depois de três filhos e uma vida de doméstica sem qualquer garantia previdenciária. Enquanto isso, o meu então ex-cunhado já tinha se transformado num self-made-man de relativo sucesso, pois fizera um curso supletivo noturno e passara em um concurso público para escrivão de polícia. Depois se tornara investigador e por fim delegado de polícia. O antigo cangaceiro, como minha mãe o chamava, agora era o “chefe dos macacos”. E se antes ele foi um aprendiz de tirano, quando se tornou delegado, passou a ser o rei da arrogância.
    Mas, como dizia, minha irmã não se incomodava muito com a vida que levava com ele até descobrir que o danado já estava na terceira amante. Aí ela pediu o divórcio. Foi uma briga para arrancar dele uma pensão miserável que mal dava para ela sustentar os três filhos, o mais velho deles, ainda um adolescente. 
    Já a segunda nora dela, uma moça chamada Marinete, essa, a antipatia foi coisa de entranhas mesmo. A moça também era nordestina e logo de cara ela falou que estava casando com o Tonico, meu irmão do meio, porque não queria passar o resto da vida trabalhando como doméstica. Se a vida dela se resumia em cuidar de uma casa, que fosse a casa dela. E azar do meu irmão se não conseguisse dar a ela tudo do bom e do melhor. Infelizmente ele não deu. Não tinha como dar. E então a doninha transformou a vida dele em um verdadeiro inferno. Por isso a minha mãe tinha por ela uma aversão que não conseguia disfarçar.
 
Já da Rosana ela gostava, como eu disse. Afinal, a Rosana nunca a chamou de sogra. Chamava-a de mãe. Afinal, Rosana perdera a própria mãe antes de nós casarmos. E durante os nossos três anos de namoro, ela praticamente morou conosco. Tratava a minha mãe como se fosse, de fato, uma filha dela. Levava-a ao médico, ensinou-a a soletrar e a assinar o próprio nome, dava uns trocos para ela por conta da roupa que  ela lavava e passava para ela, e principalmente, o que mais a cativou, foi a forma como Rosana me tratava. Ela era meiga e cativante. Nunca reclamava de nada. Estava sempre alegre e com soluções viáveis para os problemas que se apresentavam. Não era a “mulher que veio tirar o filho dela”, mas sim a mulher que veio acrescentar alguma coisa na vida dele. Pelo menos era isso que ela dizia para os vizinhos e conhecidos dela, em oposição ao que dizia das outras noras e do genro, que, na opinião dela “eram atrasos na vida dos filhos dela.”
Rosana não. Ela era professora. Ela era inteligente. Ela era meiga e simpática. “ O Chiquinho (como ela me chamava) sim” dizia ela. “O Chiquinho teve sorte. Arrumou uma mulher que vale a pena”

(continua)
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 30/01/2018
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras