João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


ASSASSINOS DE MEMÓRIA

 
Consta que o grande orador e filósofo Cícero, ao saber do incêndio que consumiu a biblioteca de Alexandria teria dito que, mais que as perdas humanas e econômicas que o Egito sofria com invasão das tropas romanas, seria o fogo que elas atearam naquela biblioteca a verdadeira tragédia que destruiria aquele país.
Cícero não se enganou no seu vaticínio. O Egito nunca mais foi o mesmo depois do incêndio da biblioteca de Alexandria, assim como o Rio de Janeiro nunca mais será o mesmo depois do incêndio do Museu Nacional. Uma tragédia como essa mata mais que pessoas e destrói muito mais do que bens. Destrói o espírito de um povo, pois este está ancorado em suas memórias, em suas experiências e realizações.
Uma das nossas grandes debilidades como nação é o descaso e o desprezo com que tratamos a nossa cultura. Sabemos muito mais sobre os heróis estrangeiros do que sobre os nossos. Lemos mais obras estrangeiras (quando lemos) do que as escritas pelos nossos autores. Visitamos museus quando vamos a Paris, Londres, Madri, Cairo, Amsterdã, México, Tóquio e outras cidades do mundo, mas a maioria dos brasileiros nunca entrou em um museu no Brasil.  
Dói ver o abandono em que eles estão. Lembro-me do nosso querido e saudoso amigo e conterrâneo José Sebastião Witter, que foi Diretor Geral do Museu Ipiranga. Recordo-me da luta cotidiana que ele travava, quase sozinho, para manter aberto aquele museu e preservar o maior acervo cultural do Estado de São Paulo. Depois que ele deixou o cargo o Museu Ipiranga nunca mais foi o mesmo. Declinou tanto e já faz agora cinco anos que está fechado ao público.
Consta que só abrirá em 2022, ano do bicentenário da Independência do Brasil. Isso se as autoridades paulistas não forem tão imprevidentes, irresponsáveis, corruptas e descomprometidas como as do Rio de Janeiro. Pois basta ver o descaso das autoridades cariocas para adivinhar, de pronto, porque o edifício pegou fogo. Não havia brigada de incêndio e nem sequer hidrantes em condições de serem usados. O museu estava completamente abandonado. E pensar que não faz muito tempo foram gastos vários bilhões de reais para promover uma Copa do Mundo e uma Olimpíada, nas quais o esporte brasileiro saiu envergonhado e com uma dívida que quebrou o país.  
Com dez por cento do que o Cabral, o Cunha, o Picciani e outros roubaram, o Museu Nacional poderia ser conservado, reformado e mantido por muitos e muito anos. Fico pensando no que o povo francês faria se o seu governo tratasse o Louvre com o descaso, a irresponsabilidade e a desídia com que as autoridades brasileiras tratam os nossos museus. E só posso concordar com aqueles que dizem que as nações não morrem quando são invadidas, pilhadas e escravizadas. Mas sim quando deixa que sua memória seja assassinada. Pois quem não tem memória é como se nunca tivesse existido.

 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 04/09/2018
Alterado em 04/09/2018
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