João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


"Quatorze pessoas morreram em razão de um deslizamento de terra em Niterói, na noite passada"- O Globo-10-11-2018.

Não tenho medo do simplesmente escuro. Sei que o escuro que temos neste mundo em que vivemos é apenas o reflexo da luz obstruída. Removida a obstrução, ela reaparece em toda a sua integridade. Tenho usado essa metáfora para resolver alguns dos meus problemas cotidianos. Sempre que as coisas escurecem em minha vida, penso logo no que está obstruindo a entrada da luz e imagino um meio de removê-la. Tem dado certo. Até hoje ainda não enfrentei nenhuma experiência, daquelas desesperadoras, em que a gente sente que a escuridão é total e nada se pode fazer para removê-la.

Mas neste momento sinto como se estivesse de volta ao útero da minha mãe. Acordei no meio da noite, em meio á uma total escuridão. Um breu indevassável e silencioso me cerca. Procuro, às apalpadelas, o interruptor de luz e o aciono. Nada. A energia está desligada. Lembro-me que antes de deitar, uma tempestade havia se formado no céu. Relâmpagos cortavam o ar de todos os lados, como se fossem espadas flamejantes e os trovões ribombavam nos céus numa competição maluca de sons abafados e contínuos. Pareciam trens carregados de dinamite colidindo uns com os outros. Estrondos ensurdecedores que pareciam abalar os alicerces da terra. “São Pedro deve ter uma pedreira no céu”, minha filha de dez anos me disse uma vez. Eu achei engraçada a comparação que ela fez, mas era isso mesmo que parecia aquele balé de estocadas luminosas, acompanhadas por aquele ribombar intermitente e sinistro.
Levanto-me no meio da noite e abro uma fresta da janela. Afasto um pedacinho da persiana e olho para fora. Está mais escuro lá fora do que dentro do meu quarto. A chuva continua caindo, forte, intermitente, avassaladora. 
Lembro-me da preocupação com que minha mulher foi se deitar. 
“Será que essa chuva vai ser outra aguaceira daquelas?” Perguntou ela.“Se for, talvez seja melhor a gente não ir dormir. Essas chuvas são sempre perigosas. Eu tenho medo” completou ela.
” Bobagem”, respondi. “ Nossa casa tem alicerces bem firmes. Não há perigo. Vamos dormir.” 
Fomos. Acho que foi a preocupação dela que me fez acordar no meio da noite nessa total escuridão. Já ouvi dizer que quem dorme com cachorro no quarto sonha com lobisomem. Quem dorme com preocupação na mente sonha com mulher ou com problema para resolver. Uma e outra são a mesma coisa, dizem os sábios. 
Dizem também que escuridão completa não existe, assim como a pura luz. Uma e outra são apenas os lados de uma mesma moeda. A escuridão está na luz e a luz está na escuridão. Se isso for verdade, talvez eu tenha mesmo ficado cego. Pois não sou capaz de enxergar absolutamente nada em meio a essa treva espessa que me envolve. Nem a mínima réstea de luz. É estranho. Não há sons nem sinestesias nessa escuridão que me envolve. Parece que acordei dentro daquela canção do Simon e Garfunkel. “Hello darkness, my old friend, I came to talk with you again, because a vision softly creeping, left its seeds while I was sleeping...” *
M
inha mulher está roncando como de hábito. Ás vezes, o ronco dela parece uma chaleira no fogo. Fsssssssss,fssssssss,fsssssss. Outras vezes parece uma lixadeira desbastando uma tábua cheia de nós. Rrrrrrrrrr.Rsssssss. E tem também aquele som de locomotiva a vapor diminuindo a marcha ao entrar na estação. Rrrrrrrr,fffffssss, Rrrrrr,ffffffssss.  Estranho. Eu sei que ela está roncando, mas não a escuto. Também sei que está chovendo e não ouço os pingos tamborilando na vidraça. Estou sentado na cama, mas não consigo sentir a sinestesia da minha pela em contato com a textura das roupas de cama. Sinto uma sensação de leveza, como um balão de gás cujo barbante que o segurava foi cortado, e ele começa a flutuar.
 
Parece que todos os meus sentidos foram amortecidos por essa escuridão. “ Se cá fora nada vês que te agrade, vai para dentro de ti mesmo. Quem sabes aches a beleza que se oculta nas tuas próprias trevas” disse um desses poetas anônimos que escondem na noite dos inéditos as suas mágoas cotidianas  “Quem sabe nesse labirinto que tu és, consigas capturar uma réstea de luz. Quando conseguires esse sucesso, dá o teu grito de liberdade. Porque tu estarás irremediavelmente morto.” 
De hábito, não gosto muito de me aventurar pelos porões da minha inconsciência. Minhas próprias memórias, e os arquivos da minha razão já não são lá muito confortáveis de explorar. Tenho um passado que não me orgulha e talvez por isso o meu presente me incomode. Do meu futuro não quero nem falar. Por isso sempre evitei fazer mergulhos fundos no lago do meu inconsciente pelo medo dos monstros que eu possa libertar. 
Mas nesta noite parece que não sobrou outra alternativa. Só posso me movimentar para dentro de mim. Fora de mim está tudo muito, muito escuro. Parece um território de onde foi banida toda e qualquer informação que possa dizer aos meus sentidos que ainda existe um mundo real do lado de fora de mim. Por isso, talvez, esta sensação de mariposa  presa dentro de um quarto. Tudo está escuro aqui dentro e lá fora, parece, só existe um vácuo infinito. Sei que se eu for lá fora serei sugado irremediávelmente por ele.
Por isso eu caminho para dentro de mim. Neste sentido ainda é possível ver uma pequena réstea de luz, em algum lugar algures. Viajo no líquido do meu próprio sangue, que parece um rio de águas paradas, que vão se transformando em uma pasta gelatinosa. Mas eu nele avanço, patinando, como um Jean Valjean obstinado, pelos esgotos de Paris. De repente, sinto-me como um astronauta que se vê, inesperadamentre e sem aviso, atirado em um imenso buraco negro. Sinto a forte gravitação, a infinita relatividade do espaço, me atraindo para o centro dessa região, onde a luz e a treva convivem, numa eterna luta, de uma para escapar, da outra para reter. Revivo, num átimo de segundo, tudo que eu vivi desde que fui concebido. Desde o momento em que eu não podia ser distinguido de uma minúscula bolinha de ácido gelatinoso. Vejo o meu crescimento lento e sistemático no útero da minha mãe, até me tornar alguma coisa parecida com um ser humano. Depois, o difícil caminho percorrido num canal estreito e úmido, até ser expulso, como a rolha de uma garrafa de vinho espumante, para um vazio iluminado e cheio de sons, onde eu me senti, por um momento, desprovido de calor e proteção. Depois, a difícil adaptação. Aprender a comer, a andar, a falar, a fazer as necessidades sozinho. A sentir a dor e o prazer. A distinguir o que podia amar e o que devia odiar. Que tinha deveres e direitos. Que umas coisas podia fazer, outras não. Que umas vezes podia confiar nas pessoas, em outras desconfiar delas. Que o que eu fazia agradava a algumas pessoas e desagradava a outras. 
Deus, tudo isso passa pela minha mente, com a velocidade da luz. Eu estou sentado na cama, mas parece que estou levitando. Conto mais de setenta anos revividos em átimos de nano segundos.  E no entanto eu me sinto tão cansado como se tivesse, realmente, vivido tudo outra vez. 
Sofro e gozo de novo cada fracasso e cada vitória. Cada dor e cada momento de prazer. Toda paz e toda guerra. 
Vejo, de repente,em meio á esse turbilhão que me envolveu, um pequeno pontinho iluminado. Parece uma pequena lâmpada de natal acesa no fim de um túnel. Mas sei, não me perguntem como, mas sei que é a luz de uma explosão nuclear. Sinto que, à medida que eu me aproximar dela, ou que ela se aproximar de mim, eu serei irremediavelmente envolvido por ela, que ela me descarnará, me dissolverá como um castelo de areia batido pelas ondas do mar, ou como a água faz com o açúcar, o vento com a poeira, o ar com a fumaça. Mas eu sei que preciso ir ao encontro dela, por que ela me atrai como um magneto puxa limalha de ferro para seu próprio centro. Então eu vou, já sem dor ou prazer, sem alegria ou tristeza, sem medo, sem mágoa, sem qualquer sentimento mais, por que todos os valores, todas as crenças, todas as sinestesias que antes se hospedavam neste complexo que eu chamo de Eu, desapareceram como se tivessem sido lavadas com um produto que não deixa marcas nem resíduos.
Leve como o mais fluído dos gases eu entro na zona de luz. Antes de ser totalmente absorvido por ela eu vejo, de relance,aquilo que foi meu corpo deitado sobre os escombros de algo que fora a minha cama. Ao lado dela, o corpo da minha mulher sangrando, mas ainda respirando e se movendo, tentando se livrar da lama e dos entulhos sobre os quais ambos fomos sepultados. Aquela tempestade fizera rolar toneladas de lama e pedras sobre a nossa casa!
E só então eu percebo que acabei de desencarnar. Esta percepção foi a última manifestação da energia que me alimentava. Como uma lâmpada cujo interruptor foi desligado, eu mergulho na tenebrosa luminosidade do desconhecido algures após a morte. 
_________
 * "Olá noite, minha velha amiga. Vim conversar com você novamente. Porque uma visãosussurando silenciosamente, lançou suas sementes enquanto eu dormia (...) - Tradução livre dos versos da canção "Som do Silêncio", de Simon e Garfunkel.
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 29/11/2018
Alterado em 29/11/2018
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