João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

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Resultado de imagem para turbação de propriedade

 
 De repente, olho no espelho
E surpreendo no meu semblante
Alguém que não parece ser eu.
É a imagem de alguém que nunca vi,
Ou nunca tinha percebido antes.
Pergunto-me: "Quem será esse velho,
Que está usando o rosto que era meu?
“E onde está o jovem que morava aqui?”
 
Indago: “ Quem é você, invasor,
Que o meu corpo agora está a ocupar,
Como grileiro que a terra invade?
Porque artes, magia ou destemor
Você ousa se por no meu lugar?
Quando entrou, que não percebi?
- Mostre-me o seu título de propriedade.
Ou então escafeda-se daqui.”
 
Ele respondeu: “Você partiu um dia
E me deixou no completo abandono,
Prometendo que jamais voltaria.
Trocou tudo por um desejo lascivo,
O bem que era seu, você negligenciou.
Quem não registra o que tem não é dono,
Não pode agora retomar o que você largou,
Eu só estou aqui para manter você vivo.”
 
Pensei: “Como pude ser tão desatento”
Que não percebi a ocupação clandestina
Que a idade estava fazendo do meu corpo,
E pouco a pouco, do meu pensamento?
Onde havia um jovem encontro um ancião
E agora alguém tão diferente me domina,
Como se de mim tivesse feito usucapião...
 “Quem sabe aquele moço até já esteja morto?”
 
Conclui:“Usei meu corpo apenas para o lazer
Como fazem todos esses fazendeiros,
Que compram terras somente para explorar.
Sem nelas deitar uma única semente.
Depois saem, à procura de outros terreiros,
Para explorar e logo largar novamente.
Se um dia tentam voltar para se estabelecer
Já encontram outro dono em seu lugar.”
 
E muito mais me disse mais o abusado:
“Quem sai e não se apressa em voltar,
Sempre deixa um vazio profundo,
Que precisa ser imediatamente preenchido
Porque o vácuo não existe no mundo.
Quem saiu de si já perdeu o seu lugar,
O que era novo agora está envelhecido
E o seu jovem já está morto e enterrado.”
 
O tempo passa e a gente não vê.
Não é no corpo que a velhice se concentra.
É na própria mente que ela se encerra.
Como se deixássemos uma porta aberta
Ela chega, sorrateiramente, e entra,
Tal um bando insolente de sem-terra.
E depois que ela toma conta de você,
A turbação da posse já é coisa certa.
 
E se um dia, a você mesmo, quer voltar,
Vai descobrir que já nem tem forças para lutar...
 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 23/12/2018
Alterado em 23/12/2018
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