João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


A TRAGÉDIA DO NINHO DE URUBU
 
Não sou saudosista, mas tenho saudade dos tempos que ia aos estádios, ou ficava em frente á uma TV para ver um jogo de futebol. Se bem me lembro, a última vez que fui a um estádio foi nos anos noventa. Levei minha esposa e filhas. Depois do espetáculo deprimente dado pela torcida organizada de um dos times, conclui que o futebol deixara de ser um programa para família e nunca mais me propus a levar a minha a um estádio. Eu também nunca mais fui.
Não perdi nada. Vejo pelos jogos dos times brasileiros que assisto na TV.  Raramente consigo ver um jogo inteiro. Dão sono. Antigamente a gente ia aos estádios para ver verdadeiros artistas da bola. Rivelino, Ademir da Guia, Pelé, Gerson, Roberto Dinamite, Zico, Sócrates... Não importava o time. Sabíamos a escalação de todos os chamados grandes porque os times se repetiam por vários anos, com pouquíssimas variações de jogadores em uma posição ou outra. Os ídolos das diversas torcidas faziam suas carreiras em um mesmo clube. Luizinho, Cláudio, Roberto Berlangero, Rafael Chiarella, jogaram sua carreira inteira no Corinthians. Ademir da Guia, Dudu, Jair da Rosa Pinto, Waldir de Morais, no Palmeiras. De Sordi, Canhoteiro, Gino, no São Paulo. Sem falar de Zito, Pepe e principalmente Pelé, que a despeito de todas as propostas recebidas do exterior, jogou a vida inteira no Santos e só vestiu outra camisa depois de aposentado. Temos outros exemplos de craques que jogaram, praticamente, a vida inteira em um único clube. Nilton Santos no Botafogo, Zizinho no Bangú, Telê no Fluminense etc.
Hoje, basta o garoto despontar nas divisões de base que logo um empresário o contrata e leva para algum clube. Quando já não o negocia diretamente com algum clube estrangeiro. Os clubes brasileiros viraram simples barrigas de aluguel.
Nenhum menino bom de bola consegue emplacar mais de duas temporadas em um clube de primeira linha no Brasil. Isso explica a péssima qualidade do futebol atual dos nossos torneios e reflete nos quadros da nossa seleção, que são preenchidos por uma legião de estrangeiros pouco comprometidos com a bandeira do país. Muitos deles estranhos para nós, pois foram para o exterior ainda meninos e completamente desconhecidos da torcida brasileira.  
A tragédia do Ninho de Urubú tem muito a ver com esse lado puramente mercantilista que domina o futebol brasileiro. Não se produzem mais craques para dar espetáculos nos nossos estádios nem para trazer glória para o país nos torneios internacionais. Apenas produtos para o mercado milionário da bola. De preferência para a exportação. Nossos craques são ricas commodities, como a carne da JBS ou a soja do agro negócio.  Numa conjuntura dessas, essa tragédia acaba sendo apenas um acidente de percurso. Afinal, toda atividade econômica está sujeita a riscos. Enquanto o lucro for maior que o prejuízo, seja ele de que tipo for, está tudo bem. Com um pouco de prece, tudo se esquece.
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 10/02/2019
Alterado em 10/02/2019
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