João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


Quarta feira de cinzas, amanhece,
Na cidade há um silêncio que parece,
Que o próprio mundo se despovoou,
Um toque de clarim, além distante,
Vai levando consigo, agonizante,
O som do carnaval, que já passou,
E repetem-se as cenas de costume,
Cacos dispersos, de lança perfume,
Serpentina e confete, pelo chão,
É a máscara que a vida jogou fóra,
Mostrando que a alegria foi-se embora,
Nos rastros da passagem da ilusão.

Minha vida também, durou três dias,
Alimentada pelas fantasias,
Recordação da minha vida inteira,
Um retrato, uma flor, uma aliança,
Na maior festa da minha esperança,
Que também teve a sua quarta-feira,
Hoje, ante o silêncio sepulcral,
Dos despojos de mais um carnaval,
Confronto este cenário à minha dor,
O que ontem, para mim foi iluminado,
Hoje são restos imortais do passado,
Cinzas, do carnaval do meu amor.
 
      Benedito Lacerda- O Carnaval do Meu Amor

 
 Sentado em um banco da praça da catedral, ás três horas da manhã de uma quarta-feira de cinzas, ele estava cumprindo um ritual que já praticava há cinco anos. Desde que ela morrera, sempre fazia isso. Ia assistir o desfile das escolas de samba, depois se dirigia para aquela praça e ficava ali sentado, até que a madrugada fosse embora. Depois ia para casa, com um gosto de quarta-feira de cinzas na boca. Ninguém estranhava mais aquilo. Era um ritual.
     Sentado no banco da praça tudo lhe parecia igual aos anos anteriores. Só não sabia por que o som dessa velha canção da sua infância estava sendo recuperado naquele momento. Fazia mais de cinqüenta anos que ele não a ouvia. E nem se lembrava de um dia ter gostado dela ou de ter aprendido a letra. Lembrava-se apenas que seu pai gostava, pois toda vez que ela tocava, naqueles programas noturnos que ele ouvia todo dia, ele a cantarolava. Mas ali estava ela, a canção, sendo cantada na voz chorosa daquele cantor que ele nem sabia o nome. Era uma canção melancólica, que falava de um amor perdido, de um passado tão distante, que parecia estar se referindo a outro mundo, perdido nas brumas do tempo, como a Avalon das lendas. Parecia que saia de uma velha vitrola, quiçá perdida em algum lugar, mas ele sabia que ela estava, na verdade, dentro da sua cabeça.

 
      ...E repete-se a cena de costume
Cacos dispersos de lança-perfume
Serpentina e confete pelo chão
É a máscara que a vida jogou fora
Mostrando que a alegria foi-se embora
Nos rastros da passagem da ilusão...

 
       Confetes, serpentinas, lança-perfumes. Tudo isso já havia sido banido da história do carnaval há muito tempo atrás, assim como a alegria do carnaval que ele tanto experimentara, ali mesmo naquela praça onde estava sentado, não sabia há quanto tempo já. Era ali que vinha com ela, depois do baile de salão, e ficavam namorando até o dia raiar.
      Naquela noite deixara a passarela do samba, onde agora as escolas de samba se apresentavam com fantasias luxuosas, moças seminuas, enormes carros alegóricos e uma estranha batida de samba que mais parecia marcha militar. Nunca se sentira bem lá. Um barulho ensurdecedor de instrumentos de percussão, muita poluição visual, mas pouca melodia nos sambas-enredos, poesias desconexas e um ambiente que parecia muito mais uma feira de plumas, paetês, artigos feitos de plástico reciclado e outros materiais. Tudo organizado como se fosse um ballet ensaiado durante o ano inteiro para ser apresentado em uma hora naquele palco montado naquela rua especialmente preparada para isso. Era a rua do sambódromo, estranha palavra que ele não encontrara no seu velho Aurélio, mas que agora existiam no país inteiro, mostrando que a língua, ás vezes, é mais lenta do que o povo que a utiliza. Não pode deixar de pensar também que a evolução daqueles blocos absurdamente coloridos parecia uma parada militar. Ninguém podia perder o passo. Era pena, mas aquilo era o restava para ele do carnaval. O carnaval, onde ele vivera os momentos mais felizes da sua vida.

  
       Lembrava-se que em outros tempos tudo era diferente. Os blocos desfilavam na rua principal da cidade. Saiam lá do começo da rua, onde ficava a velha rodoviária, e desciam a rua calçada com paralelepipidos, até a praça do jardim, onde ficava o único cinema da cidade. Todos podiam participar dos blocos. Cada um com sua própria fantasia. Vampiros, múmias, lobisomens, bebês-chorões, arlequins, palhaços, colombinas, um ou outro soldado romano,  e a grande maioria dos homens vestidos de mulher. Aliás, eram poucas as mulheres que se aventuravam a participar daqueles cortejos. Quem se arriscasse dificilmente escapava da má fama pela manhã.Depois todos iam para os salões. Neles bastava uma máscara, um spray de lança-perfume, um saquinho de confete e a farra estava garantida. Sentiu saudades dos carnavais da sua mocidade.Era uma coisa muito especial. Agora tudo parecia muito comercial.
  
      ...Minha vida também durou três dias
Alimentada pelas fantasias
Recordações da minha vida inteira
Um retrato, uma flor, uma aliança
Na maior festa da minha esperança
Que também teve a sua quarta-feira...

 
       Ele a conhecera no salão do clube que frequentava. Quase não se falaram na primeira noite, que era um sábado. Ela estava dançando num grupo com várias amigas e pulavam ao som das marchinhas famosas, formando geralmente uma roda que não permitia a entrada de estranhos.
" Oh! jardineira, por que estás tão triste
O que foi que te aconteceu?..."
" Halhah! lá ho ho! ho! ho!
Mas que calor, ho! Ho!Ho"...!
Marchinhas fáceis de cantar e de dançar, tão diferentes das músicas de agora...
"Ai se te pego, delícia, delícia"... 
      
        Naqueles blocos parecia que ali eram todos conhecidos.Ele estava sózinho. Sempre ia sozinho a esses bailes. 
Ás vezes, conforme a música, os grupos formavam um trenzinho. Num desses momentos ele entrou sorrateiramente numa roda e não saiu mais. Foi justamente junto de uma garota de máscara negra que ele entrou. Rompeu a corrente ocupando o espaço entre ela e a garota que estava na frente, brincando no alegre trenzinho. Ela gostou e a amiga não protestou. Na verdade, a amiga sorriu para ela de modo cúmplice. Já havia percebido os olhares que ele havia trocado com a colega.  Depois ele pegou na mão dela e não largou mais a noite inteira. Depois foi o mesmo nas outras três noites. Gostou do calor daquela mão que ele iria segurar pelos próximos quarenta anos da sua vida. 
     Sim. Naquele carnaval foram quatro dias de intensa emoção que lhe pareceram uma vida inteira. Em comparação com o carnaval de agora, pensou, tudo aquilo era tão ingênuo e puro...Quatro noites de folia e na quarta-feira de manhã, na igreja, as cinzas do expurgo daquela orgia. Aquilo lhe parecia uma grande hipocrisia, mas era a oportunidade de vê-la fora do buliçoso e barulhento ambiente do salão. Então ele foi tomar as cinzas. Sabia que a encontraria lá. Aproveitou  o momento para falar de um amor que já nascia forte e quase adulto, pronto para enfrentar uma vida juntos. E depois veio o retrato, que até agora ele ainda tinha na carteira,uma foto muito amarelada, enrugada, quase sem brilho.Depois as flores, a aliança, o casamento, os filhos, e por fim, a morte dela, levada por um maldito cancer.... 
       Olhou para a aliança que ainda brilhava no seu dedo. Fazia agora parte da sua anatomia. Para tirá-la teria que cortar o dedo fora. Duas lágrimas rolaram dos seus olhos. E a velha canção que não saia da sua mente.
 
     ...Hoje ante o silêncio sepulcral
Dos despojos de mais um carnaval
Confronto este cenário à minha dor
O que ontem pra mim foi iluminado
Hoje são restos mortais do passado
Cinzas do carnaval do meu amor...

 
       A letra da música ressoava no seu cérebro. Estranho. Jamais se dera conta de que ela tinha sido registrada  na sua memória com tanta intensidade emotiva. Conseguia se lembrar dela inteirinha como se a tivesse ouvido a vida inteira. Não pode evitar as lágrimas. 
 
       – Como é que você consegue ficar tão triste numa noite de carnaval? – perguntou a moça que sentou-se ao seu lado no banco da praça. 
      Ele levou um susto. Não havia percebido a presença dela. 
      – Hum? – Foi o único som que conseguiu pronunciar, como se seu espírito tivesse sido trazido de uma outra dimensão e arrojado violentamente dentro do seu próprio corpo. Por isso, talvez, o arrepio que percorreu todo o seu esqueleto, desde o alto do couro cabeludo até a sola dos pés.
      – Eu não estou triste– respondeu ele, recompondo-se depressa e enxugando os olhos com a manga da camisa.
– Estou recordando. Há quarenta anos atrás eu estava sentado nesta mesma praça, neste mesmo banco, com a minha esposa. Éramos recém casados. Havíamos casado nessa igreja ai em frente. Eu a conheci num baile de carnaval – completou ele, um tanto surpreendido por estar confessando, tão depressa e abertamente, á uma desconhecida, coisas tão íntimas.

     – E onde está ela agora?– perguntou a moça. 
     –  Ela faleceu há cinco anos atrás– respondeu, olhando para ela, e reparando, pela primeira vez, que a garota usava uma máscara negra. " Deve ter saído do salão agora", pensou ele, procurando na memória uma conexão com aquela máscara negra, que ele sabia existir, mas teimava em não se formar em sua mentte.
     –Desde então, toda terça-feira de carnaval eu venho me sentar aqui nesta praça, onde nós passamos os nossos melhores momentos- disse ele, com um suspiro. 

     – Então essa é a causa da sua tristeza. Deve ser mesmo muito triste perder alguém a quem se amou muito e com quem se dividiu tanta coisa- disse ela.
    –É estranho– disse ele. – Mas eu não me sinto como se a tivesse perdido. Para mim, é como se ela tivesse viajado para algum lugar e eu, um dia, também irei para lá me encontrar com ela. 
      Ela sorriu e ele sorriu de volta. Agora tinha a impressão que a conhecia há muitos anos.  

      – E você se sente preparado para ir ao encontro dela ?– perguntou a moça, de repente, com um estranho sorriso.
      –Estive me preparando nestes cinco últimos anos– disse ele, – mas agora não posso deixar de reconhecer que estou com medo. 
     – Todo mundo tem medo de viajar para um lugar que não conhece– disse ela. – Eu também, quando fui, tive muito medo. Mas logo me dei conta que era apenas a sensação do desconhecido. Por isso deixaram que eu viesse buscar você.   
     Ele olhou para ela como se não tivesse entendido. Mas a sensação de surpresa não durou mais que um átimo de segundo. Um arrepio mais forte ainda percorreu toda a extensão do seu corpo. Uma sensação de perda de energia vital o deixou prostrado como se tivesse levado uma forte pancada na cabeça. Em seguida, alguma coisa explodiu no seu peito, como se ele fosse a barragem de uma represa que se rompia. Sua mente foi tomada por uma profunda escuridão. Tudo isso ocorreu num instante imensurável de tempo, mas que a ele, pareceu uma eternidade. Ouviu a voz dela como se viesse de muito longe.  
   – Não precisa ter medo– disse ela, tirando a máscara e beijando docemente os lábios dele.  – A vida é como o carnaval. Uma doce ilusão que se vive e acaba muitas vezes. E sempre recomeça de alguma forma. Se você amou e fez alguma coisa na vida que lhe deu mérito, conseguirá viver para sempre porque o combustível da vida é o mérito. Se você o tem, o universo o conservará vivo para sempre. Nossos corpos se vão, mas o que é feito em nome do amor repercute na eternidade- disse ela docemente. E essas palavras acalmaram seu medo. Seus músculos e nervos se distenderam como correias soltas de suas tarraxas.
     A última sensação que teve foram os lábios dela colando nos dele. A princípio, os sentiu frios. Mas depois veio a vertigem e a frialdade foi substituida por uma sensação de leveza e fluidez. Era como se um aspirador o sugasse com uma força que ele não conseguia resistir. Sentiu-se puxado por uma energia estranha que o conduzia por um túnel escuro e estreito. Mas ele não sentia medo agora. Sabia que havia uma presença sutil ao seu lado, guiando-o.  Logo ele viu no fundo do túnel uma estranha luz. Nunca havia presenciado uma luz como aquela. Todos os tons do arco-íris brilhavam dentro da esfera luminosa que parecia conter toda a energia do universo. Ela o atraia como um ímã faz com limanhas de ferro. Todas as suas vidas passadas, presentes e futuras foram revividas, vividas e experimentadas num átimo de segundo. E em todas elas, sentiu o calor das mãos dela segurando as dele.
Sorriu. Contente e já com uma sensação de paz em todo o seu ser, caminhou em direção á esfera luminosa, agora sem dúvidas nem temores. Quando se integrou nela sentiu-se como um grão de luz, sem peso, nem gravidade, arremessado na imensidade cósmica, para uma viagem sem destino nem duração.

 
      Os amigos que compareceram ao seu velório foram unâmines em dizer que ele tinha morrido do jeito que queria. Em seu rosto ninguém viu a máscara pálida da morte nem a rigidez definitiva que vestem os cadáveres das pessoas que se foram, contrariadas em suas almas. Sua face estava calma e seus lábios ostentavam um leve e quase imperceptível sorriso. Na noite anterior ele fora visto na passarela do samba, assistindo ao desfile das escolas. Também foi visto no salão do clube mais popular da cidade. Tinha sessenta e seis anos e morreu sentado num banco da praça da catedral da cidade, segundo o médico legista, sem sofrer. Um enfarto fulminante. Os frequentadores da praça também se lembravam bem dele. Todo ano, religiosamente, ele costumava se sentar lá á noite, na terça-feira de carnaval, e ficar até de madrugada. Gostava de ver a cidade vazia e silenciosa depois da muvuca do carnaval. Depois,  recebia as cinzas da primeira missa do dia e ia para casa. Ninguém estranhava mais essa mania dele, que já havia se tornado um ritual.
A única pessoa que não ficou triste com a morte dele foi o gari que varria a praça da catedral. Isso porque, junto com um punhadinho quase imperceptível de cinzas que ficou no banco, e o retrato amarelado de uma moça, com uma dedicatória e uma data de quarenta anos atrás, ele encontrou duas grossas alianças que vendeu a um comprador de ouro por duzentos reais.        
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 07/03/2019
Alterado em 07/03/2019
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