João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


OS BESOUROS DO STF

                        
Uma vez um enorme besouro cascudo e feio começou a perseguir um vaga-lume. O vaga-lume escapava como podia. Mas já no fim da noite, cansado daquela brincadeira sem graça, resolveu encarar o importuno inimigo que não lhe dava trégua.
– Hei cara, qual é a sua? Porque está me perseguindo?– perguntou o vaga-lume ao besouro.
– Porque hoje você vai seu o meu jantar– respondeu o besouro.
– Mas porque isso agora? Eu nunca fiz parte do seu cardápio – argumentou o vaga-lume.
– De fato você não faz parte da minha cadeia alimentar– respondeu o besouro. – Mas me incomoda muito. Você é bonitinho, tem luz própria. Todo mundo olha para você com ternura e admiração. Os poetas se inspiram em você para fazer versos. Eu, ao contrário, sou olhado com constrangimento e horror. As pessoas têm medo de mim. Por isso vou lhe devorar. Quem sabe um pouco desse seu brilho passa para mim. 
Naquela noite o besouro jantou, pela primeira vez, um vaga-lume. Cinco minutos depois estava morto, por intoxicação. O efeito mariposa (a atração pela luz), deu cabo dele. Ele não sabia que a enzima que o vaga-lume expele quando brilha é venenosa. 
Lembrei-me dessa fábula a propósito da votação da quarta-feira última feita pelo Supremo Tribunal Federal, determinando a competência do Tribunal Superior Eleitoral para julgar os crimes cometidos durante as eleições (caixa-dois conexo com corrupção, peculato, concussão e outros crimes que tenham sido cometidos para financiar campanhas políticas).
Na verdade, essa decisão é um tiro direto contra a Operação Lava a Jato e uma retaliação dirigida contra a Força Tarefa que a conduz. É visível a irritação que os Procuradores e Delegados da Polícia Federal têm provocado em alguns dos Ministros do STF em razão do protagonismo que eles assumiram nas operações que levaram dezenas de políticos e empresários à cadeia e desmantelaram a maior rede de corrupção já montada neste país
Trata-se, como vociferou o Ministro Gilmar Mendes, em sua diatribe como o MP, de uma luta pelo poder. De há muito (desde a promulgação da Constituição de 1988) que procuradores, promotores e delegados de polícia sentem-se no direito de fazer parte desse Olimpo do Judiciário, onde a auréola da divindade é conferida aos simples mortais pelo uso da toga.  A Operação-Lava a Jato tem proporcionado a alguns eles. É o que incomoda os olímpicos magistrados da Corte Suprema, que estão se sentindo ofuscados com a luz emitida pelos deuses menores que ousaram brilhar mais que eles. Nessa briga de egos feridos quem sofre é o país.
No Ministério Público também não falta quem sofra do efeito mariposa, ou seja, gente que não pode ver o brilho de uma câmara que logo se coloca na frente dela. E o pessoal de Curitiba já mostrou que adora um holofote. Mas ao fazer o papel do besouro da fábula, o STF corre o risco de morrer envenenado. E tem muita gente torcendo para que isso aconteça.
 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 15/03/2019
Alterado em 16/03/2019
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