João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


BAÚ DE HAICAIS

 
sobre o haicai
 
O haicai, como sabemos, é um tipo de poema de origem japonesa, que começou a ser cultivado no Japão no século VII da era cristã, depois que o Budismo Zen se tornou uma importante prática religiosa naquele país. Sua estrutura poética, que contempla exatamente a virtude mais estimada no Budismo, ou seja, o insight, ou iluminação, foi adaptada exatamente para essa finalidade: expressar, num mínimo de palavras, um estado psíquico interior que a razão não precisa logicizar, mas que, para o espírito de quem o experimenta, é suficiente para lhe acrescentar um laivo de sabedoria.
Os primeiros haicais serão produzidos na forma popularizada como Waka - poemas na forma do país de Wa (Japão),- e publicados em uma antologia de 4500 poemas, no século VII da era cristã. Essa foi a chamada era Elan, no Japão, e durante alguns séculos dessa época (entre o século VII e XI, o haicai foi cultivado na corte imperial e entre as classes superiores como uma forma de entretenimento, semelhante ao que fazem, ainda hoje, os repentistas nordestinos e gaúchos, onde um poeta cria o primeiro verso e outro poeta completa o poema com o segundo.
Em princípio, como se disse, o haicai se destinava a expressar um pensamento na forma do budismo zen, ou seja, um momento de iluminação. Soava como uma metáfora, cujo sentido era mais dirigido ao inconsciente do ouvinte do que à sua razão lógica. Como este poema de Bashô, por exemplo: 
Trégua de vidro:
o canto da cigarra
perfura rochas.
Mas com o correr do tempo os compositores de haicais começaram a ligar umas estrofes à outras, versando sobre o o mesmo tema, criando-se poemas completos, onde cada conjunto de versos se seguia ao anterior, formando uma composição elaborada. Não era mais uma espécie de koan zen, mas sim espécie de poesia burguesa, na qual a ênfase era posta nas coisas simples e cotidianas, e geralmente com um toque de humor rasteiro e às vezes até sensual, como nestes versos de Matsunaga Teitoku (1571-1653), o mais famoso poeta desse tipo de composição:
 
urayamashi – ah!como invejo
omoikiru toki – a maneira que termina
neko no koi
o romance dos gatos.
 
Esse tipo de haicai receberia o nome de renga haicai, poema popular de larga tradição no Japão. Tempos depois, já pelo início do século XVII, o haicai (hokku) voltaria a ser cultivado na sua forma original tanka, (5-7-5 sílabas) durante o o chamado período Edo. O mais famoso cultivador desse tipo de criação literária foi o poeta Matsuó Bashô ( 1644-1694) que além de reconstituir o haicai às suas origens, voltou a usá-lo também para a transmissão de  autoconhecimento, na forma preconizada pelo Budismo Zen , revivendo a forma koan de ensinamento.
A chamada “Escola de Bashô” se tornou a mais famosa escola literária do Japão. Consta que o poeta teve mais de três mil discípulos em vida, incluindo os “dez grandes” poetas do Japão, que ficaram conhecidos como os maiores compositores de haicais em todos os tempos ( Sampu, Kioray, Ransetsu, Kiorokú, Kikaku, Josô, Yaha, Shicô, Etsujin, Hokúshi).
A era seguinte, após a época de Bashô e seus discípulos, foi dominada pelos praticantes do haicai clássico, liderados pelos poetas Buson (1716-1784) Kobaiashi Issa 1763-1827) e Masaoka Shiki (1867-1902). Esse período, chamado de Era Meiji, reflete as transformações históricas e sociais pelas quais passava o Japão, que começava a se abrir para o Ocidente e adotar costumes estranhos a sua tradição.
Nota-se na poesia desses artistas uma preocupação muito grande em preservar a integridade da forma japonesa de poetar, bem como um apego á cultura pátria, em detrimento do modernismo que se instalava em outros setores da cultura japonesa. Foi obra dos poetas desse período a evolução da fórmula haicai para haikú, neologismo criado com as palavras haicai e hokkú, termos que designavam a fórmula haicai nos períodos anteriores. A tônica, nos haicais da era Meiji era a contemplação da natureza e a sua expressividade na forma de interjeições (ah!), para expressar a dúvida, a emoção que o acontecimento proporcionava ao observador, como nestes versos de Masaoka Shiki:
refletido nas folhas novas
que cobrem toda a montanha]
 ah! o sol da manhã!”
A partícula expletiva, no caso, era o resultado da iluminação kireji, ou seja, algo semelhante ao que os ocidentais chamam de insight ou iluminação.
 
O haicai foi trazido ao Brasil por Monteiro Lobato. Pelo menos foi esse grande escritor pátrio que primeiro publicou uma tradução que ele fez de um conjunto de seis haicais, em um jornal da cidade de Pindamonhangaba, em 1906. Logo em seguida, em 1908, o navio Kasato Marú traria para o Brasil o seu primeiro haicaísta. Segundo Masuda Goga, o mais profícuo historiador do haicai no Brasil, o primeiro poema dessa forma teria sido uma composição feita ainda a bordo do navio pelo imigrante Shuêhei Uetsuda (1876-1935):
karetaki o (chegando, vê-se)
miagete tsukinu(lá do alto, a nau imigrante)
imisen.(a cascata seca.)
 
Logo após a chegada e acomodação dos imigrantes japoneses no Brasil, não obstante as várias dificuldades de adaptação, inclusive as causadas pela Segunda Guerra Mundial, na qual os japoneses lutaram do lado oposto ao escolhido pelo Brasil, a forma japonesa de poetar ganhou admiradores entre os modernistas e passou a ser cultivada por importantes poetas brasileiros, especialmente o grande Guilherme de Almeida.
Nessa conjuntura destacar-se-á o nome do poeta Nempuku Sato (1898-1979), que foi o principal veiculador desse tipo de criação literária no país. E entre os poetas brasileiros, têm-se como importante o trabalho de Afrânio Peixoto, que deu ao haicai brasileiro a forma que ele viria a se tornar padrão entre os compositores desse tipo de poesia.
A partir de 1922, depois da Semana da Arte Moderna, o haicai se inseriria na onda modernista que a literatura brasileira surfava desde então. O padrão rígido de 5-7-5 sílabas métricas deixaria de ser única para esse tipo de poema, ganhando com os modernistas Oswald de Andrade, Manuel Bandeira , Carlos Drummond de Andrade e outros, uma forma livre onde o gosto ocidental pela metáfora substituiria o hermetismo subconsciente do koan, como nestes haicais:
Não tenho dinheiro no banco,
porém,
meu jardim está cheio de rosas” 
(
Carlos Drummond de Andrade)
 
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se ‘Agora’” 
(
Guilherme de Almeida)
 
Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi” 
(
Oswald de Andrade)
 
Incorporado definitivamente à literatura brasileira como uma das mais criativas formas de poetar, o haicai viria a ser cultivado por grandes nomes da literatura brasileira como Guimarães Rosa, Mário Quintana, Millor Fernandes, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Pedro Xisto, Paulo Leminsky e outros.  Esses e outros expoentes da poesia pátria irão dar á essa forma de poema um lugar de destaque nas letras brasileiras.
Hoje, o haicai é um dos mais saborosos tipos de poesia produzidos no Brasil. Um sem número de bons poetas, como o já citado Paulo Levinsky, Olga Savary, Abel Prereira, Alice Ruiz, Carlos Vogt são cultivadores do haicai.
 Esta nossa aventura por esse tipo de poema não trás, como é óbvio, nenhuma novidade. Ás vezes mantendo a forma clássica, em outras deixando fluir, á moda dos modernistas, o que se pretende dizer, o objetivo deste nosso baú de haicais é colocar nossos próprios pensamentos, da forma como eles nos vieram: quando deu para acomodá-los na fórmula clássica 5-7-5 nós o fizemos. Quando sentimos que não transmitiriam o sentimento que os inspirava, deixamo-los na forma livre de um poema de três versos, sem preocupação com o número de sílaba. Algo assim como nos exemplos que seguem:
 
abri a janela
 procurando a vida:  
lá estava ela.
 
que é a fórmula clássica, ou

solidão é algo que a gente sente
quando descobre que está sozinho
no meio de um monte de gente
.
 
que está na formula livre.
 
De uma forma ou de outra, espero que eles estejam a gosto dos leitores. No fim, essa é sempre a motivação que leva alguém a se aventurar num território tão cheio de enigmas, como é o caso da poesia. No fundo é o que ela diz e o que o leitor sente quando lê ou escuta que conta.
 Considerar-me-ei pago pelo trabalho se algum leitor, ao folhear este livrinho, puder sentir um pouco das emoções que os motivaram.



(introdução ao livro Baú de Haicais, no prelo para publicação).
 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 06/05/2019
Alterado em 06/05/2019
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