João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


O FRITADOR DE HAMBÚRGUERES

E essa agora. O Presidente Bolsonaro quer fazer do seu filho Eduardo embaixador nos Estados Unidos. Pensei que para ser embaixador, especialmente nos Estados Unidos, o maior parceiro político e comercial do Brasil, fosse desejável, para não dizer imprescindível, que o candidato fosse, no mínimo, um diplomata formado pelo Instituto Rio Branco, com alguns anos de Itamaraty e possuidor de qualidades outras, que seguramente, o filho do presidente não parece ter. Aliás, as únicas qualificações que ele mesmo disse possuir, para fazer jus à indicação, foi ter feito intercâmbio nos Estados Unidos e fritado hambúrguer nas suas passagens pelos States. Além de ser, é claro, discípulo de Olavo de Carvalho, uma espécie de guru tupiniquim, que só é superado pelo próprio presidente nas besteiras que fala. Se fazer intercâmbio nos Estados Unidos, fritar hambúrguer no frio do Maine e falar razoavelmente inglês e espanhol é suficiente para alguém ocupar um cargo desses, gostaria de indicar a minha filha para uma sinecura qualquer no ministério do Bolsonaro, pois ela já morou nos Estados Unidos, trabalhou na Disney, estudou espanhol em Salamanca, fez intercâmbio na Inglaterra e agora mora na Austrália faz doze anos.  Não só fritou hambúrgueres e “potatos chips” e ferveu "hotdogs" nas barracas da Disneylândia, como também serviu mesas e fez outros serviços lá na grande feira da ilusão criada por Walt Disney na ensolarada Flórida. Se isso servir de critério, parece-me que ela está mais qualificada que o filho do Capitão.
Mas a meritocracia, que o Presidente tanto invocou como promessa de campanha, parece ter sido esquecida na prática diária de governo. Ele aparenta ser guiado mais pela ideologia do conservadorismo chauvinista e autoritário que norteou a política dos anos de chumbo do governo militar do que pelo pragmatismo que ele tanto diz estimar no comportamento americano. Aliás, se o clã Bolsonaro quisesse, de fato, experimentar o que de melhor tem a filosofia americana no seu modo de viver e pensar, deveria aprender com William James e Ralph Valdo Emerson e não com Olavo Carvalho e os pastores do chamado evangelho de resultados, criado pelo ilusionista Norman Vincent Peale e popularizado pelo velhaco aproveitador Edir Macedo. Assim não ficaria dizendo bobagens como nomear magistrados “terrivelmente evangélicos” para a Suprema Corte, como se ela fosse o velho sinédrio judeu e não um tribunal constitucional. E nem cometeria o sacrilégio de pensar em indicar um fritador de hambúrgueres para um cargo tão importante como o de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, só porque se trata do filho dele.
Nos últimos anos o Brasil, por conta dos seus presidentes, já passou vergonha demais. Tivemos um aventureiro “saco roxo” que acreditava ser o Indiana Jones. Depois elegemos um semi analfabeto que pensava ser uma espécie de Lech Wallessa dos trópicos e acabou na cadeia por não saber nem roubar. E agora nos vem um Capitão América, com Messias no nome, que ao que parece, acredita poder ser ambos. Será que Gabriel Garcia Marques tinha razão ao escrever que nós, latino americanos estávamos condenados a viver, por séculos, uma história de realismo fantástico? Se assim for, só nos resta ficar na espreita para ver quando um de nossos descendentes vai nascer com um rabinho de porco, como ele escreveu no seu clássico “Cem Anos de Solidão”.

 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 15/07/2019
Alterado em 15/07/2019
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