João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


 
 
Ninguém sabia dizer de onde veio e como. Mas um dia, pela manhã, ele estava lá, o mendigo, dormindo na porta da velha capelinha. Um negro velho, ou pelo menos parecia ter bastante idade. Uma barba hirsuta e desgrenhada, com aparência de muitos anos por fazer. Roupas sujas, puídas, rotas até o mais miserável estado.
Ninguém estranhou o fato. Afinal, mendigos eram comuns naquela região. Eles vinham, pediam esmolas, comida, e depois sumiam. Os mendigos da região sabiam que não era coisa muito saudável ficar perambulando pela cidade. O prefeito não gostava deles. Se demorassem muito na cidade, ou se ele os encontrasse dormindo nas ruas, ele botava todos num camburão e os descarregava bem longe, na rodovia, na calada da noite. Depois, era aquela barra para encontrar um local para descansar. Por isso, a cidade quase não via muitos mendigos perambulando pelas ruas.
A igrejinha ficava fora do perímetro urbano, uns dois quilômetros na estrada que a ligava à capital. Parecia bastante antiga, pelo tipo de construção. Tijolos grandes, de barro cozido, sem armação de ferro. Ninguém sabia quando fora construída, nem por quem. Era uma pequena capelinha, cerca de três metros por quatro, e ao que parece, encontrava-se fechada há muitos anos. Os moradores mais antigos jurariam que há séculos, pois que não havia ninguém que confessasse que um dia, a vira aberta. A Câmara Municipal já havia pedido ao Patrimônio Histórico o tombamento da pequena capelinha. Mas ela era tão insignificante como edifício que os burocratas daquele serviço engavetaram o pedido e o deixaram lá. O vereador que fez o projeto não conseguiu repetir o mandato e o pleito foi esquecido. Ninguém mais se lembrou dele e tudo ficou por isso mesmo. E a capelinha lá ficou, na beira da estrada, solitária e abandonada, até o dia em que o Pai Justino apareceu na porta dela.
 
Por que o nome “Pai Justino” ninguém se preocupou em levantar a razão. Foi o nome pelo qual ele ficou conhecido. Talvez ele mesmo tenha dito a alguém que esse era o seu nome. E ele ficou conhecido através de um acontecimento bem bizarro. Uns garotos sacanas o viram dormindo na porta da capelinha. Então resolveram se divertir um pouco com ele. Botaram fogo na sua barba e saíram correndo. O velho mendigo acordou com o calor e o cheiro dos pelos queimando. Tratou de apagar logo o fogo jogando nas barbas a água de uma lata que ele enchera para a higiene do dia e o café que ia fazer pela manhã. Viu os garotos correndo, já quase atravessando a estrada. Viu também quando um carro, em alta velocidade, pegou em cheio um deles. O garoto foi atirado no acostamento, todo arrebentado. Os outros dois nem perceberam o acidente do colega ese perderam na mata que circundava a estrada. O garoto atropelado ficou estrebuchando no acostamento, feito uma massa sangrenta, em plena agonia.
Alguns carros pararam e pessoas desceram. Logo se formou uma pequena multidão em volta do rapazinho atropelado. Alguém chamou, pelo telefone, uma ambulância e a polícia. Parecia que não ia adiantar muito. O garoto estava muito machucado. Era questão de minutos. Dificilmente resistiria a uma remoção.
E todos viram também o mendigo, com aquela barba chamuscada, cheirando a pelos queimados, se debruçar sobre o menino agonizante e murmurar algumas palavras ininteligíveis. Parecia uma prece, um mantra, qualquer coisa numa língua desconhecida, com sons semelhantes aqueles que Vinicius de Moraes usou na composição “Na Tonga da Milonga”.
E todo mundo viu, igualmente, aquele menino agonizante, todo destroçado, sangrando por todos os poros, de repente abrir os olhos e chorando de dor, sentar-se, como se tivesse apenas sofrido um tombo que o fez sangrar abundantemente, mas sem qualquer gravidade.
O garoto foi levado ao hospital e medicado. As radiografias e os exames feitos não revelaram nenhuma fratura, nenhuma comoção interna. Era um verdadeiro milagre. Todos os que presenciaram o acidente juraram que o carro que o atropelou estava há, pelo menos, uns cem quilômetros por hora e havia colhido o rapazinho em cheio, lançando-o pelo menos há uns cinco metros de distância, feito um boneco de palha. Ninguém seria capaz de sobreviver a um acidente daqueles.
O fato é que, durante uma semana, o Pai Justino deu consultas e curou centenas de pessoas que o procuraram na porta da velha capelinha. Ele impunha as mãos sobre as pessoas, dizia umas preces lá naquele seu dialeto esquisito e as livrava de enxaquecas, dores musculares, hérnias, infecções e outras moléstias emergenciais. Também receitava chás e outras bulas que as pessoas juraram, mais tarde, que as livraram de várias moléstias. Quanto às dores morais e problemas de relacionamento, ele deu conselhos e receitas que se revelaram muito eficazes por quem as recebeu e testou.
Mas no fim de exatos sete dias, o Pai Justino desapareceu. Quem o procurou, já nas primeiras horas da alvorada, como costumava acontecer nos dias anteriores, não o encontrou. Foi feita uma busca na cidade inteira e nas cidades vizinhas. Ninguém vira o estranho mendigo. Naturalmente, o prefeito foi o primeiro suspeito de ter dado um sumiço no velho curandeiro. Mas ele jurou, de pés juntos, que não havia tomado nenhuma providência a respeito. Disse, com a natural hipocrisia dos políticos, que até estava gostando da presença do Pai Justino na cidade, por que ele estava atraindo muita gente das cidades vizinhas, e elas estavam movimentando a economia local. Ninguém acreditou. Azar dele que as eleições estavam próximas. Perdeu feio a reeleição e ainda acabou processado pelo Ministério Público por corrupção e peculato.
Ninguém ouviu mais falar no Pai Justino. Um ano depois, o terreno onde a capelinha estava foi desapropriada pela prefeitura. Pretendia fazer ali um conjunto de casas populares. A capelinha precisou ser demolida. A curiosidade atraiu um grande público ao local no dia em que ela começou a ser derrubada. Não só a lembrança do Pai Justino, mas a vontade de saber, finalmente, o que havia dentro dela, fez juntar umas cem pessoas no local. Mas elas saíram de lá muito decepcionadas, pois dentro dela só foram encontradas umas roupas velhas, já praticamente destroçadas e puídas, e uma cruz, o que indicava que a tal capelinha tinha sido construída para marcar o nome de alguém que morrera naquele lugar. Na cruz, ainda se podia ler um nome: Justino Jesus da Silva. A data da morte era de uns cem anos atrás.   
 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 07/10/2019
Alterado em 07/10/2019
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