João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


A MALDIÇÃO DA CIGANA

Ernesto estava com cinquenta e cincos anos e acabava de ficar viúvo. Luíza, sua esposa, morrera em conseqüência de um câncer de mama, e ele agora estava meio perdido, sem saber direito o que fazer da vida. Para complicar ainda mais a desagradável situação que a sua mente se encontrava, era época de Natal e Ano Novo. Ele, que passara os últimos trinta natais com a família, tendo sempre Luíza como cicerone perfeito para o enorme contingente de parentes que se ajuntavam na sua casa, para comemorar as duas datas, se sentia agora solitário e sem rumo, como um cachorro abandonado em uma estrada. O Natal e o reveillon da família seriam realizados agora na casa de praia que eles possuíam. Seus filhos haviam decidido isso. Não queriam fazer festa na casa aonde a mãe morrera, não fazia ainda um mês.
Ernesto era engenheiro e tinha muito serviço para fazer. Por isso combinou com a família que só iria mesmo na tarde de vinte e três de dezembro. Foi o que ele fez. Sózinho, ele pegou a estrada e saiu. Parou no primeiro posto de gasolina que encontrou na estrada para abastecer a sua bela Hilux.
De repente ele percebeu aquela garota, com seu olhar negro e profundo caindo insistentemente sobre ele. Não estava acostumado a ser objeto de um olhar tão intenso assim. Principalmente de uma mulher tão jovem e bonita como aquela moça, vestida com uma longa e colorida saia de estilo indiano, e um lenço com o mesmo padrão de cores prendendo os longos e negros cabelos que lhe caíam até a cintura.
“Exótica” pensou ele, ao cruzar os olhos com a garota. Resolveu retribuir o olhar. Ela esboçou um sorriso e ele devolveu. E ela então se aproximou dele. Era ainda mais bonita vista de perto. Um rosto de formas perfeitas, onde duas bolinhas negras como jabuticabas nadavam, céleres, de um lado para outro, em dois pequenos lagos de águas de uma cor branco-leitosa, que pareciam ter uma profundidade insondável. Aquele olhar preencheu o campo da sua visão de tal modo que ele esqueceu tudo o mais para se concentrar apenas naquela imagem. Sentiu-se como um sapo sendo atraído por uma cobra.
─ Posso falar com o senhor um instante? ─ perguntou a garota.
─Hã? Sim, claro ─ respondeu ele maquinalmente, como se estivesse saindo de um transe.
─ Sabe, é que eu sou vidente. Estava olhando para o senhor e vi algumas coisas que eu preciso lhe falar. O senhor gostaria de ouvir?─ disse a garota.
De repente ele se sentiu como se até aquele momento estivesse observando uma bolha de sabão flutuando no ar. Uma bolha colorida que explode e tudo que fica são alguns fragmentos de água e sabão que respingam em cima dele. E imediatamente ele voltou a sentir o cheiro da gasolina e do óleo diesel que estavam fluindo das bombas para os tanques dos carros dele e do dela. A decepção se estampou no seu rosto.
 
Vidente. Ele já conhecia aquele golpe. Há tempos atrás uma mulher, com uma criança nos braços havia tentado aplicar esse golpe nele. Estava chovendo e ele parara para dar uma carona a ela, movido mais por pena da criança do que da mulher. Mas aí ela viera com aquele papo de vidente, dizendo que ele estava cheio de “encostos” e no final pedindo uma boa grana para fazer um trabalho de descarrego, para fins de afastar dele as tais mandigas.  E ele, imediatamente, descarregara a mulher no meio da estrada com chuva, criança e tudo. Bobo ele não era. E o seu dinheiro não era para sustentar vagabundos.
Bando de vigaristas. Mas de repente, (ele nem percebera), a garota tinha pegado a sua mão esquerda e estava percorrendo com o polegar aveludado dela as linhas do M da sua palma. Como era quente e macia a mãozinha dela. E como eram bonitos os olhos da ciganinha.
─ O senhor acaba de sofrer uma grande perda em sua vida ─ disse ela, encarando-o diretamente com seus grandes olhos negros.
Ele olhou para a garota com desconfiança e apreensão. Como ela podia ter adivinhado? Ela não o conhecia. Ele nunca a vira antes. Como ela poderia saber de uma coisa dessas? Como poderia saber que sua esposa havia falecido recentemente? Apenas há um mês atrás.
“Ela deve ter algum cúmplice” pensou ele. “Uma pessoa que me conhece e contou para ela.”  “Esses pilantras estão tentando me dar um golpe.”
Olhou para todos os lados para ver se havia alguém observando a cena. Nada, nenhum suspeito. Os dois estavam praticamente sozinhos no posto além dos frentistas. Nenhum deles o conhecia. Não podiam saber de uma coisa dessas.
─ Ela ainda não se desligou do senhor. Ela o amava muito e as pessoas que falecem tem dificuldade para se desligarem das coisas e das pessoas que amam ─ disse a garota.
─ É mesmo? ─ respondeu ele, pensando: “vamos ver aonde vai dar isso.”
─ Ela está encostada no senhor e quer levá-lo com ela.
─ É? ─ perguntou ele, meio desconfiado, meio sarcástico. ─  E como vai fazer isso se ela morreu e eu estou vivo?
─ Os mortos demoram algum tempo para descobrirem que morreram. E quanto mais eles são lembrados e chorados, mais tempo eles levam para se desligar da sua vida carnal ─ disse a garota.
Ele sempre fora cético com relação à essas coisas. Não era ateu, mas não acreditava em nada disso. “ Quem morreu, morreu. Simplesmente deixam de existir. Pessoas são como pilhas de lanterna” pensava ele. “Uma vez consumida a energia existente nelas, tornam-se apenas objetos descartáveis.”
“ Essa menina é uma vigarista”, concluiu ele. Mas a mãozinha dela ela macia e calorosa. E ele estava gostando do contato.
Só não gostava da ideia de ter um encosto.  Nem que fosse da sua querida esposa falecida. Não conseguia acreditar nisso, mas sentiu um desconforto, algo assim como uma lufada quase imperceptível de um vento gelado a roçar-lhe a nuca, descendo pela base da espinha dorsal na forma de um arrepio.
Sacudiu o corpo como se fosse um cão molhado tentando se livrar da água.
“Quanta besteira”, disse para si mesmo. Mas não afastou a mãozinha quente e macia dela.
─ Vou dizer uma coisa para o senhor ─ disse a garota, olhando gravemente para ele. E as pupilas negras do olhos dela pareceram enegrecer mais ainda em contraste com o fundo branco-leitoso onde elas dançavam num ritmo de valsa: um – para- cá – um – para lá.
─ Se ela não for embora de vez, vai acabar levando o senhor com ela. O senhor não tem sentido alguma fraqueza de uns tempos para cá, desde que ela morreu?

Ele sentiu de novo aquele calafrio na espinha. Que diabos! Sentira sim. Nos últimos dias andara tendo umas tonturas meio esquisitas, coisa que nunca o acometera antes. Algo parecido com labirintite, uns pequenos surtos de perda de consciência e equilíbrio, nos quais a sua cabeça se enchia de minúsculas espirais coloridas que ficavam girando na sua mente, fazendo-a parecer uma tela de televisão quando perde a imagem. Nada grave, concluíra, talvez um pouco de fraqueza, em consequência da mudança de costumes alimentares dos últimos tempos, forçada pela longa doença da esposa e principalmente nos dias terminais dela, quando praticamente não fizera uma única refeição regular. Ou então uma queda de pressão, um arrefecimento nas defesas do organismo, coisa muito comum para quem sofrera uma perda como a sua.
“Falta de alguma vitamina” concluíra ele. Coisa que logo seria corrigida.
Mas como a danada da ciganinha podia ter adivinhado isso também?  Talvez ela tivesse deduzido pela leitura das informações não verbais que seu corpo e rosto apresentavam. Já notara que ultimamente andava meio pálido. Falta de exposição ao sol nos últimos tempos. Por isso aceitara ir para a praia. Precisava de um pouco de sol, ar e espaços abertos para compensar aqueles últimos meses de casa-hospital-hospital-casa, que fora a sua vida até então.
─ E o que é que a gente faz para se livrar de um encosto desses?─ perguntou ele, com um arremedo de sorriso, entre desconfiado e sarcástico. Já havia recuperado, em parte, o ceticismo e sabia que agora vinha a facada.
─ É preciso fazer para ela o Ritual da Perda ─ disse a menina.
─ Ritual da Perda? O que é isso?
─ É um ritual que nós, os ciganos, praticamos quando um ente querido nos abandona por morte. Nós somos um povo muito apegado uns aos outros. Temos dificuldade de abandonar nossos entes queridos, por isso nossos espíritos ficam grudados neles até que tenham consciência da morte e desapeguem da sua vida terrena. Então eles ficam leves e sobem para a esfera astral. Isso acontece com todos os espíritos, mas são poucas as pessoas que sabem disso. Só os médiuns.
─ É mesmo? ─ perguntou ele, pensando que pelo menos essa garota tinha um discurso mais bem elaborado que a outra falsa cigana com a criança, que tentara dar um golpe nele. De qualquer modo, aquela ideia do Ritual da Perda era uma coisa nova, que parecia ter algum sentido.
─Sabe ─ continuou a garota ─ entre nós há muitos médiuns. Eu tenho dons mediúnicos. Nós nos comunicamos com o espírito do defunto e o fazemos compreender que ele desencarnou e precisa se desligar da sua vida terrena. Enquanto ele não fizer isso continuará a vagar pela terra, preso às memórias da sua vida carnal, aos seus desejos e sentimentos de posse. Com isso ele sofre e também as pessoas que o amaram, pois nenhuma delas se desapega. Isso significa escuridão para o espírito e doenças para quem está vivo, pois o espírito do morto suga a energia dos vivos. É por isso que o senhor tem sentido esses momentos de fraqueza.
Ele não era um sujeito desinformado sobre esses assuntos. Lera Alan Kardeck e outras obras do espiritismo. Não se convertera, mas tinha boa informação sobre essas coisas. “Essa menina pode ser uma embusteira do cacete, mas pelo menos é bem preparada”, pensou.
─ E daí? Como é feito esse Ritual da Perda?─ perguntou ele, já quase adivinhando a resposta.
─ Posso fazer esse ritual para o senhor. Mas isso tem um custo ─ disse ela.
“Eu sabia,” pensou ele.
─ Quanto?
─ Duzentos e cinquenta reais. Duzentos para o meu trabalho e cinquenta para uma vela do seu tamanho que eu vou ter que comprar. Essa vela é como se fosse uma oferenda do senhor para ela. Quando ela acabar de queimar, o espírito da sua esposa terá entendido que a sua passagem na terra terminou e que precisa ir embora. Enquanto a vela queima eu converso com o espírito dela e faço os passos necessários do ritual para que ela entenda que precisa se desapegar da matéria.
─ Interessante essa sua estratégia ─ disse ele, agora já perfeitamente recuperado, com todo o seu arsenal de ceticismo a postos.  ─ Devo reconhecer que vocês estão aperfeiçoando cada vez mais a vigarice ─ completou, olhando para a garota com olhos um tanto lúgubres e maliciosos.
─ Como disse? ─ perguntou a garota, tentando libertar a mão dela, que ele havia agarrado e estava agora apertando com força.
─ Que vocês, com esse papo de ciganos, videntes, médiuns, são todos uns vigaristas. Videntes o escambau. Vocês só querem é tirar dinheiro dos incautos. Vela do meu tamanho, Ritual da Perda, conversa com espírito... Você pensa que eu sou trouxa, menina? Eu não creio nessas besteiras ─ disse ele.
─ Se o senhor não crê porque deixou que eu lesse sua mão e falasse todas as coisas que eu disse para o senhor?
─ Porque eu sou um homem viúvo, estou carente, e você é uma menina bonita e bem gostozinha. Deixei a coisa rolar porque quem sabe, no fim, pintava uma química...A propósito, completou ele, com um olhar de malícia para ela ─ eu te dou os duzentinhos, se você quiser, mas não para velas e rituais...
─ O senhor é um tarado ─ disse ela, libertando, com um puxão mais forte,  a mão que ele prendera.
─ E você uma baita um-sete-um ─ respondeu ele, com um sorriso debochado.
─ O Senhor ainda vai se arrepender muito disso - disse a menina.
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Assim se foram os dois, cada um para um lado. A jovem ciganinha, com a sua velha Saveiro, cheia de bugigangas esotéricas, tomou o rumo do centro da cidade. Ernesto saiu do posto de gasolina com sua Hilux e tomou a estrada em direção à praia. Ia pensando na ciganinha. Que audácia dessa menina. Vidente o cacete. Mas ela era gostosinha. Bem que valia uns duzentos paus...
Foi em uma curva da estrada, em plena descida da serra, que ele viu aquele vulto. Em meio à neblina que cobria a estrada, uma mulher, vestida de branco, atravessou correndo na frente do seu carro. Não teve nem tempo de pensar. Meteu violentamente o pé no freio. A caminhonete derrapou, deslizou no asfalto, deu dois rodopios e capotou, antes de romper o guard rail, sair da estrada e mergulhar na insondável profundeza de um precipício de mais de duzentos metros de altura.
Quando parou, no fundo do precipício, a bela Hilux era apenas um monte de ferros retorcidos, onde um corpo dilacerado, com os olhos esbugalhados, contemplava a sua última cena: o seu próprio espírito deixando o corpo e sendo recebido, com um longo e vaporoso abraço, dado pelos braços de uma mulher vestida de branco, toda descarnada, mas ainda assim reconhecível como aquela que ele amou durante muitos anos. 
─  Luíza! Aquela cigana... O Ritual da Perda ... Foram os últimos movimentos que seus lábios tentaram articular, antes de mergulhar para sempre numa escuridão absoluta e impenetrável, onde todos os mistérios estão depositados.. 
 
 
 
 

 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 29/10/2019
Alterado em 30/10/2019
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