João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


Seu Matias era um senhor muito simpático que ganhava a vida trabalhando como caseiro do prefeito da cidade onde moravam. De dia trabalhava tomando conta da propriedade do Dr. Lopes, eleito por três vezes para governar a bucólica e aconchegante cidade que era conhecida pelo seu cinturão verde, produtora que era da maior parte dos legumes, das flores, frutas  e verduras que a cidade grande consumia; e de noite fazia uns bicos vendendo pipoca na praça da Matriz. Era mais conhecido como seu Matias, o pipoqueiro, do que como caseiro do prefeito.
Nos fins de semana e nos dias de festa, quando a praça da Matriz lotava de gente que vinha ouvir a banda, de moças que vinham para encontrar os rapazes, e dos rapazes que vinham atrás das moças, ele costumava trazer a Laurinda, sua filha de quinze anos.
Eta, menina bonita a Laurinda! Tinha uma cútis aveludada, de coloração tão vistosa como um pêssego no ponto mais perfeito da sua maturação. E sem qualquer cosmético a realçar-lhe as cores, além do prosaico e ingênuo pó- de -arroz que ela passava nas faces para disfarçar o rubor natural que lhe era próprio, seu rosto era a verdadeira rosa viva, que dir-se-ia, deixara a solidão do seu canteiro para cobrar ativamente os elogios de que era merecedora.
Os olhos então eram outro arraso. Não dava para esquecer. Eram lindas aquelas duas bolinhas azuis, incrustadas num fundo cinza violáceo, que se movimentam, céleres, ora para a direita,  ora para a esquerda, sempre fugindo dos olhares mais insistentes dos meninos que cercavam a carroçinha de pipocas do seu Matias naquelas ocasiões. Ah! e o corpo. Esse então era a perfeição da modelagem feita a partir de um violão.
Era a noite inteira aquele vai e vem dos rapazes em volta da carrocinha, cada um comendo quatro ou cinco saquinhos de pipoca por noite, e a cada pedido, também um galanteio, uma graçinha, um convitinho dito quase ao pé do ouvido da Laurinda, para que o pai não escutasse.
De todos os garotos da cidade, não havia um que não fantasiasse com a Laurinda. Se existem mulheres que nasceram para ficar encalhadas, Laurinda era uma das que jamais iriam precisar de reboque. Era só ela dizer que estava a fim que pelo menos uma dúzia de pretendentes apareceria na hora, e mais umas três nas próximas horas.

Um dia Laurinda se apaixonou. Esse dia chega para todas as mulheres. Um poeta, ou filósofo (sei lá qual a diferença que existe entre os dois), disse que só existem três coisas no mundo que nunca deixam de acontecer. A primeira é que quem está vivo deixar de morrer.; a segunda é achar um homem que nunca tivesse tido uma mulher que chorasse por ele e a terceira uma mulher que nunca tivesse se apaixonado pelo menos uma vez na vida. 
Afora o fato de que essa lista pode ser enriquecida com pelo menos mais uns dez enunciados de coisas impossíveis de serem encontradas, como por exemplo, um homem que nunca contou uma mentira, um irlandês que não beba e não brigue, um inglês que saiba contar uma piada, etc, acho que o cara que bolou eses enunciados tem razão. Isso quer dizer que você, leitora, que ainda não sentiu o ardente fogo da paixão lhe consumindo o peito, não deve desesperar: se a sua hora ainda não chegou, não se preocupe. Ela chegará, pois isso, segundo o poeta, é fatal.
Voltando à Laurinda, o felizardo por quem ela se apaixonou era um jovem jardineiro que costumava ir umas duas ou três vezes por mês na propriedade do Dr. Lopes para podar as plantas e dar um trato no jardim.
O Prefeito era um homem de bom gosto. Gostava de conservar um jardim todo Versailhes, com a grama aparadinha, os canteiros geometricamente distribuídos e aparados, as sebes perfiladas como batalhões com sua alas bem ordenadas, as árvores cuidadosamente podadas e esculpidas, uns representando figuras geométricas, outras imitando silhuetas de aves ou animais,  e muitos canteiros com diferentes tipos de flores e plantas ornamentais.
Havia quem enxergasse nessa simetria uma aparência de cemitério, mas isso era o que menos incomodava o Dr. Lopes. Era assim mesmo que ele gostava. Por isso, o Vadinho (esse era o nome do jovem jardineiro), tinha desenvolvido uma habilidade de barbeiro dos bons, misturado com dons de escultor, para poder podar aquelas plantas com o mesmo cuidado com que um barbeiro corta o cabelo de um homem e, ao mesmo tempo, dar-lhes uma conformação de verdadeira obra de estatuária.

Talvez fosse essa qualidade do Vadinho que tenha encantado Laurinda. Quem sabe cuidar de uma flor com tanta habilidade há de também saber tratar uma mulher com muita competênca. Isso já dizia Nicolas Flamel, o renomado alquimista: “A Alquimia é a arte do Amor. Gostais de  jardinagem?  Praticar Alquimia é a mesma coisa que jardinar.” Nela está envolvida a mente, na arte de distribuição e arranjo dos canteiros, a sensibilidade no trato das plantas e as mãos no carinho que se tem que dar a elas. Que mais pode uma mulher querer de um homem? Mente, sentimentos e mãos, trabalhando juntos para dar a ela o tratamento adequado...
Daí a paixão dos dois foi fulminante. Não dava para esconder. Tudo indicava que esse seria um daqueles casos de amor que faz a delícia para a pena de um escritor, quando ele tem a sorte de encontrar um. Só havia um problema em tudo isso. O Dr. Lopes tinha um filho de cerca de vinte anos, o Marquinhos, que também estava apaixonado pela Laurinda. E os pais, o Dr.Lopes e o seu Matias, já tinham entrado em acordo. Contavam como bom e acertado um casamento entre os dois, e só estavam esperando que a Laurinda fizesse dezesseis anos para dar-lhe a boa notícia. Para o caseiro e pipoqueiro esse era um achado, pois afinal, não é todo dia que a filha de um pobretão como ele se casava com o filho do patrão, e ainda por cima, prefeito da cidade.
Seu Matias achava que Laurinda tinha tirado a sorte grande. Marquinhos era bom menino, estava estudando direito, ia ser advogado, provavelmente seguiria a carreira do pai, entrando para a política. Ademais, era um rapaz decente e respeitador. Nunca soubera de algo que o desabonasse, mesmo sendo ele o filho do prefeito, o que geralmente faz com que um rapaz dessa condição tome liberdades indevidas. Mas Marquinhos nunca fizera isso. Sempre se portara com respeito e consideração para com eles, mesmo sendo eles empregados do seu pai. E ele já percebera os sentimentos dele por Laurinda, e sabia que eram sérios. Assim, Seu Matias já via a sua filha como primeira dama da cidade.
Marquinhos já tentara, por sua própria iniciativa, começar um namoro com a Laurinda. Falara com ela, confessara-lhe o seu amor, mas ela sempre o recusava, com muita polidez e versatilidade, como só o sabem fazer as mulheres inteligentes. Dizendo-se muito jovem para assumir qualquer compromisso, mantinha-o à distância com muita educação e seriedade. Afinal, tratava-se do patrão de seu pai e última coisa que ela queria era prejudicar o pai atraindo a ira de quem o empregava ha mais de trinta anos. Mas também não tinha a menor intenção de renunciar ao seu amor por Vadinho, principalmente agora que sabia como era se sentir daquele jeito.
Confiava que com o tempo Marquinhos se cansaria daquele assédio e iria procurar alguém da classe dele para namorar e deixaria em paz a filha do caseiro.
Enquanto isso começou a se encontrar ás escondidas com o Vadinho no jardim da propriedade, Ele vinha à noite, duas ou três vezes por semana, para se encontrar com ela. E atrás das sebes os dois namoravam, ocultos dos olhos do mundo.
Decorridos já uns seis meses depois que tudo aquilo começara, Marquinhos começava a dar sinais de impaciência em relação à resistência de Laurinda. As esperanças da menina, de que ele encontrasse uma outra garota e deixasse ela em paz também não se concretizaram. Ao contrário, parecia que cada dia ele ficava mais apaixonado. O interesse do filho do prefeito pela filha do caseiro já virara uma fixação.
Para Marquinhos, não adiantara muito o seu pai e o seu Matias terem entrado em acordo quanto ao namoro dos dois. Se esqueceram de falar com os “russos”, como dizia ele, pois quem tinha que concordar com isso era a Laurinda, não o pai. E ela continuava arredia, fugindo, recusando qualquer aproximação.

Com tudo isso a vida da menina virou um inferno. Acossada de um lado por Marquinhos, que não entendia nem aceitava a sua recusa, de outro pelo pai que a pressionava para oficializar o noivado, e de outro pelo medo de que seu namoro com Vadinho fosse descoberto, ela não sabia mais o que fazer.
O Dr. Lopes tinha fama de homem perigoso. Segundo se dizia à boca pequena na cidade, ele já tinha feito desaparecer mais de um desafeto que ousara contrariar seus desígnios ou tentara enfrentá-lo. Em face disso ela temia pela segurança do Vadinho. Se descobrissem que a resistência dela tinha a ver com o jardineiro, ele certamente correria perigo.
Então decidiram que iriam fugir juntos para um lugar bem longe onde ninguém os pudesse encontrar. Combinaram isso para dali a três meses, que era o tempo necessário para que o Vadinho pudesse juntar algum dinheiro para eles pagarem as passagens de trem e viver até ele encontrar um emprego.

Mas o Marquinhos não era bobo. A obstinada resistência de Laurinda tinha que ter um motivo. Desde algum tempo ele estivera investigando o comportamento da menina. E não foi difícil descobrir o namoro clandestino dela com o jardineiro. Isso aconteceu cerca de um mês antes do dia marcado para a fuga deles.
Mas não disse nada para Laurinda nem para o pai dele ou para o Seu Matias. Afinal, ele era filho do Dr. Lopes, prefeito da cidade. Os Lopes jamais iriam se rebaixar cobrando da filha de um pipoqueiro, que além de tudo era seu empregado, um comportamento que ela não queria adotar. Eles costumavam remover os obstáculos de outra maneira. Não era argumentando, nem negociando, nem pedindo.
Por isso, durante alguns dias andou sondando os dois namorando no jardim. Nessas ocasiões ficava na escuridão da noite, escondido entre as sebes, observando os beijos, os abraços, os carinhos deles, com o coração a explodir de ciúme, o corpo a doer de desejo e a mente a remoer o ódio e a inveja. E enquanto engulia a sua dor, planejava, com astúcia e frieza, um plano para se livrar do rival.
Mandou fazer investigações a respeito da vida do jardineiro e descobriu que ele não tinha parentes na cidade. Vadinho era um desses nordestinos que largam a família no Nordeste e somem no mundo sem deixar endereço nem dar notícias para ninguém. Assim, se de repente ele sumisse da cidade não seria novidade, e ninguém iria se preocupar.

Foi então que numa daquelas noites, lá estava ele, junto com três fortes e mal encarados sujeitos, esperando que os namorados se despedissem. Ficaram escondidos atrás das sebes altas, cada um com um grosso porrete na mão. O jardim da casa dos Lopes era grande e tinha muitos canteiros. Alguns pequenos, outros grandes, todos simétricos, perfilados lado a lado, uns feitos de alvenaria, como túmulos em um cemitério, outros simples monturos de terra, semelhantes à covas onde os defuntos sem nome são sepultados. Em todos eles, diferentes tipos de flores e plantas ornamentais, a maioria delas plantadas e cuidadas pelo Vadinho.
No escuro da noite e protegidos pelas altas sebes os quatro indivíduos mataram a pauladas o pobre jardineiro. Depois o enterraram num buraco de mais de dois metros de profundidade, aberto em um dos canteiros sem alvenaria, que eles já haviam preparado de antemão para a execução do plano. Assim fizeram para que ninguém, mesmo mexendo no canteiro, como de certo aconteceria um dia, viesse a encontrar os restos mortais do infeliz. Em seguida replantaram na improvisada sepultura um monte de cravos que haviam sido retirados com as respectivas raízes e placas de terra que os sustentavam, e arrumaram tudo como estava antes, de modo a não deixar qualquer vestígio de que aquele canteiro havia sido recentemente mexido, nem de que algo havia sido enterrado ali.
“O negócio dele não é cuidar de flores?”, pensou Marquinhos, com sarcasmo. “Pois agora que sirva de adubo para elas.”

Marquinhos só tinha uma preocupação. Como Laurinda iria reagir quando Vadinho não aparecesse mais? Ela não iria procurá-lo, não acionaria a polícia, não faria, de alguma forma, diligências para saber o que acontecera a ele?
Qual não foi sua estranheza quando viu que o comportamento dela não mudou nem um pouco. Continuava calma e tranqüila, como se nada tivesse acontecido. Ficara até mais simpática com ele. Tolerava suas abordagens sem demonstrar muita irritação e em alguns momentos, parecia até sentir uma certa disposição para o flerte. Ele começava, então, a ficar esperançoso. Achava que a menina estava se conformando com o sumiço do namorado, que provavelmente fora embora da cidade, sem ao menos despedir dela e sem dar qualquer satisfação. "Não há mulher que possa suportar um descaso desses,"pensou. E pouco a pouco foi adquirindo confiança e certeza de que fizera bem em suprimir o rival daquela forma. Dor de consciência ele já não tinha, e agora que o medo de ser descoberto ia sendo esquecido, ele se sentia seguro e confiante.

Não demorou muito para  Laurinda e Marquinhos começarem a namorar firme. Não se passaram mais de três meses para isso acontecer.  Já haviam até marcado o casamento para dali a um ano. Três meses mais tarde oficializaram o namoro com uma linda festa de noivado, que marcou época junto à sociedade da cidade. O anel de que Marquinhos deu a Laurinda era uma linda peça de diamantes, carissimo e raro, que provocou suspiros de inveja em todas as mulheres presentes na festas.
Nessa altura, Marquinhos já havia afastado de sua mente qualquer receio de que um dia fossem descobertas as coisas ruins que ele fizera para conquistar Laurinda. Na verdade, ele só lembrava do fato porque o canteiro continuava no mesmo lugar  e ele não podia evitar o calafrio que sentia nos ossos toda vez que ia ao jardim e passava em frente dele. Já estava imaginando um meio de remover os restos mortais do jardineiro dali e sepultá-los em algum lugar bem distante, para que assim, longe dos olhos, ficasse também distante da sua lembrança aquele episódio sórdido, que era a única coisa que ainda manchava, como uma nuvem negra, o azul imaculado do seu horizonte de felicidade.
Fora disso, só havia mais uma coisa que o incomodava. Passado quase um ano daquele episódio, Laurinda continuava indo todas as noites ao jardim para sentar-se naquele mesmo lugar onde costumava ficar com Vadinho, namorando às escondidas.
E toda noite ele a encontrava lá, sozinha, sentada no banco do jardim, como se estivesse perdida num mundo distante, sonhando acordada, ou como se presa num estado de transe hipnótico, do qual o mundo exterior tivesse sido banido. E quando ele se aproximava, e ela sentia sua presença, Laurinda se comportava como se estivesse voltando de uma longa viagem e agia como se houvesse sido apanhada em flagrante em algum ato que devia ser ocultado. E então olhava para os lados, como à procura de alguém, e só depois que se convencia que não havia ninguém mais ali além dela e Marquinhos, é que ela voltava a se comportar normalmente. Então pedia desculpas, inventava alguma razão para estar ali, disfarçava, sempre dando a impressão de que queria esconder alguma coisa.
Marquinhos não conseguia entender o que podia ser. Acabou concluindo que aquilo poderia ser saudade do rival. Mas o cara estava morto. Seria ridículo ter ciúme de um morto e resolveu não se preocupar. Aquilo ia passar. Logo eles estariam casados e iriam morar na sua própria casa. E assim que tivesse a oportunidade, num dia em que seu pai se ausentasse, ele iria providenciar a remoção dos restos mortais do jardineiro dali e dar um sumiço definitivo nele. Não havia razão para constrandimentos.
O casamento de Marquinhos e Laurinda foi o mais rico e elegante que aquela comunidade jamais presenciara. Metade da população foi à igreja para ver a filha do pipoqueiro que se casava com o filho do prefeito. Ela era a Cinderela da cidade. Os rapazes reclamavam, demonstrando o aborrecimento por terem perdido a musa dos seus sonhos; as garotas suspiravam desejando estar no lugar dela. Na festa, a melhor nata da sociedade local compareceu e todo mundo comentava a sorte da garota e o bom gosto do rapaz.

Laurinda tinha dezessete anos e casara virgem. Nos anos sessenta isso não era uma novidade. Mulher direita guardava seu corpo para a noite de núpcias com muito cuidado e convicção de que essa era uma atitude correta e sadia. E os rapazes sérios e responsáveis, embora sempre fizessem algumas tentativas para romper esse padrão, acabavam concordando com essa tradição, como um sinal de respeito e maturidade.
Dessa forma, a noite de núpcias era, de fato, uma noite inesquecível, longamente aguardada e preparada com esmero e ritualística precisão. Por isso Marquinhos não estranhou nem um pouco o pedido que Laurinda lhe fez logo que os dois entraram no quarto..
─ Amor, busca uns cravos no jardim para mim. Quero enfeitar nossa cama com flores bem cheirosas para a nossa primeira noite.
"Porque cravos ? pensou Marquinhos, "Afinal, se ela quer flores na cama pétalas de rosa dariam um ar mais romântico."
─ Não prefere rosas? ─ perguntou.
─ Não querido. É o cheiro, eu quero o cheiro do cravo ─ disse ela. ─ Á noite ele cheira mais ainda. Vai, bem, enquanto eu me preparo. Quando você voltar, estarei prontinha para você.
‘Tudo bem’, pensou Marquinhos. Afinal, aquela era a noite deles. Ele esperara por ela durante muito tempo. Não seriam uns cravos que iriam atrapalhar a sua felicidade.
Foi ao jardim, apanhou uma dúzia de cravos o mais rápido que pode e voltou para o quarto. Laurinda não estava lá. Pensou que talvez estivesse no vestíbulo ou no banheiro se preparando. Foi até os dois cômodos e não a encontrou. Esperou durante quinze minutos pela volta dela no quarto. Talvez tivesse ido procurar alguma coisa. Sabia que mulheres são caprichosas. Gostam de fazer charme. Ainda mais numa noite como aquela.
Espalhou cuidasamente os cravos pelo quarto, enchendo o cômodo meticulosamente arrumado com aquele perfume delicioso e inconfundível.
Meia hora havia se passado e nada da Laurinda aparecer. Então ele saiu para procurá-la. Ainda havia alguns convidados retardatários no salão de festas, tomando os últimos drinques. Perguntou a eles por Laurinda. Ninguém a vira. Saiu para o jardim. Procurou em todos os lugares. Nada. A única coisa que ele encontrou foi a linda aliança de ouro e diamantes que ele lhe dera, em cima do canteiro de cravos onde, cerca de pouco mais de um ano atrás ele havia enterrado o jardineiro.

Depois daquela noite nem ele nem ninguém nunca mais viu Laurinda. Depois de umas três horas de frenética procura pela propriedade e após uma varredura  pela cidade inteira, ele chamou enfim, a polícia. Uma semana mais tarde, visto que a polícia não conseguira nenhum resultado, ele contratou detetives particulares e mandou que varejassem o país inteiro à procura  da sua mulher.  Gastou uma fortuna com isso, sem resultado.
Espalhou sua foto pelos jornais do país inteiro, procurou e procurou durante mais de seis meses. Nunca ninguém achou qualquer pista de Laurinda.
O pai de Laurinda , o pipoqueiro Matias, morreu de desgosto dois anos depois. O Dr. Lopes perdeu a eleição seguinte para prefeito e acabou sendo processado pelas várias irregularidades administrativas que cometeu durante os seus mandatos como prefeito. Foi condenado na maioria delas e teve que devolver quase toda a fortuna acumulada em todos aqueles anos de coronelato e rapinagem  que praticou naquela cidade. Todo mundo comentou o inusitado da situação. Afinal, nunca antes no país, alguém havia sido condenado por causa dessas coisas. Ele foi o primeiro.

O Dr .Lopes morreu cerca de cinco anos depois, de cirrose hepática. Um dos bens arrolados na massa falida que ele deixou foi a enorme propriedade em que  residiu por mais de quarenta anos.Terminados os processos, a empreiteira que arrematou o bem resolveu fazer ali um condomínio de alto padrão. Para isso precisava demolir as construções e mexer nos belos jardins versailhanos que eram a atração da cidade.
Um dia, os operários que operavam os tratores tiveram que paralisar o serviço e chamar a polícia. Tinham encontrado em um dos canteiros dois esqueletos abraçados, grudados um no outro, como se tivessem sido enterrados juntos, flagrados em pleno coito.
Feitos os exames tanatológicos de praxe, verificou-se tratar-se de esqueletos de uma jovem com cerca de dezesete anos e um rapaz de vinte e dois, que morreram com uma diferença de seis meses um para o outro. Das investigações policiais apurou-se que a moça se chamava Laurinda e era filha do caseiro que durante mais de trinta anos cuidara daquela residência. O outro esqueleto pertencia à um jardineiro que trabalhou durante algum tempo naquela propriedade. Não se conseguiu determinar a causa mortis da moça, mas pelos ferimentos no crânio do rapaz, os legistas concluíram que ele havia sido morto a pauladas.
Uma coisa que intriga a polícia até hoje é a data da morte da garota, que o legista colocou no laudo. Pois segundo o registro do cartório civil ela se casara com o filho do prefeito, dono da propriedade em questão, cerca de seis meses depois da provável data da sua morte  As investigações feitas pela polícia e a oitiva de várias testemunhas que foram ao casamento levaram as autoridades a afirmar que ela ainda estava bem viva na data em questão. Foram feitos mais dois laudos, por legistas chamados da capital. Ambos confirmaram o que disse o primeiro profissional que examinou os cadáveres: a moça já estaria morta há uns seis meses quando se casou.

A única pessoa que poderia solucionar esse mistério era o marido da jovem. Ele ainda estava vivo na ocasião. Mas logo as autoridades policiais constataram que ele seria de pouca utilidade nesse caso, porque fora internado num hospício cerca de um ano depois da noite do seu casamento, e nunca mais recobrara a razão. A única coisa que ainda lembrava nele a condição de um ser humano era a sua mania de cultivar cravos em um canteiro que se assemelhava a um túmulo.

 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 20/05/2015


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