João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


MEMÓRIAS DE UM FUNERAL

 
Os funerais sempre proporcionam a oportunidade de elucubrações bem esquisitas. A que me ocorreu ontem é uma delas. Primeiro porque nunca achei que esse dia ia acontecer. O homem dentro daquele caixão já tinha vencido a morte um monte de vezes. Nos últimos dez anos passara mais tempo nos hospitais do que em casa. Cada vez que o levávamos a um hospital, acreditando que seria a última ele acabava saindo de lá com um sorriso zombeteiro nos lábios, dizendo que acabaria enterrando a todos.
Ao vê-lo dentro de umcaixão, com aquele rosto que contemplei durante quase setenta anos, fui logo pensando que Deus precisa mesmo de contradições para fazer com que o mundo seja construído. Que o mundo é um oceano dialético que só se sustenta pela oposição dos contrários. Pois aquele indivíduo que estava ali, deitado dentro daquela caixa cheia de flores, com os olhos fechados em um rosto impassível, como se fosse uma mácara de cera, era a pessoa mais do contra que eu conhecera em minha vida. Tudo para ele era o oposto do que os outros pensavam e diziam. Ele não concordava com absolutamente nada do que acontecia no mundo.  Corintiano doente, se alguém dissesse que o time estava jogando bem,  ele logo achava defeito. Ou era o centroavante que não valia nada, ou então o goleiro um baita frangueiro. Quando alguém elogiava o time ele dizia que o técnico não prestava e não sabia escalar. Se alguém metia o pau no PT perto dele, ele dizia que o Lula foi o melhor presidente que o país já teve. Se alguém elogiava o Lula, ele dizia que sujeito  não passava de um ladrão sem vergonha. Se o dia estivesse quente ele dizia que estava com frio. Se estava fazendo  frio, saia de bermuda e camiseta.

Não, ele não era espanhol nem nasceu no país basco. O país  pessoas,  por tradição, é a terra das pessoas que costumam ser contra tudo. Dizem que um basco, um dia desembarcou no Aeroporto do Galeão e deu de cara com a torcida do Botafogo, esperando o time voltar de uma viagem. Os torcedores estavam gritando o nome do time “Botafogo” “Botafogo”, e ele se meteu no meio deles e a cada grito “Botafogo” ele completava gritando “no palácio do Governo”.
O sujeito que enterramos ontem era assim. Nada estava bom nem certo para ele. Mas se alguém achasse que estava ruim ou bom, então ele abria um gostoso sorriso e chamava todo mundo de pessimista. Nós o chamávamos carinhosamente de Mister Magú, aquele velho personagem rabugento do desenho animado.
Reclamava de tudo e não aprovava absolutamente nada. Quando o padre começou a rezar para encomendar o corpo me veio á cabeça certas histórias bíblicas, como Cain e Abel, Jacó e Esaú, Isaque e Ismael, Jesus e Judas e afins. Pensei também no sol e na lua, na luz e na sombra, no côncavo e no convexo, no yin e yang, no positivo e negativo, homem e mulher (que me perdoe a comunidade gay) e concluí que uma coisa não tem qualquer valor sem a sua parte oposta e contrária. A cada momento que eu olhava para aquele rosto impassível eu logo pensava que, só para contrariar,  ele ia abrir os olhos e fazer aquela cara de contradição que sempre fazia quando alguém afirmava alguma na frente dele. E imediatamente o via levantar-se do caixão para dizer “hei, vamos parar com esse negócio que eu ainda estou vivo”. Só para contradizer. E eu, ao invés de enxugar as lágrimas que me rolavam pelo rosto, ia dar uma grande gargalhada.

De nós dois eu não sei quem era Cain e quem era Abel. Ou Jacó e Esaú. Nem sei quem era yin ou Yang. Isso não tem a menor importância. Quando éramos meninos, e até certa época da nossa juventude, essa característica dele me irritava. E a gente brigava como cão e gato. Depois, já adultos, isso passou a ser uma espécie de senha entre nós dois. Era divertido provocá-lo e ele também se divertia em me contradizer. Ele era a antítese de todas as teses. Ficar em campos opostos era a nossa maneira de amarmos um ao outro.
Ele era meu irmão mais velho e eu o amava. Até agora não me conformo em pensar que ele foi embora sem reclamar, sem contradizer, sem opor uma antítese áquela tese que se abateu como ele como uma foice de segar. Até o último momento eu esperei que ele dissesse alguma coisa contra aquele ritual e contra aquelas coisas que estavam sendo feitas com ele. Mas ele não disse. Silenciosamente, conformado, dócil como um cordeiro levado ao sacrifício, deixou que a tampa do caixão se fechasse sobre ele, e depois que um monte de terra o cobrisse. E eu fiquei ali, vasio como um saco do qual se tirou todo conteúdo, inútil como um poste do qual alguém sacou a lâmpada, triste como uma mão que não tem mais nenhuma coisa para pegar, ou de quem possa ainda se despedir.
E cheguei á conclusão que contra esta última tese não se pode opor nenhuma antítese. Porque ela já é a própria síntese de tudo.
 
 
 

 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 16/06/2015
Alterado em 16/06/2015


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras