João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


A GAROTA DA MÁSCARA NEGRA
 
           
     Sentado num banco da praça da catedral, ás três horas da manhã de uma quarta-feira de cinzas, “Seu” Ernesto estava cumprindo um ritual que andava praticando ha três anos. Desde que sua esposa morrera ele fazia isso. Saia para assistir o desfile de apoteose das escolas de samba, depois ia para aquela praça e ficava ali sentado até as primeiras horas da manhã. Depois voltava para casa, com um gosto de quarta-feira de cinzas na boca. 
       Confetes, serpentinas, lança-perfumes. Tudo isso já havia sido banido da história do carnaval há muito tempo atrás, assim como a alegria do carnaval que ele tanto experimentara, ali mesmo naquela praça onde estava agora sentado, não sabia há quanto tempo já. Deixara a passarela do samba naquela noite, onde agora as escolas de samba se apresentavam com fantasias luxuosas, moças seminuas, enormes carros alegóricos e uma estranha batida de samba que mais parecia marcha militar. Não se sentira bem lá. Muito barulho, muita poluição visual, mas pouca melodia nos sambas-enredos, poesias desconexas tentando contar histórias ou homenagear pessoas, e um ambiente que parecia muito mais uma feira de plumas, paetês, artigos feitos de plástico reciclado e outros materiais. Tudo organizado como se fosse um ballet ensaiado durante o ano inteiro para ser apresentado em uma hora naquele palco montado em uma rua especialmente preparada para isso. Era a rua do sambódromo, estranha palavra que ele não encontrara no seu velho Aurélio, mas que agora existiam no país inteiro, mostrando que a língua, ás vezes, é mais lenta e leva mais tempo para mudar do que o povo que a utiliza. Não pode deixar de pensar também que a evolução daqueles blocos absurdamente coloridos parecia uma parada militar. Ninguém podia perder o passo. Todos tinham que evoluir e dançar ao som das batidas dos instrumentos e da voz do cantor que se esgoelava em cima de um carro de som.
 
       Em outros tempos tudo era diferente. Os blocos desfilavam pelas ruas da cidade. Saiam lá do começo da rua principal, onde ficava a velha rodoviária, e desciam em direção ao Largo da Matriz, cobrindo, com sua algazarra alegre a única rua da cidade que era calçada com paralelepipidos. Iam até a praça do jardim, onde ficava o único cinema da cidade e depois dispersavam. Todos podiam participar dos blocos. Cada um com sua própria fantasia. Vampiros, lobisomens, bebês-chorões, arlequins, palhaços, colombinas, um ou outro soldado romano, e a grande maioria dos homens, que saiam sempre vestidos de mulher.
“Engraçado”, pensou “Seu” Ernesto, com um simulacro de sorriso. “Homens gostam de se vestir de mulher.” Era verdade. Os homens aproveitavam o carnaval para viver esse lado feminino que durante o resto do ano eram obrigados a esconder. No carnaval podiam fazer isso sem o medo de que alguém desconfiasse de sua masculinidade. Mas a recíproca não era verdadeira, pensava "Seu" Ernesto.. As mulheres não costumavam se fantasiar de homens. Nem naquele tempo nem agora. Seriam as mulheres mais seguras na sua condição sexual, para não precisar usar dessas artimanhas para praticar uma espécie de projeção? Essa era uma pergunta que o "Seu" Ernesto não sabia responder.
Aliás, eram poucas as mulheres que se aventuravam a participar daqueles blocos carnavalescos. Aquelas que se arriscavam dificilmente escapavam da má fama pela manhã. Só as mais corajosas encaravam.
Depois da farra todos iam para os salões. Ai sim, a mulherada se esbaldava. Por que ali bastava usar uma máscara, um spray de lança-perfume, um saquinho de confete e a farra estava garantida. Todo mundo podia se divertir á vontade. Aquilo sim, era carnaval, pensou "Seu" Ernesto. 

 
    ...Marli. Ele a conhecera no salão do clube que frequentava. Quase não se falaram naquela primeira noite. Era um sábado. Ela estava brincando num grupo com várias amigas. Dançavam mãos dadas, formando uma roda que não permitia a entrada de estranhos. Parecia que naquele cordão eram todos conhecidos. Ele estava sózinho. Sempre ia sozinho a esses bailes.
      Ás vezes, conforme a música, os grupos formavam um trenzinho e saiam pulando pelo salão. Num desses momentos ele entrou sorrateiramente na fila que rodava o salão e não saiu mais. Foi justamente atrás de uma garota com uma máscara negra que ele entrou. Rompeu a corrente ocupando o espaço entre ela e a garota que estava atrás. Tornou-se um elo daquela corrente. A garota da máscara negra sentiu que eram outras as mãos que se apoiavam no seu ombro. Olhou para trás, viu que não era mais a amiga, mas não protestou. Na verdade, ela gostou da troca. A amiga, que agora estava com as mãos nos ombros dele, também sorriu de modo cúmplice. Já havia percebido os olhares que ele havia trocado com a colega.  Depois ele pegou na mão dela e não largou mais a noite inteira. Ela também não largou mais a mão dele. Gostara do calor daquela mão que iria segurar pelos próximos trinta anos da sua vida.
     Sim. Foram três dias de intensa emoção, que ao “Seu Ernesto pareceram uma vida inteira. Em comparação com o carnaval de agora, pensou, tudo aquilo era tão ingênuo e puro...Três dias de folia e na quarta-feira, na igreja, as cinzas para expurgar o "pecado" daquela orgia. Aquilo lhe parecia uma grande hipocrisia, mas era a oportunidade de vê-la fora do buliçoso e barulhento ambiente do salão. Foi a hora de falar de um amor que nascia já forte e quase adulto, pronto para enfrentar uma vida juntos. E depois a troca de fotografias, que até agora ele ainda tinha na carteira, uma foto muito amarelada, enrugada, quase sem brilho, da sua Marli, nos seus esplendorosos vinte anos...
     Aquela praça, as flores, as pipocas que eles comeram juntos ali. O pipoqueiro não era o mesmo, nem as pipocas tinham o mesmo gosto. Agora vinham misturadas com amendoin, coco e outros produtos. Gostava mais delas só com aquele salzinho. Olhou para a aliança que ainda brilhava no seu dedo. Fazia agora parte da sua anatomia. Para tirá-la teria que cortar o dedo. Duas grossas lágrimas rolaram dos seus olhos.  
       
       – Como é que você consegue ficar tão triste depois de uma noite de carnaval? – perguntou a moça que estava sentada ao seu lado no banco da praça.
      Ele levou um susto. Não havia percebido a presença dela.
      – Hum? – Foi o único som que conseguiu pronunciar, como se seu espírito tivesse sido puxado bruscamente de outra dimensão e arrojado violentamente dentro do seu próprio corpo. Por isso, talvez, sentira, concomitante com o susto, aquele arrepio que percorreu todo o seu esqueleto, desde o alto do couro cabeludo até a sola dos pés.
   – Eu não estou triste – respondeu ele, depois de alguns segundos, respirando fundo para recuperar-se do susto.

  – Estou recordando ─ disse ele. ─ Há quarenta anos atrás eu estava sentado nesta mesma praça, neste mesmo banco, com a minha esposa. Éramos recém-casados. Casamo-nos nessa igreja ai em frente. Eu a conheci num baile de carnaval – completou “Seu” Ernesto, com um longo suspiro, e um tanto surpreendido por estar confessando á uma desconhecida coisas tão íntimas.Mas a impressão que teve era a de que ele a conhecia há muito tempo, por isso não se sentiu nem um pouco constrangido.
  – E onde está ela agora?– perguntou a moça.
  – Ela faleceu há cinco anos atrás – respondeu ele, olhando para a  moça, reparando, pela primeira vez, que ela usava uma máscara negra de papel acetinado.
   – Desde então completou ele ─ toda terça-feira de carnaval eu venho me sentar aqui nesta praça, onde nós passamos os nossos melhores momentos.

  – Então essa é a causa da sua tristeza – disse ela. – Deve ser mesmo muito triste perder alguém a quem se amou muito e com quem se dividiu tanta coisa.
 – É estranho – disse ele. – Mas eu não me sinto como se a tivesse perdido. Para mim, é como se ela tivesse viajado para algum lugar e eu, um dia, também irei para lá me encontrar com ela.  
– E você se sente preparado para ir ?– perguntou a moça.
– Estive me preparando nestes três últimos anos– disse ele, – mas agora não posso deixar de reconhecer que estou com medo. 
  – Todo mundo tem medo de viajar para um lugar que não conhece – disse ela. – Eu também, quando fui, tive muito medo. Mas logo me dei conta que era apenas a sensação do desconhecido. Por isso me deixaram vir buscar você.  
  Ele olhou para ela como se não tivesse entendido. Mas nesse momento, alguma coisa dentro do seu peito explodiu como se fosse a  barragem de uma represa que rompia. Imediatamente sua mente foi tomada por uma profunda escuridão.
– Não precisa ter medo – disse ela, tirando a máscara e beijando docemente os lábios dele.  – A vida é como o carnaval. Uma doce ilusão que se vive e acaba muitas vezes. E sempre recomeça de alguma forma. Se você amou e fez alguma coisa na vida que lhe deu mérito, você viverá para sempre porque o combustível da vida é o mérito. Se você o tem, o universo o conservará vivo por toda a eternidade. Nossos corpos se vão, mas o que feito em nome do amor repercute na eternidade.
    Ele ouviu as palavras dela como se fosse uma música que a gente ouve quase dormindo. Marli!  Exclamou ele. Meu Deus, é você,,,
 A última sensação que ele teve foram os lábios dela colando nos dele. A princípio os sentiu frios. Mas depois veio a vertigem e a frialdade foi substituida por uma sensação de leveza e fluidez. Era como se um aspirador o sugasse com uma força que ele não conseguia resistir. Sentiu-se puxado por uma mão que o conduzia por um túnel escuro e estreito. Mas ele não sentia medo agora. Sabia que havia uma presença sutil ao seu lado, guiando-o.  Logo ele viu no fundo daquele túnel uma estranha luz. Nunca havia visto uma luz como aquela. E ela o atraia como um ímã atrai limanhas de ferro. Sentiu que vivia uma eternidade num único segundo. Contente e já com uma sensação de paz em todo o seu ser, caminhou em direção a ela, agora sem dúvidas nem temores. E quando entrou no raio daquela luz sentiu-se leve como um balão de gás que escapa das mãos de um menino. Estava levitando.

 
     Os amigos que compareceram ao velório do “Seu” Ernesto foram unâmines em dizer que ele tinha morrido do jeito que queria. Um enfarto fulminante que não lhe dera tempo nem de sentir dor. Tinha sessenta e seis anos. Morreu na madrugada da quarta-feira de cinzas, sentado num banco da praça da catedral da cidade. Os frequentadores da praça também se lembravam bem dele. Todo ano, religiosamente, ele costumava se sentar lá na noite da terça-feira de carnaval e ficar até de madrugada. Gostava de ver a cidade vazia e silenciosa depois da muvuca do carnaval.
   Ele era uma pessoa de quem todo mundo gostava. Por isso houve muito choro e lamentação no seu funeral. A única pessoa que não ficou triste com a morte dele foi o gari que varria a praça da catedral pela manhã. Isso porque, junto com um punhadinho quase imperceptível de cinzas, uma máscara preta, feita de papel acetinado e o retrato amarelado de uma moça de cerca de vinte anos, ele encontrou duas grossas alianças, que vendeu a um comprador de ouro por duzentos reais.        
 
    

 
 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 07/11/2015
Alterado em 07/11/2015


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