João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


 

Se você já visitou uma usina de processamento de lixo alguma vez, então já sabe como isso funciona. Primeiro o material é separado por espécie, depois cada espécie é levada para um determinado lote, cada lote é triturado, decomposto ou compactado, dependendo da sua espécie, e depois submetido ao processamento industrial que o transformará num produto novo. Adubo, plástico reciclado, vidro, metal para ser refundido, etc. tudo de acordo com a utilidade de cada resíduo.

Utilidade e função, esse é o critério segundo o qual os resíduos da nossa civilização são selecionados, reciclados e reaproveitados. Os nossos pensamentos, mal comparando, também são processados dessa forma. A maioria é resultado do lixo que a civilização produz. Se você não acredita nisso e acha a comparação muito forte, é só pegar os jornais do dia e ver o quanto de informação útil você aproveita nele; se isso ainda for pouco, rememore as conversas que você teve durante o dia, recorde-se do leu,  e pense em quanto de utilidade você tirou de tudo isso; se você vai á escola, faça um julgamento criterioso das informações que está recebendo lá e veja o quanto realmente é útil e necessário ás necessidades que você tem de informação.
Pois é, a nossa civilização produz uma montanha de lixo cultural todos os dias e nós não temos como nos livrar disso, pois os nossos olhos, os nossos ouvidos e os nossos sentidos prioceptivos(tato, paladar, olfato), são como aterros sanitários que não têm portaria nem seguranças necessários para impedir que esses materiais entrem no território dos nossos sentidos.
As usinas de reciclagem mais modernas estão equipadas para processar todos os resíduos que a civilização produz. Nelas, entra lixo e sai produto útil. Mas nem todas são assim. Aliás, a maioria nem de usina de reciclagem pode ser chamada.  São verdadeiros canteiros de compotagem de lixo, onde o resíduo é compactado e enterrado como se fossem cadáveres, para que a terra, através dos seus agentes de transformação, faça o trabalho de decompô-los e degradá-los, para que eles entrem, novamente, no ciclo vital da terra. Mas alguns desses resíduos levam centenas de anos para serem degradados e outros até milhares. E enquanto não se decompõe e degrada, fica contaminando o meio ambiente por muito tempo. É o caso do lixo radioativo, por exemplo.
Informação também é assim. Ás vezes alguém lança uma informação, ela é recepcionada pela mente das pessoas, não é devidamente processada pelos filtros da racionalidade e ela vira crença. E essa crença, muitas vezes, acaba contaminando o meio ambiente por muitos e muitos anos. Um exemplo: algum dia, alguém propagou a informação de que havia raças superiores ás outras. Houve quem acreditasse nisso e trabalhou essa informação, justificando-a e dando-lhe amparo filosófico. E nasceu a crença. Essa crença tem contaminado o meio ambiente espiritual da humanidade há milênios e já foi responsável por mais mortes no seio dela do que a maioria das epidemias ou dos cataclismos naturais que a nossa produção de resíduos já causou. [1] Idéias religiosas tomadas ao pé da letra e transformadas como justificativa para ações políticas também podem ser analisadas desse modo. Guerras e atentados em nome da religião já mataram mais pessoas do que a radiação das bombas atômicas detonadas no globo terrestre, somadas a todos os atentados aos ecos sistemas do planeta.       
     Pensamentos e ações úteis e eficientes para o progresso do ser humano e sua civilização são como os produtos que saem das nossas linhas de produção. Se a matéria prima for boa já temos meio caminho andado para que o resultado final seja bom. Mas matéria prima de boa qualidade não é tudo. É preciso saber processá-la. Em todo lote de informação que entra em nossa usina de pensamentos existe um tanto de boa e má qualidade. É impossível escolher num mercado contaminado de ideologias, interesses e crenças já formadas, como esse em que vivemos hoje, uma informação pura, natural, isenta de qualquer meta-mensagem destinada a fazer a nossa cabeça. Daí a necessidade de saber processá-la bem, para que ela não entre como lixo e saia da nossa cabeça como lixo. Ás vezes mais contaminado ainda.


Nossos processadores de informação são os valores que adquirimos ao longo da nossa vida. E esses valores são conseqüências diretas das crenças que assumimos como verdadeiras. E a única forma de analisar a veracidade de uma crença é perguntar que tipo de bem essa crença faz para o ambiente em que vivemos. Que tipo de bem fará para nós acreditarmos nisso ou não.
Crenças são úteis ou inúteis. Dão resultados bons ou ruins para a vida da sociedade. Fazem bem ou fazem mal. Crença não é religião. Crença é uma disposição de espírito que nos induz a ver uma coisa de determinada forma.  Geralmente a crença é resultado de um sofisma de composição, ou seja, a gente vê a coisa de um determinado modo e essa visão é a verdade para nós. Torna-se um valor segundo o qual julgamos tudo o mais, pois então tomamos a parte pelo todo e o que é verdade para nós deve ser verdade para todo mundo.E mesmo que sejamos tolerantes a ponto de aceitar que outras pessoas possam ter crenças diferentes, jamais estaremos dispostos a aceitar a verdade da crença dela.
Religião é uma forma de exercitar uma crença. Quem mata alguém por causa da sua religião não está matando por crer em alguma coisa boa. Mata para fazer valer sua forma de acreditar. É a aplicação do sofisma de composição na sua necessidade de provar poder. Crenças não são resultado de experiências científicas, mas sim resultados de deduções do pensamento humano. E todo resultado do pensamento em que a dedução foi o único processador, está contaminado por uma crença. Inclusive este, que eu estou produzindo. Veja se tem alguma coisa de útil nele, para o que você precisa. Se achar que não tem, jogue fora. Ninguém precisa acreditar em nada do que lhe dizem. Acredite se quiser e se achar que vai lhe fazer bem
. Teste. Veja se lhe faz bem acreditar nisso.



Nota:

O sofisma da composição é uma espécie de vício de pensamento no qual a nossa mente foca um aspecto do conjunto em detrimento de todo o resto desse conjunto. A figura cima é um exemplo do sofisma da composição, O desenho mostra um homem tocando saxofone ou um rosto de mulher? Isso, em psicologia, é uma gestalt, ou seja, uma imagem na qual o nosso sentido visual "informa" á nossa mente, em princípio, aquilo que a nossa mente quer ver. E a mente sempre formata suas gestalts, ou seja, suas representações da realidade segundo suas crencas, valores , desejos etc.. Nas ciências sociais, o sofisma da composição designa um raciocínio falso onde o todo é "julgado" pelo que se vê em uma de suas partes.

[1]Um exemplo de cataclismo provocado por contaminação ambiental foi a peste negra que dizimou um terço da população(cerca de 50 milhões de pessoas) da Europa no século XIV. Esse pandemia, propagada por pulgas e ratos,  foi produto das péssimas condições de higiene existente nas cidades medievais.
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 02/12/2012
Alterado em 18/12/2012


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