João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


O FILHO DA LAVADEIRA
Minha mãe era uma viúva analfabeta que lavava montes e montes de roupa para comprar comida para os quatro filhos que meu pai deixou para ela criar, quando morreu, com apenas trinta e oito anos de idade. Me lembro disso por que era eu quem entregava as roupas lavadas e passadas para os clientes. Quando eu passava pela rua, empurrando o meu carrinho, feito com rodas de bicicleta e ripas de madeira, alguns moleques ( e gente grande também) falavam: aí vem "o filho da lavadeira". Me botaram um monte de apelidos. Começava pelo fato de eu ser miudinho e raquítico como um ratinho de porão de casa de pobre. Claro que eu sofri todo tipo de bullying, mas naquele tempo essa prática perversa que os mais fortes gostam de exercer com os mais fracos não era computada como crime, nem sequer tinha o repúdio da sociedade como hoje. Quando eu chegava chorando em casa, doido de raiva por causa dos apelidos e das gozações que eu tinha que suportar na rua, minha mãe, proverbialmente, dizia: se você ligar para esses apelidos e deboches, aí que eles vão debochar mais ainda. Apelido só pega se você quiser. Quando  a gente aceita, dando força para eles.”
Confesso que não me foi fácil absorver o conselho da minha mãe. Isso me soava como aquele outro conselho que eu ouvia na igreja, ou daqueles pregadores de rua, que iam á feira nos sábados para vender a sua doutrina e depois passar o chapéu para recolher uns troquinhos. “Se você levar um tapa na face direita, ofereça também a esquerda.” Eu não sabia que era um conselho bíblico esse, mas que nunca consegui concordar com ele, isso sou obrigado a dizer. Me parecia um absurdo aquilo, tanto quanto o conselho da minha mãe, de não ligar para os apelidos. E quantas vezes voltei para casa com o olho preto ou o nariz sangrando por causa das brigas que tive por causa disso.
Mas minha mãe tinha razão. Ela era analfabeta, mas tinha uma noção bastante prática de marketing. Pois o que ela estava ensinando para mim era exatamente uma regra prática de marketing, que diz que quanto mais você repercute um assunto, ou chama atenção para um rótulo, mais conhecido ele se torna. E mais fácil ele se cola a você. Graças a esse ensinamento nunca me senti o “filho da lavadeira”, nem sequer me dei conta de quanto era pobre.
Recuperei essa lembrança por causa da estratégia que o PT está utilizando para tentar demonizar o adversário. É uma clara estratégia usada pela esquerda raivosa e demagógica que tenta separar a sociedade em ricos e pobres. Como se uns fossem bandidos e outros mocinhos. Como se uns fossem maus e outros bons. Estão tentando utilizar um resultado político normal, que é o fato de sua candidata ter a maioria dos votos nos estados mais pobres do Norte e Nordeste, para transformar o debate político em um confronto ideológico bem a gosto da esquerda marxista, que tende a ver tudo pelo prisma dialético do velho Marx, onde o bem (o trabalho) e o mal(o capital) são forças contrárias que se digladiam e buscam, cada um de seu lado, ficar com a melhor parte. A Dilma foi mais votada entre as populações mais pobres e menos educadas simplesmente porque o resultado da sua política beneficiou muito mais essas camadas da população do que as outras. Isso é simplesmente lógico. Só que a maior parte do povo brasileiro não vive nesses nessas regiões. Vive nas cidades, onde as demandas são outras. É uma questão de escolha.Não tem nada de demoníaco nisso.
O velho Marx estava certo em muitas coisas, mas ele se esqueceu de dizer que os sistemas, em si mesmos, não tem vida própria. Os sistemas, sejam eles econômicos, políticos ou sociais, são criados e sustentados pelos homens que os operam. Quer dizer: não há sistema bom ou ruim, certo ou verdadeiro, virtuoso ou perverso, mas sim, pessoas que os fazem ser uma coisa ou outras. O PT teve a sua chance de mostrar a que veio. Doze anos de governo não é pouco. Fez algumas coisas boas, como por exemplo, reduzir as desigualdades regionais e reduzir a pobreza absoluta que o país ainda ostenta em muitos locais. Mas, no contexto geral, o resultado parece não estar agradando á maioria do povo brasileiro. Isso se comprova pela altíssima taxa de rejeição que não a sua candidata ostenta, mas sim o próprio partido. Ao que parece o PT caiu no logro daquele cara que ganhou uma galinha que botava ovos de ouro. Não se contentou com um ovo por dia e resolveu abrir a barriga da bichinha para pegar tudo de uma vez. A galinha da vez foi a Petrobrás, mas tem muito mais coisas por aí. Se a Polícia Federal e o Ministério Público for dar uma olhadinha nas tais ONGs que o PT fundou por ai para tocar os seus “projetos sociais”, vai encontrar muita coisa para se preocupar.Mais uma vez, não se trata de sistemas, nem de ideologias, mas simplesmente de caráter das pessoas..
O velho Abraham Lincoln, que não pode ser carimbado de direitista reacionário (como o PT gosta de chamar todos aqueles que discordam do seu discurso, por que graças a ele a escravidão no E.U. foi banida),  disse certa vez que não se promove a prosperidade tirando dos ricos com a desculpa de dar aos pobres. Não vamos acabar com a desigualdade tratando-a desigualmente. Parece que virou moda na nossa sociedade destacar as diferenças, ao invés de promover as semelhanças. Chumbam-se rótulos nas pessoas e nas classes sociais e se procura, cada vez mais, chamar a atenção para eles, destacando-os. E as pessoas e as classes sociais que os assumem são exatamente as mesmas que têm mais dificuldade para se livrar deles.  
Quem é pobre e analfabeto não precisa aceitar o rótulo e esperar que alguém venha libertá-lo desse estado. A função de um governo não é ajudar ninguém a sobreviver, mas sim criar condições para que as pessoas ganhem suas próprias vidas com dignidade. A prosperidade vem quando se cria condições para que os pobres também possam ficar ricos. E isso só com investimentos na educação, na saúde, em infraestrutura, e com uma política capaz de desenvolver tecnologia e a economia, para assim criar empregos de qualidade. Não é separando o país em duas facções e jogando uma contra a outra que vamos conseguir isso. Aqui não se trata de uma guerra dos pobres contra os ricos. A esquerda raivosa precisa parar de colar no povo esses rótulos desabonadores. Isso é coisa de gente despeitada, que se sente impotente para vencer, por si mesma, os desafios da vida. Para eles vale o conselho da minha mãe. O apelido pega mais firme quando a gente o aceita. Minha mãe não era uma lavadeira analfabeta. Ela era uma prestadora de serviços que não aprendeu a ler. E eu nunca fui “o filho da lavadeira.” Sou o filho de uma mulher muito sábia e lutadora.
 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 11/10/2014
Alterado em 11/10/2014


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