João Anatalino

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ODE A SÃO JOÃO

“Mas desçamos à terra,
Que, por enquanto, o céu aterra,
Porque antes disso mete à morte.
Há muita coisa desconhecida
Na tua vida.
Tens muita sorte
Em ninguém saber da partida
Que em mil setecentos e dezassete
Tu fizeste à Igreja constituída.
Estás, eu bem sei, cansado                        
Com o que a igreja se intromete
Com tua vida e teu divino fado.
(E) foi então que para te vingar
E à maneira de santo, os arreliar,
Desceste mansamente à terra
Perfeitamente disfarçado
E fizeste entre os homens de razão
Um milagre assinado,
Mas cuja assinatura se erra;
Quando em teu dia, São João de Verão,
Fundaste a Grande Loja de Inglaterra.
Isto agora é que é bom,
Se bem que vagamente rocambólico,
Eu a julgar-te até católico
E tu sais-me maçom.”[1]

                                                          Ode à São João- Fernando Pessoa

     Eis uma bela ode escrita por Fernando Pessoa em homenagem à São João, padroeiro da Maçonaria. E há quem diga que Fernando Pessoa não era maçom. Se não era, sabia muito mais da Arte Real que muitos graus 33 por aí, que arrotam conhecimento sobre a nossa Arte sem sequer ter consciência da grandeza que ela encerra.
     É possível que Fernando Pessoa não fosse iniciado em nenhuma Loja regular. A possibilidade é bastante viável, porquanto sua condição financeira nunca foi grande coisa. Ele sempre viveu de poesia e jornalismo e está ainda para nascer um poeta e jornalista sério que vai conquistar uma invejável situação financeira fazendo poesia e escrevendo para periódicos.
     Certamente, como muitos irmãos valorosos de hoje, ele teria dificuldades para pagar suas cotas regulares, pois a Maçonaria, como qualquer outra sociedade organizada em sistema de franquia, custa caro. É pena que isso aconteça, por que assim se barra o ingresso na Ordem de muitas pessoas que poderiam contribuir em muito com a sua herança cultural.
     Quanto ao Fernando, até agora não foi encontrada nenhuma ata de seção da iniciação dele em uma Loja regular. Se existiu, foi destruída ou ainda ninguém recenseou. Mas nem toda Loja pertence a uma potência regular. Todo maçom sabe disso. É possível que o Fernando tenha sido iniciado em uma Loja não reconhecida pelas Potências oficiais.
Ele próprio se dizia maçom templário. É bem possível que fosse. Afinal os Ritos Templários são os que mais destacam o caráter espiritualista da Maçonaria. E são também os mais misteriosos, porque reivindicam relação direta com os Mistérios praticados por esses antigos monges malditos que, na Idade Média, tanta preocupação causaram á Igreja e ás autoridades constituídas. E até hoje excitam a imaginação das pessoas.

     Os escritos do poeta sobre o assunto são um claro exemplo disso. Ninguém, melhor do que ele, discorreu sobre os temas arcanos da Maçonaria com tanta propriedade. Talvez só René Guenón o tenha feito com igual desenvoltura. Mas René Guénon era filósofo e os filósofos, até por força da inclinação, são necessariamente obscuros. Fernando Pessoa não. Ele conhecia como ninguém os mistérios da Cabala, e por extensão da Maçonaria, e sabia expô-los com poesia e arte.
     Eis alguns ensinamentos de Fernando Pessoa que nós selecionamos para exemplificar esse fato.

     “No último e excelso sentido, a Loja é o arcano ou a Arca da Verdade. O mestre e os Dois que estão com ele no governo da Loja são o símbolo das Três Verdades fundamentais ou cabalísticas. Os dois, que com estes três, formam os Cinco que completam a Loja, são símbolos dos dois princípios externos ou Relação, por meio dos quais a Verdade não é erro. E os outros dois, por meio dos quais a Loja fica perfeita, são os símbolos dos dois últimos princípios, por meio dos quais a Verdade pode descer ao nosso conhecimento, se nós soubermos subir a ela.” [2]
 
      Claro que a linguagem utilizada pelo poeta é um tanto hermética, pois ele aqui recorre ao simbolismo arcano. Mas todo Irmão medianamente informado no simbolismo maçônico sabe que o Templo maçônico é um simulacro do universo. De onde vem essa ideia? Da Cabala, é lógico. A Cabala ensina que o Tabernáculo, primeiro, e depois o Templo de Salomão, foram projetados segundo medidas ensinadas aos seus arquitetos pelo próprio Grande Arquiteto do Universo. Quem se der ao trabalho de ler as instruções do Senhor à Moisés para a construção do Tabernáculo logo perceberá que tantos detalhes rituais não são mera imaginação do cronista bíblico. Tudo tem um sentido arcano que os iniciados podem perceber. Ali está a geometria e a simbologia como fonte de um saber arcano que estão conectadas com a própria energia dos princípios.
      A mesma coisa acontece com o desenho da Arca da Aliança. Note-se a similitude de formas entre a Arca o Templo. É que ambos tinham a mesma função: Guardar a verdade eterna. Como dizem os cultores da Teosofia, a Arca da Aliança era “uma espécie de telefone” com o qual os sacerdotes israelitas podiam falar diretamente com Deus. E o Tabernáculo, e depois o Templo de Jerusalém, era a cabina. Por isso a simbologia que se lhes aplica e a mística que lhes é agregada, e que ainda hoje proporcionam aos amantes do esotérico deliciosos voos de imaginação.


     “Os Três princípios que formam a Loja são: (1) Jeová não é Deus; (2) Adão não é homem;(3) Eva nunca existiu. Os dois princípios que completam a Loja são: (4) No Princípio foi (ou era) o Verbo (5) E o Verbo se tornou carne (6) O que está em cima é como o que está em baixo (7) Quando o discípulo está pronto, o mestre está pronto também.(8) De Deus nascemos, em Jesus morremos, pelo Espírito Santo ressurgimos (ou em Deus somos entrados, em Jesus passados, Pelo Espírito Santo erguidos); Bendito seja Deus, Nosso Senhor, que nos deu o Verbo.” [3]
 
     Jeová não é Deus, diz Fernando Pessoa. Isso é um ensinamento cabalístico. A Cabala ensina que o termo Jeová (IHVH) é apenas um dos nomes mediante o qual Deus se manifesta no mundo. Na verdade, Deus se manifesta ao mundo como um Elohin. Assim, Jeová é o nome da primeira manifestação de Deus no grande processo de construção do universo real. É como se ele fosse o Grão Mestre da Fraternidade dos Elohins, ou a própria denominação dessa fraternidade.[4]
Ele pode ser considerado o Grande Mestre Arquiteto do Universo. Porém, o Criador do homem, a quem a Bíblia se refere não é Deus, por que Deus é espírito e espírito não tem imagem nem forma. E se o homem foi feito à imagem e semelhança do seu Criador, o seu criador não poderia ser o próprio Deus em essência. Por isso, na Bíblia, temos uma linguagem pluralística a indicar essa verdade: “façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, diz o Criador. Se Deus, o Princípio Único, tivesse feito o homem, por ser singular, uno, ele diria “Farei e não façamos.” [5]
    Adão não é homem, diz Fernando, porque ele, quando foi feito, não era homem nem mulher, mas homem e mulher em um mesmo corpo. Adão era andrógeno. Tinha em si os dois sexos. Quando a Bíblia fala na criação da mulher a partir de uma costela de Adão, ela está falando de um momento biológico da espécie humana em que os sexos foram separados. A natureza os tornou macho e fêmea. Por isso ele diz que Eva nunca existiu. Nunca existiu como individualidade criada no início, mas sim como resultado de uma mutação genética.
    Por outro lado o Verbo se torna carne quando a Luz do Grande Arquiteto é projetada no ser humano. A Bíblia diz que isso ocorreu quando o Senhor soprou nas narinas de Adão o sopro divino. Porque essa Luz é chamada de Verbo? Porque, no início, quando não havia o universo, Deus não tinha predicado. Ele era apenas sujeito. Ele não tinha substantivos nem qualificativos pelos quais pudesse ser identificado. Ele é, Ele era. O universo é o predicado de Deus. A Cabala, antes de Deus criar o universo o chama de “Existência Negativa”. Depois de criar o universo Ele passou a ter uma “Existência Positiva.” A antiga filosofia chinesa do Taoísmo também hospeda ideia semelhante: “No princípio está o que não tem nome. O que tem nome é Mãe de todas as coisas” diz o filósofo taoísta.[6] 
Por isso, as palavras Dele quando se apresentou á Moisés no Monte Sinai foram “ EU SOU. Dirás ao Faraó que EU SOU manda liberar o seu povo”. Essa é a razão de uma das alegorias essenciais da Maçonaria, inspirada pela tradição cabalística, ser aquela que procura pela Palavra Perdida e a (re)descoberta do Verdadeiro Nome de Deus ( o Nome Inefável).

     O que está em cima é igual ao que está em baixo é o axioma fundamental da ciência hermética. Significa que o universo é igual em toda parte, que o céu reflete na terra e a terra reflete no céu. Há uma estreita relação de similitude entre as duas estruturas e entre todas as estruturas do universo. Por isso tudo repercute em tudo.
     Quando o discípulo está pronto o mestre aparece. Isso é axioma fundamental em toda doutrina iniciática. Quer dizer que a sabedoria é uma qualidade do espírito e não da razão. Não adianta procurar. Ela se revela aos merecedores.
     A frase “de Deus nascemos, em Jesus morremos, pelo Espírito Santo somos erguidos”, revela o caráter escatológico do Cristianismo sendo aplicado á doutrina maçônica. O homem nasce em Deus; quando conhece Cristo ele morre para a sua vida anterior e renasce no Espirito Santo, que é o Cristo ressuscitado. Essa também é a simbologia contida no Drama de Hiram, que funde o antigo simbolismo arcano com a mística cristã. E nesse sentido, a teologia cristã se reconcilia com o simbolismo maçônico, afastando a ideia de a Maçonaria é anticristã, como querem alguns dos seus detratores.

     “Assim, em último e verdadeiro sentido, exposto entre névoas, para que se perca quem não se sente no caminho, se descobre a verdade da F{ranco} M}açonaria}, como um magno Mistério Cristão.”[7]
 
     Com essa frase, tão a gosto dos esoteristas, Fernando Pessoa termina um dos seus mais interessantes textos sobre a Maçonaria. Esse texto mostra os profundos conhecimentos que ele possuia a respeito da tradição cabalística e da sua aplicação na doutrina espiritualista da Maçonaria. E ainda há quem diga que ele não era Irmão. Se não era ele provou que não é preciso ser iniciado para se conhecer o que de melhor existe na Arte Real.




 
 
[1]  O Pensamento Maçônico de Fernando Pessoa- Jorge de Matos, ed. Sete Caminhos-Lisboa, Portugal, 2005
[2] O Pensamento Maçônico de Fernando Pessoa- Jorge de Matos, ed. Sete Caminhos-Lisboa, Portugal, 2005
[3] Jorge de Matos, idem, pg 48
[4] Veja-se, nesse sentido Knor Von Rosenroth- A Cabala Revelada- Madras 2011
[5] Gênesis, 1:27
[6] Tao Té King- Verso I.
[7] Jorge de Matos, ibidem, pg 84
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 16/10/2015
Alterado em 17/10/2015


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