O Evangelho da Prosperidade
Ouvir a pregação de um pastor evangélico do chamado movimento neopentecostal nos remete imediatamente ao pensamento de Nietzsche sobre o cristianismo. O irascível filósofo alemão, inspirador de Hitler e do nazismo, era um ácido crítico da doutrina cristã, como se sabe. Ele entendia ser o cristianismo uma doutrina que fazia a apologia do sofrimento e era um convite à ignorância, à pobreza, à escravidão e tudo que causa a infelicidade do ser humano. Para Nietzsche, Jesus era um pastor de larvas, um condutor de ovelhas para o matadouro, porque incentivava a mansidão, a aceitação passiva da servidão e do sofrimento e fazia disso uma espécie de passaporte para o céu.
Lembrei-me de Nietzsche ao ouvir o pastor Silas Malafaia criticar as lideranças tradicionais do movimento evangélico, que são contra a participação dos líderes evangélicos na política. Diz ele que esses pastores vivem num “reino do céu”, o que quer dizer que eles pregam uma quimera para pessoas que precisam, na verdade, viver no “reino da terra”, ou seja, querem soluções para seus problemas diários e um caminho para a felicidade aqui e agora ao invés de apenas um consolo psíquico para o seu sofrimento.
Como dizia Nietzsche, Jesus fazia o apostolado da pobreza. Era o arauto de uma filosofia que via a necessidade do sofrimento para podermos entrar no reino dos céus. Pobreza ao invés da riqueza, sofrimento ao invés do prazer, simplicidade ao invés do luxo, humildade no lugar do orgulho, enfim, tudo que mitiga o poder do homem, ao invés das virtudes que o fazem forte. Na opinião dele, o cristianismo destruiu a boa filosofia dos gregos, que exaltava o humanismo e a grandeza do ser humano e a dos romanos, que tinha na força e na coragem dos seus soldados as suas principais virtudes.
Ao dizer que era mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus, ou que para isso precisávamos ser como crianças; que Deus se agrada dos mansos, dos pacíficos, dos que choram, dos injustiçados, dos pobres de espírito, etc. Nietzsche dizia que Jesus pregou um evangelho de servidão e submissão, feito para os fracos, os incompetentes, os conformados e os covardes.
É exatamente no contraponto dessas concepções que os chamados neopentecostais estão trabalhando. Nesse novo evangelho, um Jesus completamente diferente desse que Nietzsche apodou de pastor de larvas está surgindo. É um Jesus mais parecido com o Mágico de Óz do que com o meigo Rabi da Galiléia que os Evangelhos Canônicos nos legaram. O Jesus neopentecostal é arauto do evangelho da prosperidade. Nele, quem é feio fica bonito, quem é pobre fica rico, quem está doente fica curado sem precisar de tratamento médico, quem não tem educação fica sábio, etc. Basta aceitar Jesus como seu Salvador e fazer polpudas contribuições para a Igreja. Aliás, é esta última atitude- o tamanho da contribuição para a Igreja- que faz a medida do retorno que o fiel terá por parte de Jesus. Assim, o cristão dos neopentecostais deixou de ser o de Francisco de Assis para se tornar o super-homem de Nietzsche. Jesus não é mais o “Cordeiro do Sacrifício” do Evangelho de João mas sim um líder político capaz de resolver todos os problemas da vida do individuo e, ao mesmo tempo em que garante para ele um lugar no céu, também lhe proporciona a felicidade na terra.
Mas para isso não basta apenas aceitá-lo e contribuir com opulência para a Igreja. Deve também votar nos candidatos apontados pelos pastores. Que são, na maioria, eles mesmos. Porque é importante, para garantir todas essas benesses (especialmente para eles mesmos, os pastores) que façam uma bancada numerosa no Legislativo, tenham bastante representantes no Judiciário e principalmente, um chefe de Executivo. Assim, o membro da congregação tem que votar no candidato apontado por ele para o Legislativo e para o Executivo. Aliás, não foi outra a razão de Jair Messias Bolsonaro(que não se perca pelo nome) ter se tornado evangélico quando resolveu se candidatar a Presidente da República.
Se Nietzsche vivesse hoje certamente ficaria orgulhoso de ver que suas diatribes contra o cristianismo inspirou um novo evangelho, mais consentâneo com aquele que ele adotava. Um evangelho que tirou de Jesus as vestes simples e humilde do carpinteiro de Nazaré e vestiu-o com o manto estrelado de um gênio de lâmpada. Claro que teria que encontrar outra religião para jogar a culpa pela pobreza, a ignorância e o sofrimento que existe na maior parte do mundo. Mas isso certamente não seria nenhum problema. Seja qual for a crença, aos pobres sempre os teremos conosco. E aos vigaristas do púlpito também.