O PEIXE MORRE PELA BOCA
“Vigie seus pensamentos, eles tornam-se palavras.
Vigie suas palavras, elas tornam-se ações.
Vigie suas ações, elas tornam-se hábitos.
Vigie seus hábitos, eles formam seu caráter.
Vigie seu caráter, ele se torna seu destino.”
Frank Outlaw
Humildade para reconhecer um erro não é muito comum no meio político. Principalmente entre os que ocupam cargos de poder. Parece que eles acham que fazer uma “mea culpa” quando cometem algum deslize diminui sua autoridade e os torna menores frente à opinião pública. Preferem cimentar-se na arrogância e na justificativa, muitas vezes esfarrapada, mas reconhecer o erro, isso está fora de questão.
Lêdo engano. Humildade cabe bem em qualquer situação, e ao contrário do que pensam os políticos contaminados pela arrogância e pelo autoritarismo, ela torna mais humanos aqueles que a praticam e os aproxima mais do povo.
É o que aconteceu recentemente com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Ele falou besteira numa reunião em que se tratava do episódio da adulteração de bebidas alcóolicas que já matou mais de uma dezena de pessoas e contaminou mais de uma centena. Disse que se preocuparia só quando a Coca-Cola fosse adulterada, o que provocou revolta numa população que ainda não esqueceu o trauma de uma pandemia que matou mais de oitocentas mil pessoas e foi, também, tratada com zombaria e descaso por um presidente, que por sinal, é o seu próprio padrinho político.
Pediu desculpa e nisso fez muito bem. Mostrou humildade e isso o tornou mais simpático. Disse que foi mal interpretado. Talvez fosse. Quem sabe ele estivesse querendo dizer que não consome esse tipo de bebida, ou então, subliminarmente, estivesse fazendo uma crítica a quem bebe. Pode ser. Mas ninguém é obrigado a ler pensamentos. Principalmente de políticos, que como todo mundo sabe, geralmente nunca diz o que pensa, mas sim o que acha que o povo quer ouvir.
Falar besteira em público não é novidade em se tratando de políticos. Bolsonaro que o diga. Passou a maior parte do seu governo despejando mentiras, babaquices e narrativas fabricadas, na rede social. Perdeu a eleição principalmente por causa do seu destempero verbal e da sua opção pelo conflito e pela imposição autoritária das suas ideias, que afinal desembocou numa ridícula tentativa de golpe.
Tarciso tem procurado ser leal ao bolsonarismo. Talvez ele quisesse imitar o seu padrinho político, fazendo piada com coisas sérias e sensíveis ao sentimento popular como Bolsonaro também fez por ocasião da Pandemia. Ele parece pensar que uma modelagem do “mito” pode lhe dar condição de herdeiro do seu patrimônio eleitoral. Mas também sabe que terá que disputá-lo a ferro e fogo com a Família Bolsonaro, que não parece disposta a dividi-lo com mais ninguém.
Se for isso, é bom alguém dizer ao Tarciso que se ele assumir o patrimônio bolsonarista (que agora está mais para espólio) ele vai herdar também a rejeição que o “mito” carrega. E ela não é pequena. Tanto que foi a rejeição que o derrotou na última eleição e não a virtude do seu adversário, que a bem da verdade, também não tem a admiração de boa parte do povo brasileiro.
Tarciso é um político preparado e até prova em contrário, sério. Não é um aventureiro demagogo, como Bolsonaro, que acumulou capital político aproveitando o medo irracional que as elites do país, e boa parte da classe média, tem do comunismo. Ele pode ser uma boa alternativa para derrotar Lula na próxima eleição. Mas será preciso que se descole da Família Bolsonaro, porque ela é muito tóxica e vai contaminá-lo com a rejeição que carrega.
E principalmente, que não deixe a sua língua levá-lo à perdição. O peixe morre pela bôca Bolsonaro que o diga.