Fosse só uma vez ou outra, tudo ficaria por conta do vento que ora soprava para um lado, ora para outro e nada do que aconteceu teria acontecido. Mas isso ocorria, invariavelmente, todas as vezes que os irmãos executavam o ritual e parecia já coisa dita e assentada que sempre que eles eram chamados a fazer suas oferendas a Jeová Elohim, o fumo da fogueira de Abel subia verticalmente para cima, tal um redemoinho de cone invertido, enquanto o de Caim espalhava-se horizontalmente, como se soprado de cima para baixo.
Depois de presenciar repetidas vezes o fenômeno, Caim chegou à conclusão de que aquele era claramente um sinal de que Jeová Elohim dele se desagradava, enquanto do irmão Abel se comprazia. E ao cabo de algum tempo a inveja começou a roer-lhe o espírito de tal maneira que nem dormir podia mais e no meio da noite saia a contemplar as estrelas, ruminando os mais sinistros pensamentos que lhe vinham à cabeça.
Dessa sorte, pela manhã acordava sempre de buxo virado, como se dizia antigamente da pessoa cujos humores, quando acorda, são tão azedos quanto os vinagres de má qualidade. E mais ainda ficava quando, no final do dia em que as oferendas eram feitas a Jeová Elohim, via que estas continuavam a queimar com suas fumaças a espalhar-se horizontalmente pela terra como se um potente ventilador estivesse a soprá-las enquanto as de Abel
subiam verticalmente, direto para o céu como se um aspirador es-
tivesse lá ligado para sugá-las. E com isso Caim ia ficando cada vez mais incomodado.
Destarte, depois de um longo tempo ausente, eis que Jeová Elohim reaparece na vida da família de Adão, desta vez para tomar tento do conflito que começa a grassar entre os irmãos. É assim que vamos encontrar Caim no campo, com a enxada na mão, a cara de poucos amigos, a responder à pergunta que Jeová Elohim lhe faz.
“Porque essa cara Caim, acaso acordaste com dor de barriga?”
Ao que Caim responde “Não é a barriga que me dói, mas o meu orgulho, porquanto o meu trabalho não é reconhecido”.
A tal resposta Jeová Elohim retruca: “Porque devo reconhecer o teu trabalho se tudo que a terra produz não é o teu suor que cria, mas o meu poder que gera?”
“Bem sei” diz Caim, “que é o teu poder que gera, mas é das minhas mãos o trabalho que abrem os sulcos na terra e põem nela a semente para que ela floresça e frutifique. Se nada disso tem valor, por que não deixas que elas nasçam naturalmente e nós só tenhamos o trabalho de colhê-las?”
“Assim era para ser”, responde Jeová Elohim, “mas os teus pais quebraram essa ordem. Eles preferiram libertar-se da minha tutela e filhos que deixam o regaço paterno assumem a obrigação de ganhar a própria vida.”
“Entendo o que dizes e até concordo com as tuas razões”,
responde Caim, “só não vejo o motivo de preferires as oferendas
do meu irmão às minhas.”
“Não são as tuas oferendas que me repugnam, Caim, mas sim as mãos que as oferecem”, responde Jeová Elohim.
“Então é a mim que desprezas”, lamenta Caim. “Diz a razão desse desprezo e o que fiz para que me odeies tanto a ponto de recusar o fruto do meu trabalho como ele fosse contaminado pela lepra. Explica-me a razão disso, sé é que há alguma”, pede Caim.
“Eu fiz os teus pais à minha imagem e semelhança para que eles refletissem na Terra os meus atributos. E eles deveriam ser perfeitos e sem vícios, como eu mesmo sou e os anjos que me servem. Mas eles preferiram trocar a sua condição de inocência e beatitude por um estado de consciência que lhes dá livre arbítrio para agir por conta própria.”
“Então estás me castigando pelos erros dos meus país? E que justiça é essa que tanto apregoas ser possuidor se não distingues nem o inocente do culpado?”
“Inocente não és, porquanto a semente de onde saístes já hospedava o mal. Mas não é por isso que me causas opróbrio. É que por conta do sentido que trouxestes para o mundo, terei que mudar as estratégias que planejei para ele. Terei que lidar com consequências que não estavam nos meus planos iniciais. Eu fiz o homem para que ele construísse para mim um mundo perfeito, voltado para o bem. Por isso, só o bem era do homem conhecido. Mas quando ele passou a conhecer também o mal, eu vi que não tinha mais ascendência sobre ele porque agora ele adquiriu o livre arbítrio de escolher o seu próprio destino.”
“Mas”, retrucou Caim, “Tu és Deus e Deus tudo pode. Por
que deixastes que isso acontecesse se estava em teu poder evitar?”.
“Deus tudo pode, como dizes”, respondeu Jeová Elohim”, menos anular-se a si mesmo. Quando deixei que meu espírito se tornasse também matéria, liberei uma parte de mim que não posso destruir, porque agora também dependo dela para existir.”
“Continuo sem compreender-te”, disse Caim. “Falas como se não fosses onipotente a ponto de não poder desfazer o que tu mesmo fizestes. E por conta disso te mostras amoral, porque não tens o menor senso de justiça”, disse Caim.
“Eu não me preocupo com justiça ou injustiça” disse Jeová Elohim. Esses são conceitos humanos que não têm qualquer sentido para mim. A ética e a moral do homem não podem me impor critérios de julgamento nem me cobrar qualquer atitude. Em mim residem todos os atributos da consciência universal. Sou juiz, promotor e advogado. Posso me lembrar e esquecer, perdoar e castigar, condenar e absolver. É nessa antinomia que eu mostro a minha unidade. Eu me desdobro mas não me divido. Fragmento-me, mas não me dissolvo. Multiplico-me, mas não deixo de ser único.”
Vá lá se explicar essas coisas que Jeová Elohim, às vezes, tira da sua sagrada cabeça e só ele sabe a razão. O fato é tudo poderia ter sido evitado se ele quisesse, já que, sendo Deus, ele tudo pode, mas ele não quis. Talvez porque se o fizesse quebraria a própria regra que estabeleceu quando resolveu fazer o mundo real para nele poder exercer sua potência e majestade. Tudo pode ser. Às vezes fazemos coisas das quais nos arrependemos e não queremos desfazer porque as consequências da emenda podem sair pior que o soneto. E se, segundo está escrito, fomos feitos à imagem e semelhança dele, nada impede que ele também, inadvertidamente, se comporte como nós. Talvez Jeová Elohim tenha se enredado tanto na sua obra que percebeu que se desfizesse algumas coisas que fez, simplesmente ele próprio perderia a sua razão de existir, porque foi exatamente para dar prova da sua existência que ele as fez. Paradoxal, mas de uma surpreendente lógica.
Deve ter sido por isso também que ele mudou a sua disposição inicial de condenar à morte o casal desobediente e transformou a pena para exílio. Dessa sorte despachou Adão e Eva para fora do Éden, tirando deles a capa de inocência que os vestia e determinando que dali para frente eles e seus descendentes estariam por conta própria, sua alma sua palma, como se diz, e tudo que fizessem dali em diante seria de sua própria escolha e nada mais lhes seria interdito.
Destarte, o jovem e solerte Abel acabou pagando caro por esses desígnios porque o que tinha que acontecer aconteceu. Sucedeu que uma tarde, quando os dois estavam queimando suas oferendas a Jeová Elohim, Caim viu que ele continuava a torcer o nariz para as dele e recepcionava com prazer as de Abel. E a sua inveja, convertida em ódio, chegou ao cume. E ele, com uma porretada da sua enxada de pedra abriu a cabeça do irmão, matando-o instantaneamente.
A impressão que se tira desse episódio é de que o próprio Jeová Elohim já estava esperando por esse infeliz desfecho e talvez até o desejasse por conta de algum secreto propósito. Pois tão logo Caim enterrou o corpo do irmão em uma cova que abriu no meio da roça, eis que imediatamente um arbusto à sua frente se ilumina com uma luz que parece um fogo azulado e sua voz, grave como o som de uma tuba, sai de dentro dele, como de ordinário ele se apresentará ao ser humano outras vezes no futuro, e pergunta: “Onde está teu irmão, Caim?” como se ele não soubesse que o pobre Abel jazia naquela cova ali recentemente aberta.
E Caim, alarmado por aquela súbita aparição, responde à essa interpelação com nervosa irritação, “Sei lá, por acaso sou eu o guarda do meu irmão?” ao que Jeová Elohim, agora já sem o tom irônico da primeira pergunta, que fora feita como ele não soubesse do acontecido, diz” O que fizestes, desgraçado, pois o sangue do teu irmão está clamando a mim desde a terra?”
E Caim, que não entendeu muito bem a metáfora, logo olhou para a cova em que enterrara o irmão para ver se dali saia algum sangue, mas nada vendo voltou-se para o arbusto que ardia, porquanto a voz de Jeová Elohim foi novamente ouvida e ela estava proferindo sobre ele uma terrível maldição: “Agora pois, serás maldito sobre a terra que abriu a sua boca e recebeu o sangue do teu irmão. Quando a cultivares ela não dará mais para ti os seus frutos; serás errante e fugitivo sobre a terra.”
´ Mas, ao que parece, Caim não se apoquentou muito com essas imprecações porquanto interpelou o Senhor com a pergunta: “É tão grande assim o meu delito que não o possas suportar e por causa disso me expulsas desta terra?”
É o que foi registrado que ele disse, mas é possível que esse diálogo tenha sido bem mais amplo, algo do tipo “Não fostes tu mesmo que provocastes esse acontecimento inoculando em mim este sentimento de inveja e ira com a tua recusa em receber as minhas oferendas? Por acaso não sabias, tu, que é Deus e tudo sabe, que existem coisas que um ser humano não pode suportar e a injustiça é uma delas?”
Ao que Jeová Elohim responde, “Eu deixei que os seres humanos pudessem pensar com suas próprias cabeças e escolherem entre o bem e o mal. Portanto, o que fizestes, fizestes por tua livre escolha e não minha”.
Ao que Caim retruca: “Tudo bem, eu fui o executor, mas tu bem que poderias ter evitado, mas não o fizestes porque certamente tens um propósito para isso e agora eu sei que usas os seres que criastes somente para os teus inconfessáveis fins, e que és interesseiro e egoísta, pouco se importando com o destino das tuas crias, pois o que queres é apenas ser conhecido e adorado por elas.”
“Tens razão quanto ao que dizes” respondeu Jeová Elohim, “E digo-te mais, Caim, que muitos outros crimes serão cometidos em meu nome e eu não os impedirei porque preciso justamente saber o quanto sou poderoso e acreditado e só saberei na medida em que as pessoas sejam capazes de fazer o que quer que seja pensando que me agradam.”
“Então”, disse Caim, “o mal que houver no mundo virá tam-
bém de ti, porque deixastes que a alma do homem se corrompesse quando poderias ter impedido. Como podes falar em castigo se fostes tu mesmo que deixastes o mal entrar no mundo? Como po-
des cobrar dos outros uma dívida que também é tua?”
“Caim, Caim,”, respondeu Jeová Elohim”, “Não tentes confundir-me. Quando a alma do homem era revestida de luz ele era todo virtude. Mas depois que perdeu a inocência, como ele poderia saber o que é o bem se não tiver o contraponto do mal? Depois que o crime e o vício entraram no mundo eu deixei que prosperassem, porque se não o fizesse, as forças que o constroem não se equilibrariam e ele se destruiria por si mesmo, como outros mundos que eu tentei construir e se esfacelaram por não ter esse equilíbrio. Mas também dei ao homem a prerrogativa de escolher entre o mal e o bem, entre o delito e o perdão, entre o ódio e o amor. E entre esses dois opostos a alma dele terá que encontrar o peso certo para essa balança. Porque, como poderá ele saber o que é o bem se não tiver o seu contrário, o mal, para fazer a comparação? Quem poderá distinguir a verdade, se não tiver o contraponto da mentira? Quem verá a luz se não tiver o contraste da escuridão?” “Podes dizer, Caim”, continuou Jeová Elohim, “que eu te usei, assim como não impedi que Samael corrompesse seus pais, e que disso eu precisava para fazer a energia da vida circular pela Terra. O bem e o mal, o certo e o errado, a verdade e a mentira, o crime e o castigo, a vida e a morte, Caim, serão os polos pelos quais a corrente da vida universal escorrerá. Quem se proporia a falar a verdade se ninguém pregasse a mentira? Quem procurará fazer o certo se ninguém fizer o errado? Como estabelecer o que é justo sem uma injustiça para ser reparada? Como poderia se fazer a paz na ausência de uma guerra? Se assim não fosse, Caim, a criação terminaria nos seus pais. Não haveria o que fazer depois deles, nada a reparar, nada a melhorar. Ela estagnaria e morreria por si mesma. O bem e o mal, Caim, se digladiando na alma do homem é fórmula que conservará a humanidade em um constante estado de evolução.”
“Então” disse Caim, “Por qual razão me condenas a viver errante no deserto e amaldiçoas a terra onde terei que habitar? Sabes que mesmo me expulsando daqui não poderei me ocultar de ti e estarei sujeito a ser assassinado por quem me encontrar e souber que sou por ti amaldiçoado. Se para o teu propósito de fazer com que a humanidade encontre a sua própria medida de virtude oscilando entre o bem e o mal o meu crime foi necessário, por que razão me castigas dessa forma?”
“Não é a ti que eu julgo, mas sim o mal que tu praticastes. Não condeno o executor mas sim a ação e o seu resultado.
“Então, por que castigas o meu ato, se ele teve uma intenção positiva.”
“Se o mal não for castigado, que força terá o bem que se faz em troca? Que critério informará a alma do homem na escolha das suas ações? Ao escolher o conhecimento do bem e do mal, os sentidos do homem para o bem serão guiados pela esperança de recompensa que suas ações lhes trouxerem. Por isso, Caim, todo homem será julgado pelas escolhas que fizer e pelos resultados, bons ou ruins, que elas trouxerem para o mundo.”
“Então”, disse Caim “Como eu matei o meu irmão, todo
aquele que me encontrar procurará me matar, porque pensará estar compensando com um bem o mal que eu fiz.”
“Para que isso não aconteça”, disse Jeová Elohim. ”Porei em ti uma marca, para que quem o encontre saiba que não deve matar-te porque a vingança é minha. Mas daquele que matar Caim tomarei vingança sete vezes mais pois quem paga o mal com o mal merece pena maior do que aquele que primeiro o causou.”
“Tua fala me parece conter uma grande contradição” disse
Caim. “Porque nela vejo que é preciso que o mal exista para que o bem seja exaltado, mas quem o pratica para se vingar de quem primeiro o praticou comete duplo crime, já que justifica um crime pelo outro.”
“Quem comete uma ação má” respondeu Jeová Elohim, “comete-a porque no seu julgamento ela é a única ação que o seu conhecimento lhe inspira naquele momento para atingir o resultado que ele pretende. Por isso, Caim, nenhum crime resulta da maldade inerente do homem, mas da sua limitação nas escolhas que pode fazer para atingir o que deseja.”
“Não entendi o que queres dizer”, disse Caim.
“Todo comportamento que o homem tomar terá intenção positiva, Caim, independente do resultado bom ou mau que ele provoque. Isso quer dizer que quem faz alguma coisa sempre faz com a intenção de obter o melhor resultado possível para ele.”
“Continuo a não entender”, respondeu Caim.” Se é assim, então matei meu irmão achando que estava fazendo algum bem para mim?”
“Exatamente”, disse Jeová Elohim.” Por acaso o terias matado se tua consciência lhe dissesse que estarias fazendo algum mal? Se os teus sentimentos de inveja, ira e ressentimento pudessem ser mitigados com outro tipo de ação terias assassinado teu irmão?”
“Certamente que não”, disse Caim. “Mas naquele instante foi a única coisa que me pareceu apropriada fazer para mitigar a minha dor. E tu bem que poderias ter me inspirado um comporta-
mento diferente.”
“ Essa é a questão Caim” concluiu Jeová Elohim. “Quando o ser humano escolheu ter uma consciência no lugar da eterna inocência, ele passou a ser o dono do seu próprio fado. Tudo que lhe acontecer daqui para a frente será de sua exclusiva responsabilidade. Eu não interferirei no seu destino. Todo arbítrio, daqui por diante, é dele.”
“Que marca porás em mim para que todos saibam que não devem matar-me?” quis saber Caim.
“ Será a letra que representa a sabedoria,” respondeu Jeová Elohim, porque será através da descendência de Caim que a ciência será cultivada pelos homens. Essa foi a escolha que fizeram.”
E esta é a marca de Caim .
