João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


 

 

Nota: Cripta dos Grandes Filósofos, ou das Grandes Luzes, é a alegoria final catecismo maçônico trabalhado no Rito Escocês Antigo e Aceito. Trata-se de um resumo da filosofia trabalhada nos graus desse Rito, baseada nas doutrinas ensinadas por oito grandes pensadores e fundadores de doutrinas, tais como Jesus de Nazaré, Maomé, Hermes Trismegisto, Platão e outros. Os textos elencados neste ensaio são excertos da nossa obra “ A CAVERNA DA SABEDORIA”, no prelo para publicação. Esse livro discorre sobre as influências que compõem a estrutura filosófica da Maçonaria e que são referidas no Grau 32 desse Rito.  

 

 

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Nações, Estados, Corporações, Igrejas, são estruturas imaginadas, construídas com base em mitos. Enquanto as Nações se fundamentam no mito da unidade política, sustentada muitas vezes pelo conceito de uma identidade racial e o compartilhamento de uma mesma língua, os Estados se baseiam no mito de uma ordem jurídica fabricada, a qual a maioria se submete na crença de que é ela que garante a própria vida social da Nação.

Já as Corporações têm a sua vida fundamentada no mito do objetivo comum, que se resume na consecução de uma meta que pode envolver propostas econômicas ou espirituais. Igrejas, por exemplo, amparam sua existência no mito da crença de que suas doutrinas é a que melhor conduz as pessoas a um estado de graça e conforto moral e por aí adiante.

A própria espécie humana foi construída com base no mito de que os seres humanos foram criados por um poder maior chamado Deus e de que, partindo desse princípio único, haveria uma ordem natural a reger a saga da humanidade em direção ao um fim determinado. Nesse sentido, a própria ideia da existência de deuses, ou de um único Deus como Criador de toda realidade existente e Gestor de todos os destinos também é um mito, sem o qual provavelmente a própria vida do homem sobre a terra já teria sido extinguida pela falta de uma base de sustentação moral.

 

É com fulcro nesses princípios imaginados pela mente humana que construímos todas as nossas estruturas materiais e espirituais e por elas lutamos, vivemos e morremos. Marx, Engels, Stalin, Mao Tsé Tung, Fidel Castro e outros líderes do movimento comunista que separou o mundo em duas estruturas antagônicas, por exemplo, não acreditavam em Deus. Eles diziam os mitos religiosos haviam sido impostos ao povo pelas classes dominantes para poder ter sempre uma reserva de mão obra para trabalhar para elas. E a religião, com seus sacerdotes cooptados pelos donos do poder, sempre foram sócios da conspiração capitalista, agindo para perpetuar essa estrutura de exploração das classes menos favorecidas.

Sem entrar no mérito dessa análise, forçoso é reconhecer que Marx e Engels tinham uma boa dose de razão nas diatribes que levantaram contra esse, que eles apodavam de conluio, entre o poder econômico e a religião. Templos suntuosos e ordens religiosas poderosas existiram desde a aurora da civilização, a provar que a  religião e o poder político e econômico sempre estiveram de braços dados para sustentar a mitologia que garantia a vida dos Estados e o bem estar das classes dominantes.  

Mas Marx e Engels sabiam que nenhum Estado poderia sobreviver sem o alicerce de um mito. Por isso, quando tomaram o poder, os marxistas substituíram o deus mitológico dos sacerdotes, que governava pelo espírito, por outro deus mitológico, o Estado, que governava através da burocracia. Jeová, Jesus, Alá, Brhama, seja qual for o nome do deus deposto por Marx e seguidores perderam o seu trono para o novo Deus, a burocracia estatal. E foi exatamente o que os comunistas fizeram, criando uma espécie de Juggernaut, que durante quase setenta anos conformou boa parte da vida de metade da população do planeta e deu motivo para a maior parte da guerras que nós vivemos desde então.[1]  

 

Os marxistas só não contavam com o poder de reação dos mitos depostos. Não acreditaram na profundidade das raízes da árvore psicológica que o mito da estrutura imaginada tem implantado na mente humana desde a origem da própria consciência que lhes deu nascimento. Esse mesmo mito que nos fez crer que somos frutos de uma criação divina e que não podemos, assim sem mais nem menos, banir das nossas consciências o Poder que nos criou e sustenta toda a estrutura na qual vivemos.

Os comunistas modernos já perceberam esse erro e hoje sabem que não adianta lutar contra um mito enraizado na mente e no coração dos seres humanos. E então procuraram fazer um acordo com ele. Entenderam que é preciso dividir com ele o governo da mente humana. O Comunismo é hoje uma espécie de ideologia que, em muitos sentidos, lembra uma espécie de monarquia parlamentar onde Deus é o Rei e o Estado é o Primeiro Ministro. Deus reina mas quem governa é a burocracia estatal. Essa é a ideia inserta nos modernos Estados que ainda suporta uma ordem comunista ou socialista que tem no Estado a fonte da supremacia tanto na chamada infraestrutura ( a ordem política e econômica) e na superestrutura (o arcabouço intelectual e espiritual) que sustenta a vida do Estado. É mais ou menos como dizer: Se não dá para vencer o mito da divindade então faça-se um acordo com ele. Adote-se, no caso, a fórmula que Jesus ensinou para evitar conflito com os romanos: dai a César o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus.

 

Isso já haviam feito os Estados liberais, praticantes do chamado capitalismo. Nestes Estados, as velhas constituições, tipo Código de Hamurabi, O Decálogo de Moisés, o Código de Manu, que teriam sido outorgados pelos próprios deuses, foram substituídos por modernos ordenamentos jurídicos, ditados pelos governantes da hora e garantidos pelos poderes constituídos. Nestes, todos dizem crer e obedecer a Deus, mas vivem mesmo sob a tutela de uma ordem jurídica imaginada por uma elite supostamente escolhida pelo povo e garantida pelo Estado.

Esse novo estamento parece ter se mostrado tão prático que mesmo os mais radicais defensores de um ordem natural fundamentada unicamente no mérito do indivíduo que (satanizam o comunismo como se ele fosse uma invenção do próprio Diabo), parece que estão descobrindo a excelência dessa prática. Pois ela pode ser identificada na aliança que muitos líderes da direita radical estão fazendo com os praticantes do chamado Evangelho da Prosperidade, pregado pelos chamados evangélicos neopentecostais. Nesse evangelho, Deus não aparece apenas como fiador de uma ordem natural que mantém o equilíbrio do universo através da meritocracia individual, mas também se torna um distribuidor de benesses para aqueles que fizerem a sua vontade ― que  na interpretação dos líderes desse movimento serão proporcionais à contribuição que fizerem para suas igrejas.

Nada diferente do que já foi no passado quando os sacerdotes judeus estipulavam o prêmio que Jeová daria aos seus fieis conforme o tamanho do óbolo que eles davam  para o Templo (na verdade para os sacerdotes) ou então (como pregavam os sacerdotes da Igreja Católica na Idade Média) pelo vulto da contribuição que os paroquianos faziam para ela.

Deus pode ser um mito, como dizem os marxistas e os evolucionistas mais radicais. Mas é mito que nenhum ateu, capitalista ou comunista, conseguiu derrubar até agora. 

(continua)

 


[1]  "Juggernaut" é nome de uma divindade que era reverenciada pelo povo hindu como uma força poderosa e irresistível. Com o tempo passou a designar qualquer entidade física dotada de um poder irresistível, como um monstro, um cataclismo  natural , um exército, ou uma força abstrata, como uma ideologia política, um movimento econômico, etc. 

João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 25/11/2025
Alterado em 25/11/2025


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