João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


Sobre Deus e Religião

 

“Um Maçom é obrigado, por dever de ofício, a obedecer a Lei Moral; e se ele compreende corretamente a Arte, nunca será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso. Muito embora em tempos antigos os Maçons fossem obrigados em cada país a adotar a religião daquele país ou nação, qualquer que ela fosse, hoje pensa-se mais acertado somente obrigá-los a adotar aquela religião com a qual todos os homens concordam, guardando suas opiniões particulares para si próprio, isto é, serem homens bons e leais, ou homens de honra e honestidade, qualquer que seja a denominação ou convicção que os possam distinguir; por isso a Maçonaria se torna um centro da união e um meio de conciliar uma verdadeira amizade entre pessoas que de outra forma permaneceriam em perpétua distância.” (As Constituições de Anderson)

 

 

Nenhum Estado, ou ordem jurídica que tenha existido na história dos povos, nasceu e se consolidou sem que seus criadores apelassem para uma autoridade que estava acima deles. Essa autoridade pode ser a divina, representada por um Deus onipotente ou uma ordem natural que uma pessoa imagina existir na natureza e invoca em apoio a sua pretensão.

Isso porque o homem, por mais poderoso, inteligente e persuasivo que possa ser, nunca  será capaz de convencer todas as pessoas de um país de que a ordem que ele está implantando deve ser aceita sem nenhum contraponto. Nunca deixará de acontecer alguma contestação e ela será sempre maior na medida em que o povo sentir que seu impositor não tem legitimidade para exercer esse poder impositivo.

Por isso toda autoridade tem que vir de cima. E mesmo quando ela é atribuída ao povo, que poderia dar a ideia de que ela está vindo da base, como no caso das chamadas ordens democráticas, quem na verdade exerce a autoridade é sempre uma elite, escolhida pelo conjunto da sociedade ou parte dela, mas nunca diretamente pelo próprio povo. E nesse caso, a autoridade também se propaga de cima para baixo, e quanto mais alto está a pessoa que a exerce no conceito do povo, mais legítima ela parecerá ser.

E que altura pode ser maior do que aquela onde habita um Deus que todos reconhecem como único e verdadeiro? Por isso, nenhum Estado que queira, de fato, ter sua autoridade reconhecida e incontestada (ainda que o possa ser em uma forma velada e pacífica, o suficiente para ser tolerada), pode prescindir da ideia de Deus no topo da pirâmide do poder para legitimar a sua governança.

  

Por isso não há poder político que não esteja alicerçado em um poder maior do que aquele que é atribuído ao soberano visível, seja ele um rei, um imperador, um aiatolá, um sheik, um presidente, um ministro, um filósofo etc. Comunistas e nacionalistas extremados como os nazistas, por exemplo, cujas ideologias se afastaram dos dogmas religiosos não são exceção á essa regra. Marx, Engels, Lenin, Mao Tsé Tung  e todos os líderes e intelectuais que implantaram ordens políticas sem deuses nos seus alicerces, sustentavam que suas empresas tinham o supedâneo de uma ordem natural a apoiá-los. 

No caso dos marxistas essa ordem natural era a tendência fatalista da sociedade humana, de construir uma história baseada na forma como os indivíduos ganham a vida. Essa teoria, chamada materialismo dialético, levou Marx e Engels a deduzirem que o sistema capitalista, que estava na base da sociedade moderna, foi construída com base em impérios colonialistas e povos colonizados, os quais eram sustentados por capitalistas, no topo da  pirâmide e proletários na sua base. Por isso, pensavam Marx e Engels, essa era uma estrutura que estava fadada a desaparecer em virtude das lutas entre as classes que sustentavam esse sistema.

Eles não estavam errados em sua análise da história. De fato, a forma como o homem ganha a vida está no alicerce da saga humana sobre a terra. Afinal, desde os primórdios da sociedade, toda a estrutura social está vinculada á luta da nossa espécie pela sobrevivência e sua própria ascensão como homo sapiens (o homem sábio), tem uma estreita ligação com o comportamento que a espécie humana adotou para sobrepujar os demais animais na dura competição pelos nutrientes necessários à sua manutenção. Mas nem o ateísmo marxista e a sua tentativa de destronar Deus do topo da cadeia de autoridade das ordens imaginadas pela espécie humana conseguiu fazê-lo, pois mesmo os povos sujeitos à nova ordem implantada pelos comunistas, centrada no poder do Estado, exercido por um sistema burocrático impiedoso e essencialmente materialista, conseguiu banir a ideia da existência de um poder divino acima de toda e qualquer autoridade terrena. A despeito de toda repressão e perseguição, às igrejas e ao espírito religioso dos seus praticantes, a religiosidade sobreviveu na China, nos países que compunham a antiga União Soviética, na Alemanha Nazista e em todos os países que tentaram construir pátrias sem deuses e sem o alicerce de um poder divino.

 

Com isso podemos inferir que, embora individualmente uma pessoa possa viver muito bem sem acreditar em Deus, a nível de coletividade essa possibilidade torna-se, senão impossível, inviável e extremamente perigosa. Por isso, nenhum Estado, até hoje, deixou de apelar à uma autoridade divina para a implantação da sua própria autoridade. Hamurabi, o rei sumério que supostamente editou o primeiro ordenamento jurídico que se conhece sobre a terra, declarou que seu poder de legislar lhe foi outorgado pelos deuses Enlil, Enki e Anu( o deus supremo do panteão sumério). Da mesma forma, Moisés recebe o seu Decálogo diretamente das mãos de Jeová e Manú escreve o seu código por inspiração do deus Brhama e todas as leis do Alcorão foram inspiradas a Maomé por Alá. Hoje, os modernos líderes e políticos em todo o mundo, quando não se associam à alguma crença em voga na mídia, não ousam confessar publicamente que não creem em Deus. Sabem que podem comprometer suas popularidades se o fizerem.

Assim, quem pode contestar tais ordens se elas vêm diretamente do Deus acreditado por esses povos? Não foi sem razão, portanto, que reis e principados, até bem pouco tempo, sustentavam que suas coroas e seu direito de reinar vinha diretamente dos deuses. E havia uma ordem religiosa, com uma Igreja forte e acreditada que apoiava essa pretensão. Uma única contestação sistemática e firme dessa ordem imaginada foi motivo de mais de um século de guerras e cruéis matanças pelo mundo todo. Falamos da Reforma Protestante, na qual não se contestou a origem do poder que dava aos homens o direito de reinar, mas sim a quem ele era dado. No caso, a luta foi contra a consequência, mas a causa foi preservada.

Destarte, o mito que sustenta a ordem imaginada tem mais força do que qualquer exército com as armas mais letais que se possa imaginar. E isso explica porque a imaginação de um carpinteiro nascido em uma obscura aldeia de Israel conseguiu capturar o espírito de um império tão poderoso como o de Roma e modelar uma civilização inteira pelos últimos dois mil anos.

 

Essa é a principal razão de Anderson ter escrito em suas Constituições que um Maçom não pode ser ateu nem libertino religioso. O que significa que ele deve, ao menos acreditar num poder maior que dá supedâneo à  Lei Moral que ele adota e ao ordenamento jurídico que conforma o seu comportamento. Todavia, não existe uma religião com a qual todos concordam, como ele se refere no seu texto. Mas há, como se viu nos textos acima, uma ideia geral de que existe um Princípio Único do qual todo poder emana. Esse poder, que se resume na palavra processual Deus. E crer na existência desse poder é uma das cláusulas pétreas da Constituição maçônica, ou um dos seus mais importantes Land Marks, como os maçons gostam de chamar os princípios básicos da \Maçonaria.

(Continua)

João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 27/11/2025


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