O MITO DO INDIVÍDUO
Adam Smith, filósofo escocês conhecido como o pai do individualismo, era um ardoroso admirador da livre inciativa como teoria econômica ideal para promover o desenvolvimento dos países e a felicidade das pessoas. Sua filosofia, como é evidente, era fruto do meio em que ele vivia, o imperialismo inglês do século XVIII, que estendia seus tentáculos para todas as partes conhecidas do planeta, com um único objetivo: conquistar mais mercados para os produtos ingleses e garantir mão de obra e matérias primas baratas para as indústrias da Inglaterra. O que se traduzia em grandes lucros para os seus capitalistas e investidores.
Smith inventou até uma ética para o capitalismo: uma ordem natural que justificava a adoção do capitalismo como política de estado, porque ele, enriquecendo o investidor, acabava também beneficiando a nação como um todo. Nesse sentido, havia uma “mão invisível” que dirigia a ambição dos donos do capital para que eles o aplicassem na produção dos produtos que o mercado (diga-se o povo) mais queria e precisava. Com isso, a economia crescia, os empregos aumentavam, o governo arrecadava mais impostos e a nação inteira prosperava.
Esse é o credo que sustenta a ideologia do capitalismo. Hoje ela é o credo da chamada direita radical que dela fez o seu caminho para o paraíso. Nada diferente, em termos ideológicos, do comunismo e o socialismo, que é o seu contraponto ideológico na cabeça dos simpatizantes da chamada esquerda radical.
A ideologia capitalista se instalou no subconsciente do homem ocidental através da atração consumista, que nos faz pensar que quanto maior for a nossa capacidade de consumo, mais felizes seremos. E fizemos dessa ideologia uma realidade objetiva como se ela fosse uma verdade em si mesma, decorrente da própria natureza humana. Nesse sentido, a ideologia do capitalismo nos ensina que a ambição é uma força natural existente na própria fisiologia do homem e deve ser emulada para que o indivíduo exerça o máximo da sua capacidade e conquiste os picos mais altos da hierarquia social, que se resume em palavras processuais como riqueza, sucesso, fama, reconhecimento etc.
Tudo isso simbolizado pelo consumo cada vez mais qualificado. Automóveis luxuosos, roupas de marca, alimentos de primeira qualidade, diplomas das universidades mais famosas, viagens para lugares paradisíacos, todo o “sex appeal” que o dinheiro e a posição social confere ao indivíduo passa a ser a sua crença fundamental, o seu objetivo de vida.
Essa crença leva um indivíduo que conquistou esse status a pensar em si mesmo como alguém que não depende de ninguém para ser o que é, ter o que tem e chegar a qualquer lugar que ele quiser. Ele acha que se fez sozinho e que o mérito do seu sucesso é só dele e de ninguém mais. Esquece-se que teve pais que lhe deram a vida e o sustentaram-no até a idade adulta e lhe deram educação e condições para que ele pudesse ganhar a vida por conta própria. Não se lembra que teve professores que lhe ensinaram tudo que ele sabe; e que se ganhou dinheiro e prestígio como profissional foi porque teve sócios, colaboradores, amigos, parceiros, clientes que compraram seu produto ou acreditaram na sua capacidade profissional. Para ele, nenhuma dessas relações é valorada na mesma medida que a sua capacidade pessoal.
O capitalista que tem no individualismo a sua força motriz é um “self made man” que dá pouco valor às relações sociais e à simbiose social como forma de realização pessoal. Como consequência ele mede a todos por si mesmo, igualando todos os seres humanos em capacidades e habilidades, e despreza qualquer política social que vise a promoção das classes menos favorecidas, porque, se um individuo é pobre e ignorante a culpa é apenas dele, que foi indolente e incompetente para vencer. Pois se ele conseguiu, todos os indivíduos fisicamente normais conseguem.
E assim nasce o mito do “self made man”, que pode ser identificado com o mito do indivíduo. Esse mito sustenta que temos que preservar a nossa individualidade para podermos ser felizes. A consequência é a colocação de limites físicos e psicológicos em nossa vida, para preservar um espaço que consideramos ser só nosso, onde o nosso bem fundamental, o nosso ego, deve ser preservado como um tesouro fundamental. A consequência prática são os quartos individuais com portas fechadas, espaços conceituais em nossas crenças onde nenhuma outra pode ser admitida, dificuldade para estabelecer relações sólidas e duradouras com outras pessoas, diminuição da importância da família, acirramento do comportamento tribal (grupos e clubes fechados onde só entram os indivíduos aceitos pela tribo) e outras anomalias que colocam óbices à nossa própria condição de ser social e muitas vezes acabam nos conduzindo a comportamentos que a sociedade criminalizou para a própria defesa do indivíduo.
Daí estranhamos quando um filho, um amigo, ou qualquer outra pessoa com quem temos ou queremos estabelecer relações se tranca em um quarto, ou dentro de si mesmo e diz: deixe-me sozinho. E nesse caso, é melhor atender, para não arrumar um inimigo, pois ninguém consegue ser mais odiado do que um invasor da nossa intimidade.
E quando o mito da individualidade toma conta da nossa identidade, ele passa a ser o único sustento da nossa vida. É por isso que, se o nosso valor individual, por algum motivo, é contestado, ou não reconhecido, tudo desaba à nossa volta. Essa é a nossa primeira morte. A morte do Deus chamado indivíduo.