João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


Nos natais da minha infância
Não havia muita abundância
De comida ou de presente.
Mas como era alegre nossa gente
Trocando abraços e carinhos.
Ninguém passava o natal sozinho.

A tristeza, nesse dia, era proibida.
Se alguém abusava da bebida
Uma cama logo se improvisava.
E ali mesmo, incontinenti, se deitava
O inoportuno e chato beberrão.
Quando acordava era aquela gozação.

Era o mesmo todos os anos.
As conquistas, os desenganos,
O plano que não deu certo,
A sorte que passou por perto
Mas não parou na nossa casa.
Para a tia, o marido que não chegava.

E o vovô que vivia reclamando
Que seu dia estava chegando
E falava com toda certeza:
“ Este é meu último ano nesta mesa”.
Falava como se estivesse no finzinho.
Mas só queria era mesmo um carinho.

Era aí que o neto caçulinha
Ia afagar aquela carequinha
Do nosso velho e falso moribundo.
Ele então dava um suspiro fundo,
E com o olhinho bem brilhante
Soltava a rolha do frisante.

Todos gritavam e aplaudiam
Batendo as taças que se erguiam;
E até mesmo quem não bebia
Naquela farra se envolvia
E dava "um bico" naquele vinho.
Mesmo que fosse só pelo gostinho.

O peru assado na padaria
De sobremesa a melancia;
O espaguete e o canelone
As castanhas e o panetone
Eram coisas que não faltavam.
Era pouco, mas sempre sobravam.

Quando a meia-noite chegava
Era a luz elétrica que se apagava
E uma velinha logo era acesa
Num candelabro sobre a mesa.
Os sinos começavam a repicar

Porque chegara a ora de rezar.

De mãos dadas a nossa gente
Formava logo uma corrente
E começava uma oração,
Depois se cantava uma canção:
Noite Feliz ou Batem Sinos
Saudando o Jesus Menino.

Com os pequeninos já dormindo
Os adultos iam se abrindo
Com a bebida que rolava.
No fim sempre alguém brigava
Por conta de um mico do passado
Que não deveria ser lembrado.

 

Mas o vovô era o "deixa disso"

Que acabava com o reboliço,

Passando nos brigões um pito.

E com a calma restabelecida

A querela logo era esquecida

Ficando o dito pelo não dito.

Agora, da minha janela apagada
Em meio á cidade iluminada
Fico olhando a luz de um barracão
Onde os meus netos hoje vão
Para curtir uma balada.
Sem pernil nem rabanada.

Pois o vovô sou eu agora,
E com toda a família fora
Para quem vou fazer "beiçinho"
Para ganhar um agradinho?
Então me pergunto afinal:
Ainda existe a noite de Natal?

João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 23/12/2025


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