João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


PACIFICAÇÃO URBANA

 

Observamos com muita preocupação o absurdo aumento nos níveis de criminalidade urbana nos últimos dez anos. Claro que esse fenômeno não é causa nem efeito que possa ser explicada por um único motivo, ou mesmo por um conjunto deles em particular. O que quer dizer que ele está inserido em um contexto que envolve principalmente a deterioração progressiva que os valores sociais vem sofrendo nos últimos tempos e passa principalmente pela competição cada vez mais acirrada que as pessoas, individualmente consideradas, e as sociedades, vistas como um todo, tem que se submeter para conquistar padrões de satisfação neurológica cada vem altos.

Antigamente se dizia que o “crime não compensa” e esse axioma tinha uma densidade moral que, juntamente com outras proposições religiosas e filosóficas atuavam sobre a consciência das pessoas, principalmente dos jovens que estavam chegando à idade produtiva, como um poderoso inibidor. Isso porque se sabia, com certeza, que todo crime tinha uma grande possibilidade de ser descoberto e punido. Não se escapava da punição com tanta facilidade e nem havia tantos mecanismos jurídicos que proporcionavam oportunidades para os criminosos praticarem seus delitos sem o perigo de serem responsabilidades e ter que pagar por isso.

Lembro-me que, quando criança presenciei, algumas vezes, alguns batedores de carteira e outros delinquentes praticando roubos em residências, casas de comércio e em pessoas físicas. Quando eram flagrados, eles tentavam fugir com uma multidão no seu encalço. Os gritos de “pega ladrão” ecoavam longe e o cordão dos perseguidores aumentava a cada rua pela qual o ladrão perseguido passava. Quando ele era pego, se a polícia não chegasse imediatamente para conter os justiceiros, o indivíduo sempre corria o risco de ser linchado.

Hoje, tudo isso mudou. Se um ladrão invadir nossa casa e nós o atacarmos em defesa própria, ou do nosso patrimônio, corremos o risco de sermos processados por isso. Ainda que isso não ocorra, dificilmente nos livraremos do incômodo de um inquérito e possivelmente, da sanha de um promotor ávido para arrumar “um caso” às nossas custas.

Claro. O mundo de hoje não é o mesmo da minha infância e nem mesmo o da minha juventude. E eu não sou saudosista. Não acho que aqueles eram melhores tempos do que os de hoje. Bom é o tempo que se vive, porque nós só podemos viver o momento presente. O passado é apenas um registro na nossa memória e o futuro uma perspectiva que pode ganhar contornos de realidade ou não.  

Verifica-se, nos dias atuais, um abuso incontrolável no uso de drogas. Elas já eram comuns nos dias da minha juventude, quando o apelo do chamado fenômeno hippie ganhou a simpatia da grande maioria da juventude da época. Associadas aos movimentos culturais daquele momento, como o rock’n”roll, a emancipação feminina, a desconstrução do tabu sexual, o consumo de drogas aumentou gradativamente com o mal estar social que foi se acentuando a partir dos anos oitenta. E hoje, o que se vê é um impulso incontrolável da juventude pelo uso de alucinógenos como forma de fuga da realidade cotidiana.

Por outro lado, o aumento da competitividade é outro fator de forte influência no comportamento das novas gerações. Exacerbou o individualismo e diminuiu o quociente de tolerância das pessoas em relação às diferenças que existem entre elas. Uma simples opinião em contrário já é suficiente para levantar um muro psicológico entre pessoas que nem se conhecem direito. É uma situação que nos leva de volta ao racismo, ao xenofobismo, ao nacionalismo exacerbado e perigoso que já levou nações ao conflito e dá combustível ao comportamento de grupos sociais deletérios que se formam na esteira das tensões sociais que esse ambiente naturalmente promove. Nesse processo não é estranho que essas tensões reflitam no próprio seio da sociedade, com a violência que se observa no comportamento cotidiano das pessoas, no descontrole emocional das massas, que se percebe  principalmente nas chamadas torcidas organizadas dos clubes de futebol e especialmente na política extremamente polarizada que está levando a tensão emocional do planeta a concentrar-se em dois polos antagônicos e aparentemente irreconciliáveis.

Tudo isso tende a levar o mundo a uma deterioração emocional que não vai ser combatida a contento com medidas de repressão pura e simples, como as que o governo americano vem tomando contra o tráfico de drogas(evidentemente com intenções menos nobres) e o governo do Rio de Janeiro fez recentemente com o massacre do Morro do Alemão. Isso porque essas medidas, ainda que necessárias e profiláticas, só atingem as consequências e não as causas, que são a pressão econômica que as novas gerações são submetidas, os valores corrompidos que estão embutidos nos novos critérios de julgamento do homem bem sucedido, a deterioração do núcleo familiar, onde as pessoas recebiam os principais fundamentos de uma ética social alicerçada no chamado “fio de bigode”, e a exacerbação da competitividade, que faz do indivíduo uma máquina de vencer concorrências e bater metas.

Tudo isso o leva ao isolacionismo e à desconstrução de uma rede afetiva verdadeira, forçando-o a internar-se num isolamento emocional que ele procura substituir pela chamada rede social. Mas esta, ainda que lhe permita o acesso a um número infinitamente maior de pessoas do que seria possível nas suas antigas redes de relações, jamais poderá substituir, em termos de progresso emocional, o contato humano.

Destarte, uma pacificação urbana que possa levar as pessoas a uma forma inteligente de se emocionar sem se tornar uma enxurrada incontrolável de impulsos negativos que resultam em atos de violência e destruição, seria muito mais útil do que medidas reativas de repressão. Lideranças que, pelo menos, conseguissem pensar nisso e tentassem alguma coisa nesse sentido seriam muito benvindas. 

João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 13/01/2026
Alterado em 13/01/2026


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