Em sua análise sobre a Guerra do Peloponeso, o historiador grego Tucídedes, diz que os homens fazem a guerra e continuarão fazendo até o fim dos tempos (ou da própria espécie) porque precisam provar o seu poder sobre os adversários. Esparta e Atenas, os dois estados combatentes nessa guerra tinham diferentes formas de governo ̶ Esparta era uma oligarquia comunista e Atenas uma democracia elitista – mas essa era a única diferença entre eles. Tucídedes diz que o conflito aconteceu, não porque eles tinham divergências políticas e ideológicas, mas sim porque eram parecidos, poderosos e queriam impor sua hegemonia sobre os demais estados gregos.
Para ele não havia o bem e o mal, assim como não havia um sistema de governo que pudesse ser representativo de um e outro conceito. O que quer dizer que tanto faz um povo ser governado por um sistema democrático, ou por uma ditadura, de direita ou de esquerda, ou ainda por uma assembleia popular que se diz comunista (como a China, o Vietnam e outros países que usam o mesmo sistema). Na verdade, diz Tucídedes, a questão está na pessoa, ou nas pessoas que encarnam o poder. Para ele, o poder era o Demônio, o corruptor, que contaminava as almas e fazia com que os homens matassem e morressem por ele. Isso significa que não existe um regime melhor que outro, mas sim, as pessoas que o administram podem ser melhores ou piores, e suas atuações podem fazer a felicidade ou a infelicidade dos governados. Essa é uma verdade que transparece nos estados atuais, onde países que adotam sistemas de governo rotulados de socialistas tem conseguido bons resultados para o bem estar dos seus povos (vide, por exemplo o Vietnam, a Suécia, a Dinamarca), da mesma forma que países que adotam doutrinas capitalistas também tem tido sucesso nesse sentido. Por isso é que achamos que o atual conflito ideológico que ameaça levar o planeta para uma conflagração que pode resultar na extinção da própria raça humana é um falso dilema e só mesmo as mentes toldadas pelo escotoma do radicalismo continuam acreditando que ele tem algum sentido.
Se pensarmos bem, Tucídedes estava certo em sua análise e as coisas não mudaram muito do seu tempo para hoje. Atenas e Esparta encenaram seus conflitos em um palco bem menor, que era o mundo grego da época, mas qual é a diferença agora, quando falamos dos Estados Unidos e seus aliados, e da China, Rússia e os países que os apoiam? A rivalidade que aflora nos conflitos hodiernos entre as potências envolvidas nesse clima perigoso que estamos vivendo não são apenas oriundas do jogo do poder? Quem acredita que Trump invadiu a Venezuela por que queria o bem do povo venezuelano? Ou que Putin faz guerra contra a Ucrânia porque quer defender os russos que moram no território ucraniano? Ou que a China está interessada no bem estar dos coreanos ou dos habitantes de Taiwan? Mas nós, o povo, somos bucha de canhão e nos deixamos enganar pelos aspectos político e ideológico que os atores desse drama, que só querem exercitar o seu poder, encenam para nós. E muitas vezes acabamos perdendo amigos, parentes, até destruindo famílias por conta da ambição de pessoas que projetam em nós os seus desejos e nos fazem compartilhar das suas loucuras.
Nesse sentido, um pouquinho de juízo crítico nos faria muito bem. Se temos que fazer uma opção por alguma forma de doutrina façamos pela paz, pela concórdia e pela solução negociada dos conflitos, porque é para isso que Deus nos deu a inteligência. Se ele quisesse que nós vivêssemos nos matando eternamente, só para mostrar que temos poder, nunca teria permitido que a nossa espécie adquirisse um cérebro que pudesse tira-la da animalidade.