Hipocondria moral
Ao que parece, essa doença está grassando no Brasil e se espalhando como vírus através das redes sociais. O nome dela é hipocondria moral. Seus sintomas são: opiniões extremadas, ataques sistemáticos a adversários, tentativa de silenciamento dos opositores, criação de narrativas mentirosas para difamar e descontruir oponentes e principalmente intolerância com tudo o que não esteja de acordo com as opiniões e desejos do indivíduo.
Quem contrai essa doença geralmente passa o dia inteiro (e geralmente as noites também) procurando nas redes sociais toda e qualquer informação, verdadeira ou falsa, que possa contribuir para difamar e destruir seus adversários.
Se perguntarem a ele qual é a sua ocupação ele dirá que é um influenciador. E não deixa de ser, ou pelo menos ele tenta ser. Na grande maioria das ‘informações” que coloca na rede social ele termina com palavras como “divulguem”, “viralizem”, “espalhem” " compartilhem" etc.
Psicólogos que estudaram esse comportamento dizem que o hipocondríaco moral é um narcisista com traços de psicopatia, que acha que todo mundo tem que compartilhar das suas opiniões. Na verdade, essa doença não é nova. Não é contemporânea da rede social, mas cresceu espontaneamente com ela. É extremamente contagiosa e vem se espalhando rapidamente pela internet. Os especialistas dizem que a hipocondria moral guarda algumas semelhanças com outros fenômenos da cultura digital, como a chamada “sinalização da virtude” que é uma tentativa dissimulada de exibir as próprias qualidades morais, expondo os vícios que ele acha que os outros têm, mas que, na verdade, são “colados” no adversário com a finalidade de denegri-lo.
Alguns estudos mostram que essa doença já teria sido diagnosticada pelo psicanalista alemão Erich Fromm (1900-1980). Em sua obra “O coração do homem”, que ele publicou em 1964, Fromm descreveu o portador de hipocondria moral como um narcisista que se sente culpado por não conseguir ser o que ele “quer” ser. Embora, à primeira vista, ele pareça ser alguém consciencioso, interessado no bem estar dos outros, preocupado com o destino do país quando se trata de política, a verdade é que esse indivíduo só está interessado em si mesmo, em fazer valer sua própria opinião, e na realização dos seus próprios desejos.
Embora não seja uma doença dos tempos digitais, a hipocondria moral só virou epidemia com a emergência das redes sociais. Ela pode ser identificada sobretudo nos ativistas radicais de esquerda e de direita que navegam nas redes sociais, divulgando todo tipo de informação que possa concorrer para prejudicar alguém. No caso da política, os candidatos adversários.
Como nas redes sociais o usuário tem mais liberdade de praticar a sua hipocondria, ele aproveita essa liberalidade escolhendo alvos que sabe não responderão aos seus ataques, ora porque estão muito alto para serem atingidos, ou então porque dificilmente tomarão conhecimento das suas diatribes.
Como se sabe, o hipocondríaco não é só um indivíduo que reclama de tudo, que se julga portador de todas as doenças, mas também é uma pessoa que pode abraçar com entusiasmo uma causa para chamar atenção para si próprio. E ele sempre tem uma causa. Se se trata de religião, ele tentará converter todo mundo. Se for futebol, seu time será sempre o melhor, mesmo que vá parar na segunda divisão. Se for política, lutará com unhas e dentes pelo seu candidato, mesmo que todas as provas indiquem que se trata de um grande vigarista.
Vacina contra a hipocondria moral não existe. Nós só podemos nos defender dela olhando sempre para os dois lados da questão. E estando sempre atento aos resultados ao invés de narrativas.