INTRODUÇÃO
Após mais de meio século de cativeiro na Babilônia, para onde foram levados após serem derrotados pelos caldeus em 586 aC., os judeus foram autorizados pelo rei Ciro, da Pérsia, a voltar a Jerusalém e reconstruir o templo de Salomão, que havia sido destruído pelas tropas do rei Nabucodonosor cerca de cinquenta anos antes. Seu líder era um homem chamado Zorobabel.
Historicamente, o personagem Zorobabel foi um rabino que nasceu durante o cativeiro dos judeus no exílio da Babilônia e se tornou líder dos judeus presos na Babilônia. Sob sua liderança, eles voltaram para Jerusalém, com a permissão do Rei Ciro da Pérsia, após aquele rei ter derrotado os caldeus e libertado os povos que eles tinham levado cativos para a capital dos caldeus.
Diz o cronista Esdras que eram de 42.360 pessoas, além de seus servos e servas. Era pois, um grande contingente de pessoas repatriadas, o que pressupõe que os judeus, nessa época já tinham conquistado uma certa proeminência dentro do império persa, como nos mostra as crônicas do Livro de Ester, uma judia que se tornou esposa de Xerxes I, chamado de Assuero na Bíblia. Na verdade, conforme se nota pelas crônicas de Esdras e pelo livro de Ester, os judeus, durante o domínio persa, gozavam de uma relativa liberdade, tendo não só seus próprios governantes como também mantendo sua religião e seus líderes religiosos.
Na época, a Palestina ocupada pelos persas era governada por agentes escolhidos pelo próprio rei. Esse governador, denominado “sátrapa”, nomeava para cada cidade uma espécie de prefeito, que recebia o título de Aterzata. Esse foi o título atribuído a Zorobabel, após ele ter reconduzido a reconstrução do Templo.
Todavia, naquele tempo como hoje, a Palestina não era habitada somente pelos judeus. A volta de um tão vasto contingente de pessoas para aquela terra, sabidamente tão pobre em recursos naturais, trouxe muita preocupação para a população que habitava a região. Eram vários povos de diferentes etnias que muito se incomodaram com a volta dos judeus para a Palestina, pois o povo de Israel, mais organizado, mais culto e coeso em suas crenças, e principalmente, apoiado pelo persas, que queriam um aliado forte nessa parte do seu império, tinha condições de dominar todo esse território e submeter esses povos, então livres, ao seu domínio.
Assim, esse novo êxodo dos judeus logo provocou sérios conflitos. Esdras fala da feroz oposição dos samaritanos, povo que embora fosse aparentado com os judeus, com eles mantinha uma feroz inimizade, cultivada desde os tempos em que o reino israelita havia se separado em dois reinos antagônicos.
Esdras deixa transparecer em sua crônica que essa oposição foi provocada pelos próprios judeus, que muito zelosos das suas próprias tradições, não permitiam que seus rebeldes conterrâneos participassem da reconstrução do templo, embora a crença dos judeus fosse a mesma dos samaritanos.
Como eram muitas as incursões dos samaritanos e de outras tribos habitantes da região contra o canteiro de obras, Zorobabel criou uma espécie de milícia para protegê-lo. Ao mesmo tempo em que trabalhavam na reconstrução, os operários judeus a defendiam, como diz Esdras em suas crônicas: “enquanto manejavam com uma das mãos a trolha e a argamassa, tinham na outra a espada e o escudo.”
Foi essa disposição que motivou Zorobabel a voltar a Jerusalém, à testa de um exército de construtores, para reconstruir o segundo Templo de Salomão. E foi esse fato histórico, celebrado na Bíblia como a primeira reconstrução do Templo de Jerusalém, que é celebrado na Maçonaria como uma das mais significativas alegorias.
Uma antiga lenda maçônica diz que a reconstrução do Templo foi conduzida por judeus que haviam fugido para o Egito durante a invasão dos caldeus. Após a derrota destes frente aos persas eles voltaram para Jerusalém e constituíram um grupo secreto para estudar arquitetura e promover a reconstrução do Templo, exatamente como ele o era no tempo de Salomão. Esse grupo mantinha-se na clandestinidade exatamente para evitar o ataque das populações hostis. Seus membros se identificavam através de palavras de passe e toques.
Era um grupo remanescente daqueles Perfeitos e Sublimes Maçons, conhecedores da Palavra Sagrada, de que fala o grau quatorze do Rito Escocês Antigo e Aceito.
Zorobabel, de volta a Jerusalém, entrou em contato com eles e fez reconhecer-se como um deles dando-lhes a Palavra Sagrada. Vendo a firme disposição daqueles irmãos em reconstruir o Templo do Senhor, Zorobabel empenhou-se junto ao rei Ciro para que ele permitisse e financiasse a reconstrução. Ciro concordou mas pressionou o líder judeu para que este lhe revelasse os segredos da sua religião, mas ele não cedeu ás pressões do rei. Comovido com a firme disposição de Zorobabel e com a sua fidelidade ao Senhor e aos seus Irmãos, o rei se dispôs a ajudá-los, liberando todos os judeus, fornecendo os recursos para a obra e devolvendo os utensílios que Nabucodonosor pilhara por ocasião da invasão dos caldeus.
Foi então que Zorobabel voltou a Jerusalém e junto com Neemias, coordenou a reconstrução do Templo. Essa é a alegoria usada no referido grau maçônico para veicular importantes ensinamentos.
A história da reconstrução do Templo é uma epopeia que encarece o valor da fidelidade, da coragem e do zelo. O exemplo de resistência, coragem e determinação dada pelos judeus nessa reconstrução é uma prova de que a maior defesa de um povo está no respeito ás suas tradições e na persistência firme de uma crença. Enquanto outros povos, mais fortes, mais desenvolvidos, em termos econômicos, sociais, científicos e militares, são hoje apenas referências na história da civilização, Israel continua existindo e exercendo uma viva influência nela. Sua história é um exemplo de tenacidade, resistência, esperança e fé num destino traçado pela mão de Deus, e não apenas mais uma consequências do materialismo histórico, formatado pelas leis da evolução social. Aqui está o grande ensinamento desse grau e dessa metáfora.
A história de Israel nos prova que é na idéia da Fraternidade, na crença da “eleição” por um Deus verdadeiro, na tradição de uma cultura e de um ideário comum de símbolos, mitos e esperanças que repousa a força de uma nação. Israel sobreviveu a todas as vicissitudes históricas, a todas as tragédias coletivas que se abateu sobre seu povo, graças à força dos arquétipos que sedimentam as suas crenças. O alicerce cultural de Israel repousa numa idéia de elitismo religioso (Israel é um povo escolhido por Deus para representá-lo na terra), e isso o faz forte e concede-lhe uma unidade política, social e principalmente espiritual, capaz de resistir a todas as tentativas de desagregação interna e destruição externa.
Por muito menos, nações mais poderosas e povos mais desenvolvidos deixaram de existir. Os gregos sucumbiram aos ataques de seus inimigos externos justamente pelas dissensões internas que sempre abrigaram em seu seio. Os romanos, mais tarde, também desapareceram por força da própria fraqueza que a desagregação social, política e econômica provoca nas nações que se tornam dominadoras. Assim desaparecem os povos e as nações, quando permitem que sua cultura se abastarde, suas tradições se corrompam e sua identidade se perca.
A garantia de sobrevivência de um grupo está sempre no respeito ás suas tradições. Seria bom que os maçons não se esquecessem dessas lições, pois é nesse arquétipo que a Maçonaria, como instituição universalmente reconhecida, foi buscar a sua força nuclear. É na conservação de uma tradição, no compartilhamento de uma idéia de Irmandade e na força do apelo à uma sã espiritualidade, fundamentada numa noção, ao mesmo tempo mística e racional da divindade, que a Arte Real se apoia e se desenvolve, colocando-se como opção filosófica e prática de vida para uma sociedade cada vez mais diversificada e materialista.
A Maçonaria como idéia é uma reedição do reino e do povo de Israel enquanto modelo cultural, capaz de sobreviver e difundir conhecimento, ciência e virtude para os povos, em todos os países onde ela existir. Nessa confluência de ideais, propósitos e compartilhamento de resultados, está a sua força e a sua justificativa como instituição, que sobrevive e cresce cada vez mais, não obstante as tentativas de supressão que tem sofrido ao longo dos séculos.
Por isso, todos os graus da chamada Loja de Perfeição fazem menção à reconstrução do Templo de Jerusalém, sendo o próprio presidente dessas Lojas chamado de Aterzata, em homenagem ao rabino Zorobabel. Segundo estudiosos da Bíblia, foi na leitura dos textos bíblicos que Zorobabel encontrou inspiração para realizar o seu trabalho e levar todos os seus conterrâneos a participar dele com disposição e vigor.
O presente trabalho homenageia o rabino Zorobabel, responsável pela reconstrução do Templo de Jerusalém. Ele é o símbolo do maçom libertado, que emerge do cativeiro (a masmorra) para reconstruir o templo do Senhor (templo da virtude). Como forma literária para essa homenagem, escolhemos dispor os textos em forma de sonetos clássicos, com motivos bíblicos, na melhor tradição dos salmistas de Israel. Dessa coletânea saiu este livro, que discorre sobre vários temas do Velho e do Novo Testamento, dando a eles uma visão que certamente os maçons reconhecerão como consentâneos com os ensinamentos que eles recebem em suas Lojas. E os não maçons, que têm nos escritos sagrados uma fonte de boa filosofia, também poderão encontrar nos textos aqui expostos uma literatura que poderá trazer conforto para os seus espíritos.