João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


                                         CAPÍTULO I

                             O PARTO DO UNIVERSO

Primeiro dia

 

“No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava informe e vazia, e as trevas cobriam as faces do abismo; E o Espírito de Deus movia-se sobre as águas. E Deus disse: Exista a luz. E a luz existiu.” Gênesis, 1; 2,3.

 

                  Como era uma “Existência Negativa”,

            Que estava só no espaço atemporal;

                  Ele tornou-se a “Existência Positiva”

         Hospedando em Si o Todo universal.
 
         Quem sabe esse Big Bang dos ateus,
         Que o cientista vê no seu telescópio,
         Não seja a hora da epifania de Deus,
         Que realiza um parto em Si próprio?
.
         É uma imagem estranha, reconheço;
         Mas nela encontramos boa filosofia,
         E uma visão do que foi esse começo.

 

                 O tema merece um pensar profundo:

                 Se “a priori de tudo” Deus já existia,

                 O que ele era antes de “ser” o mundo?

 

         A visão de um “parto do universo”, identificado com o Big Bang, é uma inspiração dos cultores da Cabalá filosófica, que veem nessa imagem a realização da proposta científica de modernos pesquisadores que sustentam que tudo começou com a explosão de uma estrela há cerca de quinze bilhões de anos atrás. Essa explosão, metaforicamente, seria também o “nascimento material” de Deus, pois é partir desse momento que ele se manifesta no mundo das realidades sensíveis e observáveis. Como Diz o Zhoar: “E ocorreu o seguinte: no princípio, o som da Palavra chocou-se contra o Vazio e formou um Ponto imperceptível, a origem da Luz. Esse Ponto foi seu Pensamento. Do ponto Ele evoluiu para uma forma misteriosa, que cobriu com uma veste cintilante. Este é o universo...” [1] 

        Corroborando essa visão, o evangelista São João abriu o seu evangelho dizendo que : "No início era Verbo, o Verbo estava com Deus e Deus era o Verbo”, enigmática locução que sugere o universo teria começado com voz de Deus ecoando no vazio cósmico e dela saindo todas as realidades que preenchem o cosmo. Essa voz, dizem os mais imaginativos taumaturgos que se debruçaram sobre esse enigmático memento, seria Deus dizendo "Eu Sou", e esse grito divino, identificado como sendo o Big Bang, teria sido a força que desencadeadora do "parto do universo".

       Antes disso, o universo estaria contido em uma uma esfera de três centímetros de diâmetro, como descreve o poeta argentino Jorge Luiz Borges no seu famoso conto "O Aleph". Esse também era o pensamento dos hierofantes egípcios e hindus que diziam que o universo havia saído de um "ovo cósmico" fertilizado pelo deus Amon e chocado por oito deuses. Desse "ovo" geria saído o deus Sol, que eles chamavam de Rá, e era responsável pela vida na terra.

           Assim, quando Deus gritou "Eu Sou", ( o Verbo), a casca do "ovo se rompeu e o universo nasceu. Essa seria, na imaginação dos antigos gnósticos que tiveram essa visão, o significada da expressão "No início era o Verbo, o Verbo estava com Deus e Deus era o Verbo." Essa expressão, aliás, foi usada pela primeira pelo filósofo judeu Philo de Alexandria, considerado o precursor do gnosticismo.  

          Corroborando essa visão, Stephen Hawking, um maiores físicos dos nossos tempos, escreve: “Há cerca de 15 bilhões de anos todas (as galáxias) teriam estado umas sobre as outras, e a densidade teria sido enorme. Esse estado foi denominado átomo primordial pelo sacerdote católico Georges Lemaitre, o primeiro a investigar a origem do universo que agora chamamos de Big Bang.” o que parece sugerir que o universo inteiro estava, realmente, concentrado em um diminuto espaço, que não podendo conter tanta energia, explodiu. [2] 

         E a Bíblia, por sai vez diz, em Gênesis, 1:1 “No princípio, ao criar Deus os céus e a terra, a terra era sem forma e vazia, e havia escuridão sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas. Deus viu que a Luz era boa, e separou entre a Luz e a escuridão.”, o que nos remete à tradição cabalista que vê Deus vivendo uma espécie existência negativa antes de fazer o mundo. 

        A expressão “Existência Negativa” é usada pelos cultores da Cabalá filosófica para explicar que, antes de Deus manifestar o universo da matéria, ele existia como uma força potencial desconhecida e imanifesta, que pode ser representada pelo correspondente negativo do universo positivo, como numa corrente de energia. Essa imagem, que emprestamos das visões cabalísticas, também pode ser encontrada na filosofia do Taoísmo quando Lao Tsé, o seu filósofo fundador, diz que “Existe algo obscuro, mas completo, antes da existência do céu e da terra; tranquilo e calmo, que existe sozinho sem alteração, movendo-se sem correr riscos. Poderia ser a mãe de tudo. Não sei o seu Nome e chamo-o Tao”[3]

       Os filósofos gregos também tiveram intuições bem próximas aos cabalistas e taoístas. Especialmente Platão, que via a geração do mundo material a partir de fenômenos luminosos que são os pensamentos emitidos pelos deuses na forma de arquétipos, noção essa que também faz parte das especulações de modernos pesquisadores como Jung, por exemplo, que classifica essas manifestações como oriundas de um mundo arquetípico que ele chama de inconsciente coletivo da humanidade. Seja qual for a crença que se espose, não podemos negar que existe um mundo além deste em que nós vivemos e que ele é determinante nas nossas vidas. Por isso Anderson, ao redigir as Constituições, diz: "Um Maçom é obrigado, por dever de ofício, a obedecer à Lei Moral; e se ele compreender corretamente a Arte, nunca será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso.”

         (continua)

 


[1] Zhoar, pg. 84

[2] Hawking, “O Universo em uma casca de noz”, pg.78

[3] Lao Tsé, Tao Te King, pg 25

João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 21/03/2026


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