A criação do céu e da terra
“E disse também Deus: faça-se o firmamento no meio das águas e separem-se umas águas de outras águas. (...) As águas, que estão debaixo do céu, ajuntem-se num só lugar e apareça o elemento árido. E assim se fez.” Gênesis, 1:6,9.
Primeiro a surgir, o mundo astral,
“Águas de cima”, ele foi chamado,
O nome “Céu” mais tarde foi dado,
A esse produto da explosão inicial.
E da camada nomeada firmamento,
O elemento mais puro foi separado;
Para com ele o infinito ser formado,
“Mundo de fora que saiu do dentro”
Isso foi no segundo dia da Criação,
Quando ainda não existia a matéria
E tudo ainda só era calor e radiação.
E Deus fez o primeiro dos arranjos,
Gerando as criaturas de vida etérea,
Que chamamos pelo nome de anjos.
“ Deus separa a Si mesmo de todas as coisas, ainda que Ele não esteja separado delas. : pois todas as coisas estão unidas com Ele, do mesmo modo que Ele está unido com elas. Ao dar forma a Si mesmo, Deus deu vida a tudo que existe. E ocorreu o seguinte: no princípio, o som da Palavra chocou-se com o vazio e formou um Ponto imperceptível, a origem da luz. Esse Ponto foi seu Pensamento...( )[1]
“Deus separa a Si mesmo de todas as coisas, ainda que não esteja separado delas.” Esse interessante preceito do Zhoar também é encontrado na filosofia hindu e praticamente em todas as tradições religiosas do mundo: Deus está em todas as coisas, mas as coisas não estão Nele. É um axioma que revela o poder de criação de Deus e, ao mesmo tempo, a sua impermeabilidade. Isso quer dizer que todas as coisas estão sujeitas ao poder de Deus, mas nada, nem ninguém o influencia. Deus é impermeável a qualquer influência do que quer que seja. É nesse sentido que um ensinamento da Cabalá nos diz que é cediço pedir perdão a Deus pelos nossos pecados, porque os nossos erros não significam nada para ele, já que Ele nos deu o livre arbítrio para fazermos as nossas escolhas. Destarte, somente a pessoa que sofreu o prejuízo da nossa ação pode nos perdoar e dar a esse perdão a devida eficácia da redenção. Quer dizer: o titular do perdão é quem sofreu a ofensa. Nenhum padre, nenhum pastor, nenhum líder de qualquer religião pode fazer isso por ele. Jesus nos ensinou a mesma lição: “Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, Deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta. Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te lancem na prisão.” [2]
Outra bela lição que se pode tirar desse versículo da Bíblia, ao qual a Cabalá dá um conteúdo bastante significativo é a ideia de que, ao dar forma a Si mesmo, Deus conferiu vida a tudo que existe. Essa semântica nos vem principalmente do pensamento aristotélico, que via em todas as coisas, animadas e inanimadas, a presença de uma “anima”, ou seja, uma alma, que lhe dava conformação na geometria do mundo e finalidade na sua razão de existir. Aristóteles (384 a C-322 a C), dava o nome de Enteléquia à essa propriedade anímica de todas as coisas, ou seja, a energia vital que dá forma e finalidade a todos os seres e objetos.
Portanto, tudo que existe no mundo tem vida. Porque tudo tem origem no mesmo princípio, que é a energia divina que gerou o mundo. Corroborando essa ideia nos vem o enunciado de um dos mais respeitados cientistas modernos que diz: “Se a relatividade geral estiver certa, o universo teria começado com temperatura e densidades infinitas na singularidade do BigBang. Á medida que o universo se expandiu, a temperatura da radiação diminuiu. Em cerca de um centésimo de segundo após o BigBang, a temperatura teria sido de 100 bilhões de graus, e o universo teria contido, na maior parte, fótons, elétrons e neutrinos (partículas extremamente leves) e suas antipartículas, além de alguns prótons e nêutrons. Nos três minutos seguintes, enquanto o universo resfriava para cerca de um bilhão de graus, prótons e nêutrons, não tendo mais energia suficiente para escapar da atração da força nuclear forte, teriam começado a se combinar para produzir os núcleos do hélio e outros elementos leves. Milhares de anos depois, quando a temperatura caiu para alguns milhares de graus, os elétrons diminuíram de velocidade até os núcleos leves poderem capturá-los para formar os átomos. No entanto, os elementos mais pesados dos quais somos constituídos, como carbono e oxigênio, só se formaram bilhões de anos mais tarde, pela queima de hélio no centro das estrelas”. [3]
Quer dizer: tudo, no universo tem uma origem única. Coisas e pessoas, gases e sólidos, átomos e moléculas, matéria e espírito...Somos todos irmãos, como pensava São Francisco de Assis e modernamente, nos ensina Gregory Bateson (1904-1980), famoso antropólogo, sociólogo, linguista e semiólogo inglês, cujo trabalho abrangeu os mais variados campos do conhecimento. Bateson, aliás, ficou famoso pela sua intensa pesquisa no sentido de encontrar o chamado “elo de ligação” entre todas as coisas do universo, pois essa era a sua principal crença: a existência de um princípio único na criação de todas as coisas que existem no mundo, e é a perda desse conhecimento que gera todos os conflitos que a nossa existência tem que enfrentar. Algo que pode ser conexo com a Lenda da Palavra Perdida, que o catecismo maçônico desenvolve no ensinamento de um dos seus graus filosóficos.
Essa parece ser também uma intuição acometida a todos os grandes pensadores, nas mais diversas épocas da humanidade. Lao Tsé, por exemplo, o filósofo fundador do Taoísmo diz que “O grande Tao flui por toda a parte; à esquerda e à direita. Todas as coisas dependem dele para existir, e ele não as abandona”. [4] Isso significa que a mesma energia que formata o mundo material dá forma ao mundo orgânico e também ao mundo dito espiritual, pois este nada mais é do que o estofo de onde toda matéria provém. Essa intuição também ocorreu ao filósofo Teilhard de Chardin em suas especulações sobre a origem da matéria e a sua evolução até adquirir as propriedades que lhe conferiram a qualidade da vida e o desembocar na estrutura final do homem inteligente. Para Teillhard esse processo ocorre de forma ordenada e contínua, com intervalos de ocorrências excepcionais, que ele chamava de emergências descontínuas, ou seja, momentos em que algum fenômeno cósmico (ou mesmo sobrenatural, de intervenção divina), ocorre e quebra o padrão de continuidade estabelecido pelas leis naturais. O surgimento da vida a partir de compostos aminoácidos formados na “sopa primordial” do universo e o ingresso do homo sapiens no mundo das criaturas vivas foram algumas dessas emergências descontínuas, momentos em que a natureza saiu do seu padrão para gerar fenômenos que ainda hoje estão para serem compreendidos. [5]
Essa também parece ser uma constatação que o próprio mundo científico vem chegando com as pesquisas avançadas sobre a mecânica quântica e seus reflexo no mundo da realidade manifesta, como podemos ver neste enunciado de Fritjof Capra, físico teórico e escritor, com doutorado em física teórica pela Universidade de Viena: “Por outro lado, a força básica que origina todos os fenômenos atômicos é uma força familiar e pode ser experimentada no mundo macroscópico. Trata-se da força de atração elétrica entre o núcleo positivamente carregado e os elétrons negativamente carregados . A interação dessa força com os elétrons-ondulatórios origina a tremenda variedade de estruturas e fenômenos em nosso meio ambiente. Essa interação é igualmente responsável por todas as reações químicas e pela formação de moléculas, isto é, agregados de diversos átomos reunidos pela atração mútua. A interação entre elétrons e núcleos atômicos constitui, então, a base de todos os sólidos, líquidos e gases, e ainda, de todos os organismos vivos e de todos os processos biológicos a eles associados.”[6]
O que nos remete novamente a Lao Tse quando tenta nos fazer entender o mistério das origens do universo:
O caminho que pode ser seguido não é o Caminho Perfeito;
O nome que pode ser dito não é o Nome eterno.
No princípio está o que não tem Nome.
O que tem Nome é a Mãe de todas as coisas.
Para que possamos observar os seus segredos,
Devemos permanecer sem desejos.
Mas se em nós mora o desejo,
Só poderemos ver sua forma externa.
A casca que a essência oculta.
Esses dois estados existem para sempre inseparáveis,
Diferentes apenas em nome, idênticos
Integrados, unidos, são os chamados Mistérios.
Mistério além dos mistérios.
O portal que conduz a tudo que é sutil e maravilhoso
Que é o recôndito segredo de todas as essências! [7]
Quer dizer: na origem de tudo há um poder (uma energia) que dá geração ao mundo. Esse poder não tem forma nem nome. Lao Tsé chama a essa energia de Tao. Nós podemos chamá-la de poder divino. O Tao não é Deus, mas sim o seu poder, a energia que Deus emana. Quando Deus manifesta o universo das coisas reais, ele dá um nome a tudo. O que tem nome é a mãe de todas as coisas. Nós a chamamos de Natureza, leis naturais etc. A Natureza nós podemos ver e sentir. A energia que está na origem dela não. Mas eles são dois estados inseparáveis. O que nos remete de novo à visão cabalista da origem: “ O Santo Nome encerra um grande segredo: quando o mistério dos mistérios quis se manifestar Ele criou um ponto que era o Pensamento Divino. Neste, ele delineou todo tipo de imagens e gravou todo tipo de figuras. Então também gravou a Lâmpada, que é o mais santo de todos os mistérios...( ). Esse foi o princípio do edifício que existiu antes de qualquer outra coisa existir e é conhecido como parte do Nome MI (quem?), que significa: Ele nunca será conhecido de fato. Mas quando Ele quis ser conhecido de maneira mais plena Ele pôs uma vestimenta preciosa e criou ELEH, que significa toda a Criação.”[8]
Assim se compreende: a energia divina, essência que está na origem de todas as coisas nunca será conhecida; ela é MI, o que preenche o ponto inicial, o Pensamento de Deus, a sua Vontade, a força que motivou o acontecimento que a ciência chama de Big Bang. Já o que resultou da manifestação dessa potência é ELEH, a natureza, a Criação que é simbolizada como a vestimenta preciosa de Deus. A Lâmpada é a luz que Ele tirou da escuridão para dar nascimento ao universo, pois ela é o sustentáculo de todo esse processo. Por isso o físico Werner Heisenberg ao comentar as descobertas de Einsten pôde dizer: “Se removermos a luz do universo, retiraremos concomitantemente a gravidade; e então tudo que nele existe desabará; o mais leve sobre o mais pesado, o menor sobre o maior, o mais fluído sobre o mais denso, e tudo voltará ao ponto inicial.”[9]
E assim tudo combina e tudo converge para um ponto único de visão: os fundamentos de tudo que existe, queiram ou não grande parte dos cientistas e todos os que não creem, ainda se chama Deus, o Grande Arquiteto do Universo. Por isso o pastor anglicano James Anderson, nas Constituições, livro que ainda hoje regulamenta a prática da Arte Real, escreve: Um Maçom é obrigado, por dever de ofício, a obedecer a Lei Moral; e se ele compreende corretamente a Arte, nunca será um estúpido ateu nem um libertino.
[1] Zhoar, pg 84
[2] Mateus 5:23 a 25
[3] Stephen Hawking- O Universo em Uma Casca de Noz pg. 78.
[4] Tao Te King, pg 34
[5] Sobre esse assunto ver Chardin, Pierre Teilhard- O :Fenômeno Humano
[6] Capra, Fritjof, O Tao da Física, pg. 12
[7] Tao Te Ching, O Livro do Caminho Perfeito, pg.12
[8] Zhoar, pg 84
[9] Citação de Pawels e Bergier- O Despertar dos Mágicos. Rio de Janeiro, Ed. Bertrand Brasil, 1966