A luz na Maçonaria
Razão maior não haveria para o maçons centrarem sua prática na busca de uma iluminação interior que lhes traga, não só um aprimoramento no seu caráter, mas também uma perspectiva mais abrangente na sua visão de mundo se toda a prática maçônica não fosse uma jornada em busca de luz. .
Porque de luz é feita a nossa alma. Ela é uma partícula da energia dos princípios, que foi expulsa na mega explosão inicial que deu origem ao universo. Até alojar-se em um organismo e a ele conferir a qualidade da consciência, foram muitas e muitas interações com outras partículas, num processo que pode ter durado milhares, milhões de anos, e até mesmo toda a idade do universo.
Assim, a alma é essa centelha de luz que tem origem no Princípio Único que deu geração ao universo material. Ela é parte do que Teilhard de Chardin chama de “estofo do universo”, ou seja, o campo energético gerado pela potência do Criador no exercício da sua Vontade de Criar. Essa força, essa energia concentrada em um Ponto Único, é o evento que resultou na explosão que os cientistas chamam de Big Bang.
Na doutrina da Cabalá, o Big Bang é conhecido como a sefirá Kether, a coroa da criação. Partindo de Kether, a manifestação primeira do Criador no mundo das realidades passíveis de conhecimento pelo homem, a energia divina, fragmentada em incontáveis partículas (chamada pelos cientistas de quantas) espalhou-se pelo nada cósmico, em forma de luz. E à medida que se combinavam, umas com as outras, iam adquirindo propriedades que faziam delas a multiplicidade de formas pelas quais o universo é constituído. Uma delas, por força das propriedades adquiridas em suas múltiplas interações, deu como resultado a vida. E na continuação desse processo, uma das espécies vivas adquiriu propriedades que lhe conferiram a qualidade da consciência.
Assim é que podemos dizer que a nossa alma é um dom de Deus. Ela é uma centelha de energia que saiu da sua magna potência, exercida com a criação do universo e cristalizou-se, primeiro em massa, por força de múltiplas combinações atômicas, e em moléculas depois, gerando organismos, e por fim no ser consciente que é o homem.
Alojada em um organismo, que é o resultado de incontáveis relações, ela produz a sua própria energia, que se consubstancia em pensamentos e atos. Essa energia emancipa-se de sua própria fonte e gera a entidade que podemos chamar de espírito. O espírito, como diz Teilhard de Chardin, é feito das emissões psíquicas emitidas pelo homem na sua atividade de pensar. É uma contribuição do ser humano ao estofo do universo. Ele se integra ao conjunto de emissões psíquicas emitidas pela humanidade em todos os tempos e permanece como um celeiro no qual a nossa mente pode buscar alimento para suas atividades, tanto físicas quanto espirituais. É o que ele chama de Noosfera.
A Egrégora
Por isso os maçons desenvolveram o conceito de Egrégora, que se define como sendo uma comunhão de pensamentos e vontades que gera uma força espiritual ou um campo energético alimentado pela soma de pensamentos, sentimentos e intenções de um grupo de pessoas unidas para a consecução de um mesmo propósito. Originária do grego egrēgoros ("vigia"), a Egrégora representa uma mente coletiva que cria uma atmosfera única, comum em rituais, reuniões, ambientes domésticos ou grandes eventos.
Na Maçonaria, a Egrégora, que pode ser associada a um campo vibracional, é obtida pela reunião dos Irmãos em Loja. Não é outra a razão de as reuniões dos Irmão em Loja serem abertas com um ritual que invoca a comunhão de pensamentos e o simbolismo da congregação, da qual o melhor exemplo, em todos os tempos, foi o povo de Israel. Daí a abertura das reuniões com a invocação do Cântico de Ascensão de Davi, do Salmo 133.
“ Como é bom e agradável viverem irmãos juntos em harmonia; É como o óleo precioso que unge a cabeça de Aarão, dom qual escorrem gotas para a sua barba e daí para as suas vestes. É como o orvalho do Hermon que vem cair sobre as montanhas do Tsion, como bênçãos ordenadas pelo Eterno. Sejam elas perpetuadas para sempre.”
Essa energia pode ser associada ao que Jung chama de Inconsciente Coletivo da Humanidade. Nesse complexo de emissões psíquicas que formam uma mente universal, toda a estrutura da espiritualidade humana está disposta na forma de arquétipos que a nossa mente, por falta de uma linguagem adequada para defini-los, traduz na forma de símbolos. Nessa mesma esteira de entendimento podemos colocar a assertiva junguiana de que o “faça-se a luz” da Bíblia, da mesma forma que a expressão “a luz seja dada ao neófito” que se pronuncia no final de uma cerimônia de iniciação, simboliza, cada qual no seu contexto, a imersão da consciência na escuridão da inconsciência, para de lá emergir com a luz da sabedoria.
Daí a Maçonaria adotar, na sua liturgia, um arsenal de símbolos e metáforas, cujos significados, muitas vezes, não são alcançados pelos Irmãos, mas que, no seu contexto, estão intimamente associados com o tema da iluminação.
Um exemplo pode ser dado pelo desenho adotado para o piso dos Templos maçônicos. Eles são moldados com inspiração em um arquétipo, que se acredita, em certos círculos maçônicos, ser o adotado para o piso original do Templo de Salomão, no qual os utensílios e os mosaicos eram colocados com um sentido místico, formando uma espécie de mandala, para lembrar aos fiéis que ali se realizava obra iniciática de transmutação espiritual. A orientação do piso simbolizava o caminho que o devoto devia seguir para atingir o coração do templo, onde o embate final das duas naturezas do homem - a material e a espiritual, se realizava. Era ali, num espaço ornado por quadrados pretos e brancos, semelhante a um tabuleiro de xadrez, que a transmutação se realizava, pois acreditava-se que aquele traçado geométrico tinha o condão de atuar como um filtro depurador dos vícios adquiridos pelo homem na sua vida material e os pecados cometidos no exercício do seu livre arbítrio.
Por isso, o mosaico de um Templo maçônico é disposto no sentido de orientar os Irmãos num trajeto que tem que ser trilhado com certa rigidez ritualística, numa determinada direção, de modo tal que eles sempre entrem pelo Ocidente e caminhem em direção ao Oriente, local onde a luz se origina. Pois é no Oriente onde nasce o Sol, e no Ocidente é o lugar em que ele “morre”. Daí o significado do simbolismo que se encerra na marcha dos maçons dentro de um Templo e também em outros comportamentos dos Irmãos em “Loja”, como acontece nas cerimônias de elevação do companheiro a mestre, quando ele tem que marchar em volta do esquife do Mestre Construtor do Templo, sempre em sentido contrário ao horário, ou seja, do Ocidente para o Oriente. Em todos os casos, ele ali está em busca de luz. E é a luz que lhe é conferida em sua iniciação, como se diz no ritual: a luz seja dada ao neófito, no momento em que se lhe tira as vendas.
A “partícula” alma.
Destarte, a marcha do maçom em busca da luz é sempre uma marcha do Ocidente para o Oriente. Do Ocidente, o mundo materializado do homem que vive somente para a satisfação dos sentidos, para o Oriente, que é o território espiritualizado daqueles que já superaram essa fase. Esse simbolismo tem uma razão histórica: foi do Oriente que saíram as maiores manifestações de espiritualidade que a humanidade já produziu. Lá nasceram todas as religiões, os grandes profetas, os maiores taumaturgos, grandes filósofos e divulgadores de doutrinas espiritualistas.
E no plano mais sutil do psiquismo o caminho que a mente humana percorre na busca da espiritualidade também é uma jornada que pode ser comparada a uma caminhada do Ocidente para o Oriente, no sentido de que ela é uma viagem de fora para dentro de si mesmo. Da consciente para o inconsciente, como diz Jung, ou uma viagem para Meca, como simbolizada na tradição muçulmana. Essa viagem é necessária para um encontro do espírito humano com a sua própria alma, que segundo a tradição da Cabalá, adquiriu, em suas múltiplas interações no mundo material, as Kelipot, “cascas” que a ela foram aderidas no processo de materialização. As Kelipot podem ser entendidas como impurezas que ocultam a luz divina, ou seja, a luz primitiva da “partícula divina” que nós chamamos de alma. E com isso atuam como obstáculos que obstruem o nosso desenvolvimento espiritual, embora atuem também como guardas do nosso livre arbítrio, pois são elas que formatam o que chamamos de ego (vaidade, desejo, ambição, luxúria, enfim, todas as vontades que alimentam o Ser).
Assim, todo o processo de iniciação nos chamados Mistérios, sejam eles os rituais praticados pelos povos antigos (egípcios, gregos, mesopotâmicos, persas, hindus, chineses) sejam os modernos ritos praticados pela Maçonaria e outras sociedades congêneres, nada mais são que simulacros dessas antigas tradições. E aquelas também nada mais eram que cerimônias destinadas a reconduzir a consciência do iniciado para a fonte da sua espiritualidade, que era a sua alma.
Do mesmo modo que nas doutrinas esotéricas, essas antigas tradições, de um modo geral, viam o homem como um complexo físico/psíquico, que é formatado a partir de uma partícula de energia que interage no tempo e no espaço com outras partículas gerando uma unidade que, por sua vez, fabrica sua própria energia, e assim vai retro alimentando todo o sistema.
Na complexidade desse processo e na multiplicidade de interações que a “partícula alma” faz para chegar ao organismo chamado homem, e com o acréscimo que lhe é dado por ele, a alma torna-se cascuda e pesada e não consegue voltar ao princípio que a gerou. Por isso eram desenvolvidos esses rituais conhecidos como Mistérios, com a finalidade de integrar o espírito dos iniciados com as potestades que os patrocinavam, Assim eram os rituais dos Egípcios, no qual o casal/deidade Ísis e Osíris eram os patronos, e da mesma forma que nos Mistérios de Elêusis se invocavam as deusas Demeter e sua filha Perséfone e nos Mistérios persas, o deus Mitra e assim por diante. Todos esses deuses representavam poderes do céu e da terra e podiam conferir aos iniciados a sabedoria necessária para “libertar a sua luz” interior, que fora aprisionada na matéria.
Todas essas tradições repercutem na iniciação maçônica e na simbologia do seu catecismo, como a lembrar o Irmão que a sua mente tem uma ligação profunda com o Princípio que rege toda a vida do universo. E que a sua escalada nos princípios da Maçonaria é uma jornada em busca de luz.
Essa jornada, como ensina a Cabala, é uma depuração do seu próprio psiquismo, que é o mesmo que o aprimoramento do seu espírito, como se diz no catecismo maçônico. E se quisermos invocar especulações mais modernas para apoiar nossa visão, poderíamos apelar para a visão de Jung que vê o fenômeno da transubstanciação (a modificação psíquica do iniciado em consequência do ritual), como um fato perfeitamente possível, dado que o ritual, nesse caso, é uma forma de acessar os conteúdos mais profundos da mente humana, onde, de acordo com as tradições místicas, está alojada a “partícula alma”. Por isso Jung propunha cerimônias de iniciação no lugar de medicamentos como forma de curar distúrbios mentais, e mais próximos de nós, a técnica desenvolvida por modernos praticantes da neurociência, chamada PNL (Programação Neurolinguística) nada mais é do que um repertório de rituais tecnicamente elaborados para acessar os chamados “programas” inconscientes que são inseridos na nossa mente sem que deles tenhamos consciência.