CAPITULO I
O PROBLEMA DA LINGUAGEM
O problema da linguagem
Os “limites do mundo são o limite da nossa linguagem” não é só uma frase, mas uma realidade provável e esmagadora do quanto a nossa percepção da realidade é limitada. Essa frase foi cunhada pelo filósofo austríaco "Ludwig Wittgenstein e publicada em seu livro Tractatus Logico-Philosophicus de 1921.
A expressão sugere que nossa compreensão da realidade é limitada pela capacidade de traduzir para a nossa mente, numa linguagem que ela seja capaz de entender, tudo aquilo que vemos, ouvimos e sentimos. Isso porque a linguagem não é apenas uma ferramenta que nos permite a comunicação, mas também conforma o pensamento, limitando ou expandindo, conforme seja a nossa capacidade para expressá-lo.
Destarte, a nossa compreensão do mundo aumenta ou diminui na mesma medida que a nossa capacidade de expressar essa compreensão se expande ou contrai. O que Wittgeinsten disse também foi expresso pelo cientista e filósofo polonês Alfred Korzibsky (1933-1994) em suas pesquisas sobre a influência que a linguagem exerce sobre a estrutura da nossa neurologia e a forma como ela limita a nossa compreensão da realidade. Isso porque todas as informações que os nossos sentidos mandam para o cérebro são feitas através da linguagem que usamos (verbal e não verbal), e se esta for pobre, pobre também serão as ideias que delas faremos e a compreensão que delas teremos. Por isso, diz Korzibsky: “o mapa não é o território”, com isso querendo dizer que dentro de cada ideia, cada conceito que emitimos, cada gesto que fazemos, cada comportamento, cada informação que damos ou recebemos, há um mundo muito maior do que aquele que a nossa mente consegue representar e comunicar.
A questão da linguagem é o maior problema quando se trata de assuntos esotéricos, religiosos, místicos, que são mais adstritos ao mundo espiritual do que ao material. Por isso eles se classificam como metafísica, o que quer dizer que estão além da parte física do ser humano, que é o mesmo que dizer que são conteúdos que influenciam a nossa forma de viver e pensar, mas estão além da consciência que deles temos.
Todos sabemos, ou pelo menos sentimos, que não vivemos apenas num território de materialidades manifestas. A nossa sensibilidade “pressente”, e não raras vezes até mesmo sente, a existência de uma dimensão que a nossa mente consciente não alcança, mas que projeta sua influência sobre nós de maneira inconteste. Sonhos, premonições, coincidências significativas e até fenômenos que atribuímos à sorte ou azar, ou à intervenções de forças sobrenaturais, estão nesse catálogo de forças desconhecidas que se escondem na parte mais profunda da nossa mente. Jung chamou a essas forças de Mundo dos Arquétipos, e o território onde eles habitam de Inconsciente Coletivo. Sua inspiração veio da filosofia de Platão, que entendia ser o mundo construído a partir de conceitos universais, oriundos do pensamento dos deuses, que seriam projetados na mente das pessoas e transformados em realidades aparentes.[1] Jung aproveitou esse conceito e o ampliou, trazendo-o para o terreno da pesquisa científica, mostrando que a qualidade de pensar, que distingue o ser humano das demais espécies animais é algo que transcende a biologia e invade um território que está além da nossa própria consciência. Tanto é, diz ele, que o pensamento não acontece conscientemente. Ele simplesmente ocorre. A consciência o organiza, mas não o gera. Por isso é impossível “não pensar”.
A linguagem figurada
Quanto mais sensitiva é uma pessoa, mais a sua mente está conexa com esse mundo dos arquétipos de que fala Jung, ou espiritual como querem os místicos. O problema é que a sensibilidade de uma pessoa não é proporcional à sua capacidade de linguagem. Se fosse, poderíamos comparar Einstein com Nostradamus e Jung com qualquer xamã de tribos americanas ou africanas sem qualquer temor de estamos desqualificando uns e elevando outros. Na verdade, o que distingue uns dos outros é o conteúdo existente nas suas mentes, e este, como vimos, é limitado ou ampliado pela sua capacidade de entender as informações que ele tem, porque estas, por sua vez, dependem da sua capacidade linguagem.
Por isso, como bem assinala Jung, quanto mais primitiva é a civilização, mais influenciada pelo inconsciente ela é. Daí o glossário de superstições, mitos, arquétipos e crendices ancestrais que estão na base da sua cultura. Nelas, o mágico e o transcendente afloram com mais força e fluidez do que nas chamadas “civilizações científicas”.
A consciência do cientista, quando quer expressar a sua sabedoria usa uma linguagem figurada composta por números, diagramas, gráficos e termos técnicos deduzidos das suas pesquisas e das relações que o fenômeno pesquisado tem com alguma realidade já catalogada e por ele conhecida. Por isso é tão difícil ao cientista, com a sua mente racional e positivista, aceitar a existência do mundo espiritual e de outras realidades metafísicas que ele não consegue medir nem captar nos aparelhos do seu laboratório.
Esse sempre foi o grande tormento dos pesquisadores que se aventuraram pelo mundo da mecânica quântica, do inconsciente do ser humano, da espiritualidade e da paranormalidade. Os resultados obtidos com a pesquisa do mundo quântico estão aí para provar a sua utilidade e importância. Smartfones, viagens espaciais, computadores, microprocessadores, lasers e outros implementos de alta tecnologia são alguns desses resultados, mas as bizarrices do comportamento que a energia apresenta, quando vista em suas estruturas mais íntimas, ainda assombram muitos pesquisadores que não conseguem admitir que estão batendo nas portas de um mundo que eles não conseguem admitir a existência. Por outro lado, exploradores mais ousados como Carl Gustav Jung, que ousou descolar o estudo da mente humana das suas raízes cartesianas e positivistas ainda hoje causam desconfiança em muitos profissionais da área, da mesma forma que Joseph Banks Rhine (1895 —1980), botânico americano, ousado pesquisador dos fenômenos paranormais relacionados com a mente humana, criador da parapsicologia, nunca foi reconhecido como verdadeiro cientista, apesar de todos os resultados positivos que obteve em suas pesquisas.
O coração espiritual
Esse é o grande problema do chamado conhecimento oculto. O que a consciência não consegue determinar, face à insuficiência da linguagem que a espécie humana ainda tem, o inconsciente registra; e quando precisa revelar, ele o faz na forma de símbolos, imagens, neuroses, sonhos e comportamentos estranhos, catalogados, muitas vezes, como esquizofrênicos ou psicóticos, mas que, na verdade, são apenas respostas inconscientes que não foram filtradas pela mente consciente do indivíduo.
Imagens falam mais do que palavras. Por isso os grandes mestres espirituais, em todos os tempos sempre transmitiram suas mensagens na forma de símbolos, metáforas, alegorias e outros recursos linguísticos que se comunicam melhor com o inconsciente do que as palavras, que é a linguagem que a nossa mente usa para codificar o conhecimento.
É nesse sentido que produções culturais que se utilizam de uma linguagem simbólica para transmitir suas mensagens, como o Taoísmo e a Cabalá, por exemplo, já foram taxadas por muitos críticos positivistas como simples arroubos mentais de pessoas com consciências alteradas. Nesse sentido eles classificam essas manifestações do espírito judeu e chinês no mesmo catálogo onde encontraríamos a poesia surrealista, pois como ela, trata-se de uma experiência que explora o inconsciente humano para dele extrair conteúdos que podem assumir qualquer significado que a razão queira conceber.
Da mesma forma, em grau maior ou menor, todos os escritos sagrados poderiam ser classificados nesse rol. Nem a Bíblia hebraica, ou os escritos do Novo Testamento e as obras dos grandes santos da Igreja Católica e dos místicos de todas as tendências escapariam dessa classificação.
O que os positivistas não conseguem aceitar é o fato de que as verdades espirituais existem e nós não conseguimos entendê-las por que não temos linguagem suficiente para isso. Porque para entender e sentir ― e sentir é mais importante que entender ― é preciso ter um “coração espiritual” mais do que uma razão lógica.
E por isso os mestres espirituais de todos os tempos, cientes dessa dificuldade, preferiram colocar suas mensagens, ora numa linguagem ideográfica, própria dos seus alfabetos, como é o caso dos escritos da Cabalá, do Taoísmo e da religião hindu, ou numa linguagem metafórica como é o caso de muitos livros da Bíblia Hebraica e Cristã, ou do Alcorão, cabendo ainda, nesse escaninho, o Zaratustra de Nietzsche, que supõe-se ser uma glosa da filosofia do famoso mestre espiritual persa, feita pelo irascível filósofo alemão.
Mas como sabemos, toda razão carrega um forte componente de idiossincrasia. Porque a nossa mente distorce, cancela ou generaliza boa parte das informações que os sentidos lhe manda. Ela faz isso para amoldá-las ao conhecimento que já temos, para proteger a nossa saúde neurológica ou até para que a nossa mente se mantenha focada naquilo que mais nos interessa. E ao submetermos ao crivo da razão um escrito de natureza esotérica, hermética, carregada de misticismo, a tendência é sempre aplicar a ele um desses filtros conformadores, o que acaba nos dando um resultado muito pobre em termos de espiritualidade.
A proposta deste trabalho
O presente trabalho faz uma incursão pelos labirintos do pensamento taoísta, cabalista e hindu, para revelar os paralelos que esse pensamento mantém com modernas concepções filosóficas, psicológicas e da física quântica, quando vistos pelos olhos do “coração espiritual” ao invés dos olhos da razão. E para aquele que estranhar essa proposição nós o remetemos aos ensinamentos de Jesus: ²¹ “Naquela mesma hora se alegrou Jesus em espírito, e disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste às criancinhas; assim é, ó Pai, porque assim te aprouve.” Lucas 10:21
Porque só a humildade de quem não está cheio com a sua própria sabedoria consegue desenvolver um coração espiritual. Jesus computa essa qualidade aos pequeninos porque ele compara a humildade do verdadeiro sábio com a criança que nada sabe e por isso está pronta para aprender. Já aquele que está cheio da sua própria razão não tem espaço para receber outros ensinamentos. E para ele fica difícil entender qualquer outra sabedoria que não se encaixe nos conceitos que ele já tem. Por isso encontraremos em todas as doutrinas místicas o anelo pelo esvaziamento do ego para poder receber a sabedoria que lhe é ministrada. Tanto no Budismo, como no Taoísmo e no próprio ensinamento de Jesus encontramos esse pressuposto: “O reino dos céus é como um tesouro escondido em um campo. Certo homem, tendo‑o encontrado, escondeu‑o de novo e, então, cheio de alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo. ― O reino dos céus também é como um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou.”
Essa parábola de Jesus pode ser comparada ao ensinamento Zen contido no conto da cerimônia do chá, em que o mestre convida o discípulo para tomar chá com ele e começa a encher a xícara do discípulo, enquanto pede para ele relatar tudo o que já aprendeu sobre o zen. O discípulo deitou a falar e o mestre continuou enchendo a xícara. Quando ela transbordou e o chá começou a molhar o tatame, o discípulo disse ao mestre. Mestre: o Senhor não percebeu que a xicara já está cheia? O mestre respondeu. Exatamente: como você espera aprender o zen se você já está cheio com a sua própria sabedoria?
O que se propõe aqui é exatamente isso: uma leitura com o coração. Porque o que uma pessoa pensa e fala é apenas o resultado da sua percepção particular. Mas o que ela sente é muito mais do que ela consegue entender. Nenhuma língua tem palavras suficientes para cobrir os significados que só o coração consegue abarcar. Que ninguém se preocupe em entender, pois como diz o Zhoar “ (...) cada homem só pode unir seu espírito ao espírito de sabedoria tanto quanto permite a vastidão do seu próprio espírito. E todo homem deve aprofundar seu próprio conhecimento de Deus tanto quanto lhe permita sua própria compreensão. Mas a Essência Divina deve permanecer um mistério profundo”.[2]
Como bem salienta Jung, “quem perde sua crença no sobrenatural, mata a sua própria alma; os ateus são pessoas que renunciaram à sua própria alma em troca de informações trabalhadas. Nós nunca nos libertaremos das nossas raízes transcendentais(arquetípicas) a não ser que queiramos pagar o preço de uma neurose, da mesma forma que nunca teremos um corpo infenso à dores, a não ser cometendo suicídio.”
O corpo morre, mas o espírito permanece. A não ser que nós mesmos o matemos por inanição, que é a recusa em alimentá-lo com as luzes da sabedoria.
(O LIVRO DE ZOROBABEL- A MAÇONARIA FILOSÓFICA E ESPIRITUALISTA) - NO PRELO PARA PUBLICAÇÃO
[1] Ver nesse sentido, A República, de Platão
[2] Ariel Benson- O Zhoar pg. 87