João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


AO VENCEDOR AS BATATAS

 

É muito interessante observar que o tempo passa mas a mente humana continua a ser informada pelos mesmos arquétipos que orientaram os nossos mais antigos ancestrais. Só a forma de aplicar esses conceitos arquetípicos mudam, pois as técnicas se aprimoram com o exercício das experiências e com os resultados obtidos.

É principalmente na política que esse pressuposto pode ser observado com mais clareza. A arte da guerra, que Alexandre da Macedônia soube aplicar tão bem, e Sun Tzu e Nicolau Maquiavel transformaram em clássicos do pensamento estratégico, pode ser observada tanto no comportamento de Napoleão, quanto de Hitler e Donald Trump, cada um nas suas aplicações e objetivos, que podem ser diferentes, mas na essência, são informados pelas mesmas fontes: a aquisição de poder como única fórmula de sobrevivência num mundo onde a competência é garantia de boa vida e a incompetência é sinônimo de extinção.

No campo das ideologias é possível observar a ocorrência do mesmo padrão. Não foi Marx quem inventou a luta de classes e a ideologia das esquerdas, nem Adam Smith o criador do capitalismo selvagem. Ambos os conceitos já faziam parte do glossário arquetípico que informa o espírito humano desde que o primeiro homo sapiens descobriu que podia acumular capital através dos produtos que fabricava e trocá-lo pelo trabalho de outros homos, não tão sapiens, que não tinham a mesma habilidade.

E desde então tudo seguiu na mesma linha: capitalistas e trabalhadores desenvolveram a  a sociedade moderna num acordo necessário, embora não tão tácito, e até hoje ela funciona assim. Cada um oferece ao mercado o produto que tem e o valor que eles assumem depende de quem tem o poder para valorá-lo.

Quando Karl Marx escreveu o seu clássico Miséria da Filosofia, em 1847, ele estava fazendo uma crítica ao pensamento do então seu amigo Pierre-Joseph Proudhon, dito socialista utópico, que defendia a ideia de que a estabilidade das relações entre o capital e o trabalho poderia ser alcançada de forma pacífica através de negociações racionais entre capitalistas e trabalhadores. Marx pensava de modo diferente e como se sabe, suas soluções para esse conflito eram mais radicais.  

Proudhon acreditava que essas relações alcançariam um equilíbrio natural e num futuro próximo, quando as classes obreiras conseguissem se organizar melhor, elas poderiam pressionar, com sucesso, os detentores do capital em busca de um padrão de igualdade mais justo. Dessa forma, a própria dinâmica social corrigiria as injustiças.

Marx achava essa ideia utópica pois ignorava, não só as condições concretas em que as pessoas viviam e as próprias informações arquetípicas que formatam o espirito humano, ou seja, que não há no homem um espírito de justiça nato, mas sim uma propensão à sobrevivência e à busca do prazer, que se traduz num egoísmo próprio que só se satisfaz com a ideia do sucesso e a propensão a um consumo cada vez mais suntuoso.  

Para Marx, não existia filosofia neutra em uma sociedade que é desigual já pelos próprios princípios sobre os quais ela é fundada. Todas as estruturas sobre as quais ela se apoia são atravessadas por relações materiais. Em outras palavras, o que poderia ser chamado de espírito, em termos de sociedade, nada mais é que a superestrutura que ela formata para lhe dar sustentação, qual seja, o direito, a economia, a política, a filosofia, ou seja, a forma de pensar e garantir o poder a uma determinada classe social.

Da mesma forma que é utópico pensar que as relações entre trabalho e capital encontrarão, pacificamente, um ponto de equilíbrio um dia, também é pura utopia achar que a pobreza será superada pelo mero aumento da riqueza social, através de um incremento no PIB de um país. Isso é o que pensam os defensores das políticas da direita radical, que veem no exercício do capitalismo puro e na minimização da presença do estado a solução para todos os problemas de um país.

As pessoas não são iguais ao nascer. A ideia de uma tábula rasa (uma mente que se forma a partir das experiências que se vive) gerou a crença de que as desigualdades observadas entre as pessoas são de exclusiva responsabilidade delas. E que o sucesso de umas é resultado de mérito pessoal ao passo que o insucesso de outras também é fruto das sua própria incompetência. Quem assim pensa não computa nessa análise as suas próprias histórias de vida nem as condições em que ela ocorre. Não se dá conta que há fatores biológicos, psicológicos e históricos que conformam a nossa história de vida e que o self made man é um arquétipo gerado pela necessidade humana de justificar as vantagens que obtiveram na vida. E que enquanto a vida humana for impulsionada pela necessidade de evitar a dor e sentir prazer, o Ego será o nosso guia e a ambição o motor que nos fará sair da cama pela manhã e fazer tudo o que fazemos para a ganhar a vida da melhor maneira possível. E enquanto essa for a motivação do homo sapiens, haverá senhores e escravos, suseranos e servos, capitalistas e trabalhadores, quem manda e quem obedece e aí por diante.

As estruturas de um Estado e as políticas públicas de um governo são organizadas justamente para tentar encontrar um ponto de equilíbrio nesse processo. É pura idiotice esquerdopata achar que a ambição humana pode ser escanteada nesse processo. Jamais um sistema comunista puro, onde tudo seja regido pela máquina do Estado prevalecerá. Países podem se organizar política e economicamente com mais ou menos interferência estatal, mas nunca sem ela e muito menos alijando as ambições do indivíduo. Da mesma forma, a crença dos radicais de direita que pensam em reduzir a intervenção estatal a uma mera presença simbólica é um delírio que chega a ser patológico.

Como diz Jung, o problema não está nas estruturas psíquicas que os arquétipos nos inspiram mas sim na ignorância que nós temos acerca dessas informações. Porque quem acredita que uns são ricos porque merecem e outros são pobres porque querem, também poderão acreditar que Deus tem preferências por um ou por outro povo. E também jogarão bombas nos seus adversários pela promessa de entrar num paraíso onde serão servidos por setenta virgens

E se perguntados por que acreditam nisso responderão com aquela frase do personagem de Machado de Assis: Ao vencedor as batatas.

 

 

 

João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 21/04/2026
Alterado em 21/04/2026


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