Quando Adam Smith escreveu seu famoso ensaio sobre as razões que faziam as nações se tornarem ricas, publicado em 1776, a Inglaterra havia se tornado a principal potência econômica do mundo e o maior império colonial da terra. Suas especulações tinham o endereço certo: objetivava demonstrar que o capitalismo sem fronteiras e sem controle era o motor do desenvolvimento e o principal motivo pelo qual algumas nações se tornam mais poderosas do que as outras.
Smith pregava que a ambição humana era uma coisa sadia e não devia ser controlada. Que o homem, na ansiedade de acumular riqueza estava realizando o bem estar geral, porque “uma mão invisível” guiava os capitais para onde se precisava dele, e assim o desenvolvimento acabava sendo uma coisa natural que acabaria beneficiando o mundo de maneira geral.
É claro que suas teorias não foram elaboradas como simples especulações filosóficas que surgem na cabeça de um pensador que observa as tendências naturais de uma sociedade e passa a descrever o que vê, pensa e sente. Ele tinha um objetivo bem definido, que era o de justificar o domínio que os britânicos exerciam sobre o comércio mundial e a hegemonia econômica, política e militar que impunham sobre metade do mundo conhecido na época. Como se dizia então, no império inglês o sol nunca se punha, pois os ingleses tinham colônias nas duas metades do mundo e a sua vontade imperava para dois terços da população mundial.
Guardadas as condições de tempo e as novas relações de poder que hoje existem no planeta, é mais ou menos esse arquétipo que Trump e seus seguidores têm na cabeça hoje: o estabelecimento de uma nova hegemonia, onde uma potência manda e as demais obedecem. E como no tempo de Smith e do império colonial inglês, ele tem seguidores e imitadores pelo mundo inteiro. Gente que ainda acha que “mãos invisíveis” guiadas pela ambição de acumular, podem orientar a economia e equilibrar as necessidades sociais sem precisar de um governo para fazer essa regulação. Eles ainda acham que as vantagens comparativas que as nações apresentam para produzir este ou aquele produto são suficientes para equilibrar o fluxo das riquezas e proporcionar o bem estar para todos. Dessa forma o Brasil, a Argentina e outros países que ainda vivem da produção e do comércio de comodities, por exemplo, se tornariam uma espécie de celeiro do mundo, produzindo alimentos e trocando por artigos de tecnologia avançada.
Esse parece ser o pensamento de Milei, o aloprado presidente da Argentina, que tem a sua repercussão no Brasil dos Bolsonaros, Zemas e outros dinossauros da política tupiniquim, que parecem ainda estar vivendo nos dias de Adam Smith.
Zema, por exemplo, candidato a presidência do país, fala em permitir trabalho infantil, acabar com os programas sociais, estrangular economicamente os aposentados, privatizar todos os ativos estatais e por ai diante. Milei fez quase isso na Argentina. O resultado é esse que está aí. Uma recessão mais profunda do que a aquela que ele queria acabar com sua política ultra liberal.
Como diz Jung, a grande tragédia da humanidade é não reconhecer que os arquétipos que formatam a nossa estrutura psíquica precisam ser reconhecidos e integrados à nossa personalidade para que eles não se tornem um motivo de constrangimento psíquico ao invés de força motriz para o desenvolvimento dela. Nesse sentido, eles também estão sujeitos ao tempo e ás condições sociais dos momentos em que vivemos e não devem ser mantidos em nossa mente sempre com as mesmas identidades e aspirações. Quando isso ocorre, a nossa mente cai naquele estado que Nietzsche chamava de “eterno retorno”, ou seja um ciclo de vivências psíquicas que se repetem infinitamente, nos chumbando a uma roda que gira sempre num mesmo sentido.
O capitalismo selvagem que Trump, Milei, Zema e os radicais da direita defendem com tanta ênfase se justificava nos séculos XVIII e XIX mas, como acontece com todas as estruturas criadas pela mente humana para garantir a sua sobrevivência, colapsou na primeira metade do século XX com as duas guerras mundiais. Não há mais lugar para imperialismos mundiais nem ideologias que excluam contingentes inteiros de populações dos benefícios do desenvolvimento, com a desculpa de que uns são mais competentes do que outros e os que tem mais, tem por méritos próprios e os que tem menos, é por que são indolentes, ou no mínimo, incompetentes. Se quisermos justificar as desigualdades sociais teremos que achar um argumento mais palatável, mas não esse, que já vigorava nos tempos de Jesus (os pobres sempre os teremos conosco), e que foi justamente o motivo da queda da Roma, a grande potência da época.
Os dinossauros, como espécie biológica foram extintos, já os dinossauros ideológicos, como Zema e os que pensam como ele, ainda sobrevivem. Mas a hora deles também está chegando. Somos hoje mais de oito bilhões de pessoas vivendo no planeta e não é a ambição de uns poucos egoístas que se julgam escolhidos por Deus que vão conseguir mitigar as necessidades de tanta gente.