João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


A TRAGÉDIA DO RIO
 
É da índole humana a luta pelo poder. Isso porque, queiramos ou não, apesar de todo o esforço psicológico que fazemos para mitigar o desejo de dominar, não há espírito franciscano que seja capaz de eliminar por completo essa tendência no nosso comportamento. Ele decorre de um espírito de concorrência, que nos leva a ver, regra geral, o nosso próximo como um potencial concorrente aos recursos que permitem a nossa sobrevivência. Nesse sentido, o mandamento cristão que nos concita amar ao próximo torna-se um contra exemplo que só incidentalmente (quando nos interessa, ou surge a necessidade), é aplicado.
O equilíbrio social, como asseguram os teóricos do Contrato Social (principalmente Rousseau e Hobbes), é uma estrutura que se fundamenta nesse incidente fundamental. Nós só toleramos um Estado e um governo pela necessidade que temos dele. Sem eles tudo seria um caos, nos quais o próprio limite da individualidade de cada um seria violado diuturnamente. Estranho paradoxo esse, mas é assim mesmo que a coisa funciona: garantimos nossa parcela de liberdade com a renúncia de uma parte dela.
Temos então um conflito entre os direitos do indivíduo e os da sociedade, que por ignorância da maioria e esperteza de alguns, acabam sendo cozidos no mesmo caldeirão. É aí que surge o grande nó da questão: se a autoridade constituída existe para organizar o convívio entre os indivíduos dentro de uma sociedade, o que acontece quando um governo abdica dessa condição e permite que particulares, guiados apenas por suas ambições pessoais, se organizem para assumir funções que a ele cabe?
O Rio de Janeiro está vivendo um desses momentos. Desde a gestão de Leonel Brizola, o governo carioca vem abdicando de suas funções organizacionais, permitindo que grupos particulares, com interesses corporativos, e muitas vezes escusos, ocupem o seu lugar. Desde então, estruturas completamente estranhas à função pública tomaram conta de boa parcela do governo do Rio de Janeiro. Na falta de um governo institucional, milicianos, falsos evangélicos, traficantes e outros grupos organizados ocuparam o vazio deixado pelo poder oficial. E agora eles elegem governadores, bancadas nas Assembleias Legislativas, nas Câmaras Municipais e no Congresso Nacional, além de cooptar magistrados, funcionários públicos, policiais e praticamente todas as estruturas de poder. É difícil, senão impossível, apontar um único prefeito, ou governador carioca, além da grande maioria dos parlamentares, que não tenha sido eleito com o apoio dessa estrutura paralela de poder que tomou conta do Rio. Por isso, todos os governadores, e a maioria dos prefeitos que governaram o Rio até hoje, já foram presos ou acusados  de alguma falcatrua. 

Nessa conjuntura, ficou extremamente complicado desmanchar essa teia, que tem pontos de urdidura ligando umas às outras de  forma bem visível. Quem poderia dizer onde está a fronteira entre o poder do tráfico, da comunidade dos evangélicos de fachada e das milícias, no complicado esquema de poder que hoje domina o Rio?  Á vista disso, não é de se estranhar a tempestade de tragédias que tem se abatido sobre o bom povo carioca nos últimos tempos. Na ausência de governo, impera a corrupção, o desmando, a violência, o vale-tudo do “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. O resultado é o que estamos vendo. Depois que o caos toma conta de uma estrutura é difícil botar ordem nela. No caso do Rio, parece que até a natureza está completamente desvairada.

É feio chutar quem já está no chão, mas não podemos deixar de lembrar que a base política da Família Bolsonaro é exatamente o ambiente malsão que contamina a política carioca. Isso explica o que está acontecendo com eles. 

É uma pena. Com tudo isso, o Rio de Janeiro continua lindo, como diz o samba famoso do Gilberto Gil. Mas... 

 

João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 16/05/2026
Alterado em 16/05/2026


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