Andando lá pelos lados do Nordeste, peguei um motorista de aplicativo para me levar de Recife até João Pessoa. No caminho, conversando com ele, perguntei como estava a polarização política por lá. Isso foi antes da imprensa publicar as relações pouco republicanas que a Família Bolsonaro manteve com Daniel Vorcaro, o banqueiro responsável pela maior fraude financeira da história do país.
Ele me confessou que lá no Nordeste, Lula era soberano e ninguém ganharia dele. Indaguei sobre o motivo de tanta simpatia pelo atual presidente e ele falou “o Lula pode ser um ladrão, mas ninguém fez mais pelo Nordeste do que ele.”
Aí me lembrei da lenda do Robin Hood, o bom ladrão, que lá pelos lados da Inglaterra medieval tinha fama de tirar dos ricos para dar aos pobres. Para a elite inglesa da época, constituída de nobres e abastados comerciantes, que escorchavam a população ignorante e indefesa, além de bispos e padres que aterrorizavam o espírito dos pobres aldeões com suas arengas sobre pecados capitais, inferno e outras superstições que tiravam o sono deles, Robin Hood era um ladrão, um bandido, um fora da lei. Mas para o povo ele era um herói.
Lenda, mito ou personagem histórico, Robin Hood é um arquétipo cultivado por populações do mundo inteiro. Quase todos os países têm o seu. A América cultiva o nome de Jesse James, o México o de Emiliano Zapata, e aqui no Brasil até o cangaceiro Lampião já entrou nesse rol. Lula, pelo menos lá Nordeste, é o Robin Hood brasileiro, o que tira dos ricos para dar aos pobres.
“E o Bolsonaro,” perguntei ao motorista. “Nesse eu não voto nem para síndico do meu prédio”, respondeu ele com ênfase. “Por quê?” Perguntei. “Ele é o candidato dos ricos. É o homem dos banqueiros, dos fazendeiros, dos comerciantes abastados. Ele tira dos pobres para dar para os ricos. É o candidato da Faria Lima, dos bonitinhos de Copacabana, dos barões do agro negócio”.
E emendou, com uma lógica que eu jamais adivinharia numa pessoa da condição dele: “ Não é toa que os tais evangélicos neopentecostais estão com ele. Esses vigaristas de púlpito usam a palavra de Jesus para enganar os coitados que vão à essas igrejas em busca de uma solução para suas dificuldades e saem de lá mais pobres do que quando entraram.”
Como assim? Perguntei. “ Na Bíblia está escrito que Jesus disse que a quem mais tem mais será dado e de quem nada tem, o pouco que tem será tirado.” É é isso que esses vigaristas fazem. E dizem que estão fazendo o que a Bíblia manda.”
“Mas o que os Bolsonaros têm a ver com isso? “, perguntei. “Ele não é o candidato desses caras, tipo Malafaia, Edir Macedo, Crivella? E não botou no Supremo um magistrado “terrivelmente evangélico”? respondeu ele.
“Mas o Lula também botou no Supremo só gente dele,” argumentei. “É, mas entre um que rouba e distribui para quem precisa e outro que tira de quem precisa para dar para quem já tem muito, não dá para ter dúvida”, justificou ele.
Calei e não perguntei mais nada. Fiquei pensando no que uma crença arraigada faz na cabeça das pessoas. E como a mente dos brasileiros está contaminada por duas ideologias ancoradas em nomes de pessoas ao invés de programas de governo. Lula versus Bolsonaro. Robin Hood versus Tim Tones, aquele personagem do Chico Anísio. Não importa que um tenha fama de ladrão e o outro seja visto como um embusteiro oportunista, com fama de mafioso, que fez uma carreira ancorada pelo que de pior o movimento evangélico produziu até hoje. Isso sem contar as escusas relações que mantém com outras estruturas podres do poder, como essa que se revela no escândalo do Banco Master, além da suposta relação que dizem que a Família Bolsonaro mantém com milicianos.
Ao que parece, não será nas próximas eleições que iremos escapar dessa dicotomia irracional que tomou conta da mente do povo brasileiro. Mas é preciso não perder a esperança. Afinal, a esperança é o principal alimento das nossas ilusões.