Verdade nenhuma, nesse caso, podemos confirmar. Mas está registrado que os tais nefilins estavam por aqui nesses começos e ninguém sabe ao certo de onde vieram os seus ancestrais. Uns dizem que vieram de Marte, outros de Júpiter ou Saturno ou de uma estrela chamada Capela, ou Nibiru, cuja localização no mapa cósmico até hoje ninguém conseguiu determinar. Também se diz que eles vieram à terra à procura de minerais raros e que a população que aqui gestaram foi produzida para servir como escravos, operários ou funcionários para as operações de mineração, o que computamos como uma probabilidade bastante viável, considerando que as primeiras civilizações da terra registram mesmo uma estrutura social desse tipo, feita de senhores e servos, uns feitos para produzir e outros para consumir. Os próprios responsáveis pela viralização dessa narrativa registraram sua experiência nesse sentido ao informar que passaram quatrocentos anos no Egito como escravos dos nobres daquela terra, construindo os palácios e monumentos que ainda hoje são objetos de muita admiração.
Destarte, a possibilidade de que a tal população gerada pelos anjos caídos tenha sido gerada para tais fins é uma possibilidade bastante plausível, porquanto se sabe hoje o quão cobiçados são os minerais estratégicos que servem para a manufatura de aparelhos de alta tecnologia, como deveriam ser os “vimanas” (estranho nome que foi dado ás naves interplanetárias que para cá trouxeram esses colonizadores espaciais) e os avançados aparatos que eles usavam para se comunicar, que só agora estamos aprendendo a fabricar. Como estamos vendo atualmente, a disputa por essas tais “terras raras” tem dado motivo para tantos conflitos que não podemos descartar a possibilidade de que já nessas pristinas eras esse pudesse ser um assunto de interesse das potências da época.
As fontes mais primitivas dessas narrativas dizem que esses seres desembarcaram na terra como refugiados de uma guerra. Se essa for a verdade, foi certamente essa a informação que deu corpo à hipótese explorada nos registros canônicos. De qualquer modo, as duas hipóteses não são de descartar, e se não deixarmos o ceticismo administrar a nossa oficina de produtos psíquicos, podemos perfeitamente admitir que ambas as hipóteses se encaixam e dão ao caso uma aparência de verossimilhança que não podemos negar.
Admitindo como verdadeiras essas informações podemos compreender a preocupação de Elohim Deus com respeito ao que estava acontecendo na terra. Aqui, como se pode inferir, uma civilização estava sendo desenvolvida à sua revelia e por não o conhecer nem saber que ele era o Criador de tudo que existia no universo, não lhe dava a mínima importância. Pode-se imaginar como isso o incomodava, pois uma coisa é ser desconhecido, outra é ter a própria obra usurpada por um traidor. Ou no caso de um mundo, como o que ele havia feito, a coisa toda parecia como se ele tivesse arrumado uma cama para outro se deitar nela.
Diga-se a bem da verdade, que esse era um problema de natureza política que todo monarca absoluto, cedo ou tarde, acaba por ter que enfrentar. Elohim Deus havia feito o universo e nele espalhado miríades de estrelas e planetas, uns habitados, outros não, conforme uma necessidade estratégica que só ele conhecia e orientava. E num desses planetas, o terceiro que orbitava em volta da estrela chamada Sol, algumas das sementes de vida que ele lá plantara já estavam num estágio bem avançado de evolução, muito próximas do que hoje nós conhecemos como seres humanos.
Essa, talvez, fosse sua estratégia inicial. Ele deu surgi- mento ao fenômeno da vida para que ela se desenvolvesse em um processo contínuo de evolução, Isso, segundo diz quem acha que sabe, começou a cerca de três bilhões de anos atrás, pelas nossas medidas, com a combinação de moléculas formadas por átomos, as quais deram origem aos organismos.
Um desses organismos, também por força de alguma combinação atômica nele processada, deu origem à espécie humana, num estado ainda primitivo de evolução. Nossos primitivos ancestrais, dizem, não sabiam falar nem tinham consciência de si mesmos.
Mas então aconteceu aquela guerra a qual os cânones sagrados se referem. Samael e seus seguidores brigaram com Elohim Deus Pai e foram expulsos da dimensão celeste. Essa foi a justa sentença aplicada aos anjos golpistas, mas ao desterrar para a terra os opositores do seu governo ele precipitou o desencadeamento de um processo que viria a ser a grande preocupação da sua eterna existência.
Pois a verdade é que o seu poder no planeta que ele havia escolhido para realizar a sua mais importante experiência, o desenvolvimento da matéria viva, estava sendo usurpado pelo rival e ele não estava gostando nada do que estava acontecendo nessa parte do seu reino. Por isso ele disse a Miguel, o elohim que era seu o seu legítimo filho, aquelas palavras que estão escritas nas crônicas oficiais que relatam o evento: “façamos um homem à nossa imagem e semelhança, para que ele domine sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais da terra, incluindo os demais seres da sua própria espécie, porque (inferência nossa) se não o fizermos, o seu irmão rebelde, que já está trabalhando para isso, vai acabar tomando o nosso lugar”.
Ao que Miguel respondeu: “Assim seja, meu Eterno Pai, mas se posso dar uma sugestão, acho que deveríamos fazê-lo hierarquicamente um pouco menor do que os seres que habitam a dimensão espiritual e um pouco maior do que os que vivem na dimensão material, incluindo os da sua espécie, que já chegaram num estágio de evolução bastante próximo do que precisamos.”
“Explique isso” pediu Elohim Deus, que não tinha captado o sentido da sugestão.
“Se o que nós queremos é que esse nosso espécime seja um contraponto à raça maldita que Samael está espalhando pelo planeta, devemos dar a ele qualidades que sejam diferentes daqueles que os descendentes do meu irmão rebelde estão produzindo. Alguém que tenha em sua própria consistência os atributos de uma humanidade civilizada e pre-
disposta ao bem. Não podemos esperar que a espécie que escolhestes para evoluir amadureça para adquirir, por ela mesma, consciência de si mesma e da nossa existência, pois como já percebestes, a espécie produzida por Samael já está bem adiantada nesse sentido e atropelou o processo de uma evolução gradativa e ordenada, conforme era o vosso plano.”
Elohim Deus pensou e achou as sugestões de Miguel bastante ponderadas. “Tens razão, Miguel. Não podemos continuar com esse plano de evolução gradativa e controlada pelas leis naturais. Precisamos de uma emergência descontínua nesse processo, uma intervenção que faça a espécie que nós escolhemos para ser o nosso reflexo na terra avançar na sua evolução sem esperar o tempo de maturação que havíamos previsto.”
“Exatamente, meu pai” disse Miguel. “ Assim como Samael e seus seguidores fez ao chegar na terra, podemos fazer também, e muito melhor. Vamos dar a uma das criaturas dessa espécie a qualidade de pensar e comunicar os seus pensamentos aos seus descendentes para que ele possa criar uma civilização como a que Samael está desenvolvendo. Ele deixará de ser um animal para se tornar um ser humano, um pouco menor do que os anjos, mas dotado de honra e glória. Terá todos os atributos que concedestes aos anjos, mas sem a prerrogativa de analisar e julgar seus próprios pensamentos, para que ele não se arrogue muita importância e comece a achar que é dono do próprio nariz”.
“ Bem pensado” disse Elohim Deus Pai. “Vamos fazê-lo menor do que os anjos e dar a ele todos os atributos que seus irmãos celestiais possuem. Que ele tenha todas as virtudes que fazem uma criatura quase perfeita, mas desprovida da consciência de si mesmo e do dom da imortalidade. Ele deve ser bom, piedoso, compassivo, amoroso, solerte, corajoso, pleno em vigor e longevidade. Mas não pode se constituir em árbitro de si mesmo, nem deve ter a inteligência do bem e do mal e a possibilidade de viver para sempre.”
“É isso, meu pai. Porque se ele tiver a inteligência do juízo, cedo ou tarde vai querer julgar a si mesmo e deixará de submeter-se à nossa tutela. Nós estamos fazendo o homem para ter, na terra, alguém com quem possamos nos comunicar. E para que ele espalhe a notícia do poder e da majestade a que vós, como único e eterno Criador do universo tem direito sobre toda a Criação. Se o homem tiver a noção do que é o bem e o mal, vai tomar para si mesmo o poder de decidir o que deve e o que não deve fazer. E se ele tiver esse poder, por que precisará de nós para guiá-lo em suas ações?”
“Além disso” continuou Miguel, “se lhe dermos o dom da imortalidade, como poderá ele cumprir a missão que estamos lhe confiando, que é multiplicar-se e encher o planeta, e quem sabe, o restante do universo, com os seus descendentes? Se ninguém morrer para que outros possam nascer, em pouco tempo não haverá, no mundo todo, lugar para que ninguém possa pôr o pé.”
“Realmente. Bem ponderadas as vossas razões, meu filho”, disse Elohim Deus Pai. Ele coçou a imensa barba e disse: “O homem não pode ser o detentor da noção do que é o bem e o mal e muito menos ser imortal. Vamos fazê-lo belo como um anjo e conceder-lhe muitos anos de vida, mas que ele viva inocente como uma criança que acaba de nascer e ao fim de uma longa existência, volte à fonte de onde foi tomado. Nele refletirei todos os atributos da minha personalidade. O homem será como um rio eterno que sempre fluirá, não com as mesmas águas, mas sempre com a mesma essência. Eu lhe darei os meus atributos de bondade, piedade, sinceridade, compaixão, virtude, justiça e perfeição em pensamentos e atos, como eu mesmo sou. Através dele todo o mundo me conhecerá por esses atributos e não por qualquer outra qualidade que esteja agasalhada no meu poder. E dessa forma ele poderá dar a todo o universo o conhecimento da minha existência e do meu poder e ser o contraponto daquela raça maldita que seu rebelde irmão Samael está espalhando pelo planeta. Pois dele os atributos do mal já foram inoculados na espécie humana e eles não poderão ser extraídos sem eliminar a própria espécie. Isso eu não quero fazer, pois teria que desistir de todo o meu projeto para o mundo que criei. Por isso vamos combatê-lo com o seu oposto, que é o bem.”
E nessa conformação foi feito o homem Adão. Essa foi a forma do homo sapiens. Á imagem e semelhança dos anjos, que, por sua vez, foram moldados à imagem e semelhança do próprio Elohim Deus Pai. Não na sua forma física, porque essa ele nunca a teve, mas sim nos seus atributos de qualidades e virtudes. Destarte, Adão foi feito porque no mundo ainda não existia ninguém que soubesse que existia um Criador e que tudo havia sido feito por ele. Porque entre aquelas criaturas que haviam sido geradas da semente de Samael, o anjo caído, fora ensinado que tudo que tivesse força e competência para influenciar a vida na terra tinha atributos de divindade. O sol com a sua luz benfazeja e o seu calor que dava e tirava a vida; o fogo com seu poder transformador e destruidor; a água, sem a qual nenhuma vida é possível; o vento com sua força descomunal; a terra com a sua capacidade de decompor e recompor a vida de uma semente. Todas as forças da natureza tinham registro no imaginário daqueles seres como sendo deuses que deviam ser reverenciados. E dessa perspectiva nasceram os deuses antigos, cada qual com seus respectivos nomes.
Criaturas e animais, pela força e pelo poder que exerciam eram deuses. Cada um com seus atributos e territórios de jurisdição. Deuses que reinavam sobre a água e sobre o fogo; sobre a terra e sobre o mar; divindades que controlavam os ventos e as chuvas. O amor e o ódio. Os vivos e os mortos. Deuses com milhões de nomes e atributos.
Mas ninguém sabia quem era o Deus Criador de todos os deuses porque sendo Ele o detentor de todos os poderes nenhum outro poderia ter existência independente dele. Elohim Deus Pai, o Ser Supremo, autor de todas as coisas, se sentia uma criatura ignorada, só e injustiçada. Ele era alguém que existia e não existia porque ninguém sabia que existia, uma vez que a existência só se torna manifesta na presença de uma consciência que a detecta e identifica.
Destarte, Elohim Deus Pai havia feito o mundo justamente para dar notícia da sua existência. Antes disso ele era como uma presença imanifesta, algo assim como um espírito sem matéria para encarnar. Daí que, cansado de uma existência negativa que se mostrava sem sentido nem propósito ele resolveu se manifestar numa existência positiva e o resultado foi o que conhecemos como universo material.
Quando ele manifestou a sua potência gerando o universo real, Elohim Deus queria se tornar conhecido pelos seus atributos. Ele tinha todas as qualidades que especificam o seu poder, mas como ninguém sabia disso de nada lhe servia a posse de toda essa arquetipia.
Porque de nada adianta ser bom se ninguém há para dar testemunho da nossa bondade; de nada serve uma força se não há sobre o que se aplique; de pouco vale uma justiça que não tem nada nem ninguém para julgar; e um poder que ninguém sabe que existe nada pode, assim como é inútil uma luz que não tem trevas para iluminar ou um navio que não tem mar para se dar ao largo, nem uma beleza sem olhos que a contemple.
Analogicamente, Elohim Deus Pai era algo assim. Antes de manifestar a sua existência no universo da existência positiva ele era como um rei sem reino, um monarca sem súditos que se sentava no trono da sua magnificência resplandecente sem que nada, nem ninguém houvesse para reconhecer a sua majestade. Então ele disse para si mesmo: “Farei o universo para ter um reino sobre o qual reinar; porei nele criaturas que me sirvam por súditos e que possam me identificar pelos meus atributos. Porque eu sou bom, compassivo, justo, fiel, generoso, sábio, belo e quero que todas essas minhas qualidades sejam conhecidas e exaltadas. Eu tenho todo o poder e quero exercê-lo. Construirei, pois, um reino para que nele eu possa exercer o meu poder.”
Para fazer isso ele concentrou toda a sua energia numa pequenina esfera de pouco mais de três centímetros de diâmetro, encheu o peito e gritou: Eu Sou...! E a força da sua imensurável potência, expressa nesse verbo copulativo, se manifestou numa inexprimível explosão luminosa que transformou aquela pequenina esfera carregada de energia em um espaço de dimensões infinitas que está sendo preenchido por centelhas da sua potência, instante a instante, na medida em que a luz dessa mega explosão o vai ocupando.
Dessa forma, Elohim Deus Pai fez o céu, a terra e todas as coisas e criaturas que conhecemos como sendo o conjunto que forma o universo real, como está escrito que foi feito.
E já durava quatro dias cósmicos esse trabalho estafante que ele havia começado. Nesses quatro dias, que podem ser contados como bilhões dos nossos anos terrestres, ele havia separado a luz das trevas, as águas de cima, que são os elementos mais fluídos dos quais tudo que hospeda vida é feito, tais como carbono, oxigênio e hidrogênio, das águas de baixo, que são todos os demais elementos que dão a condição necessária para que a vida se forme. Das águas de cima, que são esses elementos gasosos, que ele chamou de firmamento, ele tirou as águas de baixo, que são os nutrientes da vida e assim entenda-se essa estranha locução que encontramos nas crônicas oficiais. E a terra foi escolhida por ele como laboratório para realizar a sua experiência mais importante: a geração da vida.
Nessa toada tinha ele feito aparecer na terra a parte seca, que são os continentes e as ilhas, isolando-a da parte aquosa que são os chamados mares e oceanos. E também já havia provido a superfície do planeta com uma capa verdejante feita de matas e florestas, cujas plantas eram dotadas das sementes que garantiriam a perpetuação de cada espécie pelo tempo em que a própria terra durasse. E no quarto dia, como está escrito, ele mandou o sol capturar a terra e prendê-la em sua órbita, como todos os corpos maiores fazem com os menores no espaço cósmico. Assim ele fez para garantir que a terra pudesse reunir as condições para incubar a vida, dotando-a de equilíbrio gravitacional e calor apropriado. E disse para a terra fazer o mesmo com a lua para que ela servisse como estabilizador climático fundamental para ela, regulando a atração gravitacional do seu eixo de rotação e suavizando mudanças climáticas, impedindo variações extremas.
Destarte, o sol passou a dar medida para o dia e a lua medida para a noite. Assim está escrito que ele fez, conquanto sejam muitas as contraditas que se levantam sobre essa narrativa já que há quem sustente, com muita ênfase, que a terra nada mais é do que um pedaço de rocha incandescente que se desgrudou do Sol, da mesma forma que o é a lua e os demais planetas que orbitam em volta dele. Nessa controvérsia não meteremos a nossa colher porque o que com ela vem é sempre de difícil digestão e o que ao estômago ofende, com o cérebro não faz amizade.
Fiquemos, pois, com a imagem oficial dessa narrativa e digamos que para corolário dessa obra magistral que ele havia realizado, Elohim Deus Pai colocou na abóbada celeste uma miríade de estrelas, cuja função ainda não sabemos definir, mas que certamente alguma utilidade tem porquanto é sabido que ele nada faz que não seja com um propósito.
"Tudo isso é muito bonito" disse Miguel, o seu primogênito, também conhecido como Elohim Deus Filho. “Mas nada disso serve ao vosso propósito, meu Pai. Terra, ar, fogo, vento, água, estrelas e plantas, nada dessas coisas que fizestes vos darão reconhecimento. Elas não têm consciência. Vossa potência estará nelas, porque dela elas são feitas, mas os vossos atributos elas não refletirão. Podeis dizer que a luz é boa, que a água é útil, que as estrelas são belas, que o fogo e o ar são necessários, mas de nada servem para o vosso propósito porque elas não têm consciência da vossa existência.”
E mais uma vez Deus Pai ponderou: “Tens razão, Miguel. Aliás, sempre a tens. Não é à toa que és meu filho dileto, em quem deposito toda a minha complacência. Agora que a terra já tem forma, já tem medidas para os dias e as noites e todas as condições para que nela floresça a vida, ela não pode mais ficar vazia. Farei com que ela produza organismos que se reproduzirão segundo suas espécies ― felinos, equinos, primatas, répteis, insetos, aves, peixes e todo tipo de criatura que hospeda vida em suas estruturas ― para que eles povoem todo o planeta e sejam resultado do meu poder criativo.”
“Isso sim, meu Pai” disse Miguel. “Um mundo sem vida é como algo que não existe, pois somente a vida pode conter a existência.”
E assim ele fez. E como está escrito, Elohim Deus Pai viu que tudo isso era muito bom e sentiu orgulho da obra que fizera. Tudo pode ser. Afinal, sendo o Ser Supremo, tudo ele pode fazer, mesmo usando os métodos mais bizarros que se possa imaginar, como aquele pelo qual os relatos canônicos nos fizeram crer que a Criação começou. Deus sabe o que faz, e quem duvida do que ele fez não sabe o que diz, embora os que dizem sempre se arroguem estar na posse da verdade.
O que podemos extrair dessa narrativa é que nada obsta que a Criação tenha mesmo começado assim, com um passe de mágica, como aqueles que são feitos por um prestidigitador que pega uma bola de cristal, faz brilhar dentro dela uma luz e ela vai preenchendo a escuridão do vazio que existe dentro dela, o qual vai se transformando em coisas com massa e forma. Porque é assim que se diz que o universo foi feito, segundo os cânones oficiais. No princípio, nada, exceto o espírito de Deus, fosse ele o que fosse, existia. E ele pairava sobre as águas. As águas, que aqui pensando, podemos tomar como sendo a sua própria energia em suspensão, esperando a manifestação da sua vontade para tomar forma.
E então ele disse: “haja luz” e segundo está escrito houve luz. Essas palavras podemos acreditar que de fato Deus tenha pronunciado porquanto sabemos que a luz é um tipo de onda, ou partícula eletromagnética visível que é formada pela propagação de um campo elétrico e um magnético. E se, como pensamos, Deus é pura energia, como tal, nada impede que ele tenha promovido em si mesmo uma mudança de estado, fazendo essa potência transformar-se em luz e usá-la como veículo para preencher o espaço cósmico com centelhas da energia expulsa pela sua magna explosão de vontade.
Também dito está que ele viu que a luz era boa e a separou da escuridão. E desde então o universo começou a ser preenchido como se fosse uma bexiga pintalgada de pontinhos brilhantes que a cada soprada da boca divina vai se tornando cada vez maior e mais densa em seu interior.
Assim, convenhamos, fica mais fácil imaginar como se iniciou esse curioso drama da Criação. Deus, o Espírito Supremo, exerce uma vontade que se manifesta sobre as suas próprias potencialidades e cria o universo, da mesma forma que um sujeito de vontade poderosa, como um Alexandre Magno, Júlio César, Napoleão ou Gengis Kan, se manifesta a partir da sua e cria impérios. Essa é uma analogia válida para esse caso, tanto que esses homens acabaram sendo venerados como deuses entre seus povos. Todos os grandes impérios são construídos por uma vontade poderosa e do universo não se pode dizer que tenha sido diferente. Assim nasce toda a arquetipia que dá vida à nossa vida.
Destarte, foi depois de ter criado o universo da matéria bruta que Elohim Deus Pai, segundo as crônicas oficiais, ou por proposta do seu filho dileto, o elohim Miguel, como imaginamos que possa ter sido, que ele percebeu que tudo era bom, mas faltava alguma coisa para dar sentido a tudo que ele criara.
Essa coisa era a vida. A vida que se reproduz e dá continuidade a si mesma. A vida que justifica a existência de todas as coisas, porque sem ela nada do que existe tem sentido ou necessidade. E foi então que ele resolveu preencher a realidade manifesta com criaturas que hospedam em si mesmas as qualidades da vida e a capacidade de transmiti-las na forma de descendências. E nessa mesma esteira de execução e finalidade, bem mais tarde, como vimos, ele precisou fazer o homem na forma pela qual estamos supondo que foi.
Dessa forma, dá-se sentido a um projeto que parece não ter rumo nem finalidade. E um pontapé no escroto de quem pensa que tudo isto saiu do nada.