CARTA A NEFTIS
Cara Neftis
Quando você estiver a caminho para se encontrar comigo, por favor, ande devagarinho.
Eu não estou nem um pouco ansioso para vê-la.
Pare pelo caminho, aprecie a paisagem, entre em um boteco, tome uma cerveja.
Há tantos por essa longa estrada em que você caminha. Talvez você se encante com a paisagem e resolva ficar por aí e até se esquecer de mim.
Sim. Eu sei que isso é impossível. É o seu trabalho. Você tem fazê-lo, assim como eu tenho que fazer o meu.
Mas não precisa ter pressa. E quando chegar, chegue sem se anunciar. Sem dizer por que veio e não fique esperando para ir embora levando o que é seu.
Chegue como alguém que eu sempre soube que chegaria, mas não sabia quando e nem queria que chegasse.
Chegue como o oficial de justiça que recebeu um mandado para entrar na sua casa e levar tudo que o você tem e que poderia ter.
Porém, venha. Eu não vou esperá-la na porta, nem na estação, nem em qualquer lugar marcado, porque simplesmente nunca desejei que você viesse. Mas sei que você virá independentemente do meu desejo e eu não posso impedi-la.
Esteja você onde estiver, minha cara, perto ou longe de mim, ande o mais devagar que puder. Deixe-me caminhar um pouco mais por estas ruas ouvindo os sons da vida que vai continuar depois que você me levar, deixe-me apertar as mãos das pessoas que encontrar nas ruas, permita-me conhecer outras que ainda não entraram na minha vida. Deixe principalmente que eu viaje um pouco mais por esse mundo tão grande que você rodeia eternamente e conhece muito mais do que eu, porque sempre o percorreu de norte a sul, de leste a oeste, fazendo esse seu macabro e necessário trabalho.
Não tenha pressa, minha cara. Eu não vou fugir. Aliás, fugiria, se pudesse. Mas sei que aonde quer que eu vá e seja qual for o disfarce que eu ponha, você me encontrará. Você nunca perdeu ninguém e não serei eu o primeiro, disso sei.
Mas ande devagar, com passos lentos e pausados, para demorar o mais possível. Você me alcançará de qualquer jeito.
Até porque quanto mais velho eu fico mais devagar eu ando. Minhas pernas já não aguentam caminhar depressa e eu tenho que ir parando pelos caminhos. E quando você me encontrar, certamente já estarei tão cansado que não lamentarei o fato de ser carregado por você.
Por isso eu quero que você demore. Quero me cansar de viver. Quero me estafar de acordar pela manhã com muitas preocupações na cabeça e tantos problemas para resolver. Quero me fartar de ouvir as mentiras dos políticos, de ver o meu time derrotado, as notícias ruins do jornal da manhã. Deixe-me ficar tão cansado disso para que eu não sinta nenhuma tristeza por ter que ir com você.
Neste momento, quero que saiba, há tantas coisas neste caminho que eu ainda quero ver. Há muito ar para respirar. Ainda que digam que ele está ficando muito impuro, quero senti-lo em meus pulmões como aquela fumaça do tabaco que eu gostava tanto na juventude, mas tive que parar justamente porque se não o fizesse meu encontro com você já teria acontecido há muito tempo.
Mas há ainda tanto sabores para degustar, tantos aromas para cheirar, tantas sinestesias para experimentar, e sim, até mesmo emoções para sentir e prazeres que bem sei, ainda tenho direito de gozar.
Não me prive disso. Não pegue atalhos, não venha de avião. Venha caminhando, vagorosamente. Não se apresse.
Sei bem que eu já estava prometido para você desde o dia em que nasci. Todos nós. Nós somos como aqueles nazarenos que o povo de Israel prometiam à Jeová desde que nasciam. Como aquele Sansão que morreu matando milhares para você, ou como aquele Jesus que morreu, segundo dizem para nos salvar de você.
Sim, eu sei., eu sei. Você é a sombra que faz parte da minha luz, porque só pode existir luz no contraste com a sombra. E assim como o mundo foi feito de uma luz que saiu da escuridão, é preciso que a luz que me deu existência também se apague e volte à sombra de onde ela saiu.
Para que tudo possa começar de novo, dizem. Tudo muito lógico se for mesmo assim.
Mas como não tenho certeza de que é eu digo que você não é benvinda. E como não posso impedir a sua chegada, só posso pedir-lhe que demore bastante para vir. Venha quando eu já estiver suficientemente cego, surdo, mudo e insensível de todas as minhas sinestesias para saber que você chegou.
E por favor, seja rápida e discreta. Não aja como um profissional vaidoso que demora o maior tempo possível para fazer o seu trabalho porque quer que todo mundo veja o quanto ele é bom no que faz.
Como você não vai encontrar tapetes vermelhos, nem escadarias enfeitadas com flores, seja breve. Afie a sua foice, corte com um único golpe o seu feixe, coloque-o embaixo do braço e vá embora. Rápido como o raio. Não fique fazendo firulas.
Para onde você vai me levar eu não sei, mas isso também é o que menos importa. Seja para onde for, nenhum lugar será melhor do que este de onde você está me tirando.