Os quatro cavaleiros do Apocalipse são arquétipos que têm assombrado o nosso inconsciente desde os primórdios da nossa existência sobre a terra. Podemos entender a existência dessas formulações psíquicas em nossa mente mais profunda, se pensarmos que a cabeça do ser humano se assemelha a um castelo medieval, que por fora nos causa admiração pela sua grandeza arquitetônica, mas por dentro é um teatro onde habitam os mais estranhos e sinistros fantasmas, que só à noite, quando a consciência adormece, eles aparecem nos nossos sonhos e pesadelos.
São João Evangelista não inventou os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Ele apenas os pescou no inconsciente coletivo da humanidade e os revelou, como símbolos da quaternidade dolorosa que o ser humano desenhou para si mesma ao comer do fruto do conhecimento do bem e do mal.
A ambição desmedida dos poderosos, que detêm a posse do arco e da coroa (as armas e o poder), simbolizadas no cavaleiro do corcel branco; a sede de poder dos tiranos que não se importam em destruir a paz na terra só para realizar seus projetos pessoais, simbolizada no cavaleiro que monta um corcel vermelho; a falsidade e a torpeza dos legisladores e julgadores que manipulam a balança da Justiça, fazendo e interpretando o direito em favor de si próprios e de quem paga mais, representado pelo cavaleiro do corcel negro; e finalmente, o simbolismo arquetípico da morte, representado pelo cavaleiro do corcel amarelo, são próprios da civilização que o ser humano criou para si mesmo.
Esses símbolos assustadores são atributos da nossa consciência e do nosso sentido de sobrevivência. Eles nos fazem ultrapassar todas as fronteiras da ética e da civilidade quando se trata de defender as nossos próprios interesses. Todos nós convivemos com o bem e o mal dentro de nós. Essa foi a consequência de termos adquirido uma consciência reflexiva, simbolizada na metáfora bíblica do fruto do conhecimento do bem e do mal que Adão e Eva, nossos supostos ancestrais, comeram em desobediência ao preceito do Criador. Por isso há quem diga que nós todos somos portadores de transtorno bipolar, distúrbio psíquico que pode fazer de nós santos ou demônios conforme seja o desafio que temos de enfrentar. E como reflexo dessa matriz psíquica, projetamos na vida social os quatro cavaleiros do Apocalipse, que estão presentes na nossa história desde sempre e, ao que parece, sempre estarão, até o fim dos tempos, se houver um.
Hoje temos Donald Trump, Netanyahu, Putin, Khomeini e outros portadores desse distúrbio, com poder de trazer para a humanidade os males que o evangelista imaginou. Aliás, bem que poderiam ser associados aos quatro cavaleiros do Apocalipse, pois o que eles trouxeram para humanidade foi a guerra, a peste, a fome e a morte. Em outros tempos já tivemos Hitler, Stalin, Mussolini, Pol Pot, Napoleão, Alexandre, além de alguns papas e lideres religiosos que bem caberiam nesse figurino graças aos males que trouxeram para a humanidade por conta dos seus egos doentios. Isso mostra bem o quanto Jung estava certo em suas teses sobre a origem da loucura humana. Ela, de fato, é arquetípica e repousa em um arsenal de símbolos que estão ligados à nossa própria origem. Por isso esses malfadados cavaleiros aparecem em todos os tempos e não são próprios de uma determinada época nem se prestam a nenhuma finalidade punitiva.
Mas como disse o evangelista, graças a Deus, Deus existe, e como agora estamos aprendendo, o tempo não é linear, e assim provavelmente não haverá um fim, assim como nunca houve um começo. E por outro lado, entre as prerrogativas que o fruto do conhecimento nos deu está o nosso livre arbitrio. Como podemos escolher entre o bem e o mal, pode ser que um dia a humanidade consiga derrubar do cavalo esses sinistros ginetes que envenenam a consciência humana e liquidar de vez com eles. E quando isso acontecer poderemos construir uma Nova Jerusalém sem precisar crucificar nenhum Messias para obter a graça de Deus em troca. Aliás, nem precisaremos de um Messias para nos salvar de um mal que nem sabemos do que se trata.