Victor Hugo, no prefácio do seu romance “Os Trabalhadores do Mar”, diz que a vida humana está sujeita à uma tríplice fatalidade (tríplice anankê), que ele identificou como as imposições das leis, dos dogmas e da natureza. Tratou desses temas na sua famosa trilogia, desenvolvida nos romances “Os Miseráveis”, onde um implacável e neurótico agente policial persegue, pela vida inteira, um famélico indigente que roubou um pão para alimentar um sobrinho; e depois no romance “O Corcunda de Notre Dame”, ele falou dos dogmas que ensejam a prática de preconceitos que acabam em tragédia. Finalmente, nos “Trabalhadores do Mar”, onde a vida dos personagens é determinada pelas condições do ambiente, ele mostrou como a natureza cria valores, costumes e leis das quais a mente humana não consegue escapar.
De outro modo, o famoso escritor francês nada mais fez do que antecipar o tema que tornaria o psicanalista Karl Gustav Jung famoso, ou seja, a sujeição da nossa vida psíquica a um conjunto de imposições arquetípicas desenvolvidas pela espécie humana ao longo da sua história, que ele chamou de Inconsciente Coletivo da Humanidade.
Como dizia o médico suíço, no Inconsciente Coletivo da Humanidade a História se prepara, e quando alguns arquétipos são acionados por um número expressivo de indivíduos, acontecem os fenômenos de massa que impulsionam a corrente dos fenômenos que dão vida á ela.
O fato de certos eventos acontecerem exatamente no início dos séculos merece alguma reflexão. Talvez tenha aí algum indício da chamada sincronicidade que Jung via em fatos aparentemente desconexos, mas que, por alguma estranha relação de significado, se repetem num determinado padrão de ordem e temporalidade. Cito, apenas para contextuar, a Reforma Protestante desencadeada por Martinho Lutero em 1517, que deu início a uma série de guerras religiosas que ensanguentaram a Europa durante os dois séculos seguintes; as guerras napoleônicas do início do século XIX, as duas grandes guerras mundiais da primeira metade do século XX, que tiveram seus estopins nos movimentos nazista, fascista e comunista que tomaram de assalto o espirito dos povos das respectivas épocas.
Todos esses eventos são fruto de conceitos arquetípicos, isto é, oriundos de mitos, valores e crenças entranhadas no espírito dos povos, e que, em certo momento afloraram como vírus incubados em estufas aquecidas por pressões políticas e sociais.
É nesse sentido que podemos comparar o atual surto neurótico que a sociedade está vivendo neste exato momento, com o sucesso eleitoral de políticos radicais como Trump, Milei, Putin, Netaniahru, Lula, Ortega, Kim Jong-un e outros psicopatas e arrivistas a quem as consciências anestesiadas do povo entrega o poder.
Se Jung se propusesse a analisar o momento político que vivemos talvez ele dissesse que a virada dos séculos propicia a ocorrência dessas viroses coletivas que assolam o espírito das massas porque o arsenal arquetípico que habita o Inconsciente Coletivo da Humanidade não se dilui na ampulheta dos tempos, mas apenas escorre, e quando ela é virada, eles começam a escorrer novamente como a areia que apenas mudou de lado. Por isso tudo ocorre novamente, e geralmente no início do novo século.
Tem sentido. Se disséssemos que o nacionalismo doentio embutido nos projetos políticos dos Bolsonaros, Milei, Trump, Putin etc. hospedam elementos de nazismo e fascismo, que foram exumados por conta dos fumos de marxismo que escapam dos projetos socialistas dos petistas, dos peronistas, dos democratas americanos, sem contar o medo que todos tem da China, não estaríamos cometendo nenhum disparate.
E se olharmos com mais cuidado, veremos, pelo menos por aqui, nas fontes que alimentam os dois principais grupos que disputam o poder, até um elemento que sempre esteve no bojo de todo movimento de persuasão coercitiva, como é o caso do petismo e do bolsonarismo, ou seja, uma religião "algorítmo", programada para convencer. Não por acaso, um dos pilares do bolsonarismo é o chamado movimento evangélico neopentecostal, da mesma forma que o alicerce do petismo sempre foi cimentado pelas teses medradas pela chamada Teologia de Libertação.
E assim caminha a humanidade. Nada de novo sob o sol, como diz o Eclesiastes. Só a nossa ignorância é nova. Porque fazemos questão de esquecer o passado, e não damos ouvidos ao saudoso Belchior, quando diz que, apesar de tudo que fazemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.