João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


A FORÇA DO ÓDIO

 

Dizem que o ódio é mais forte do que amor. Pode ser. Existem pessoas que dizem matar por amor. É uma baita mentira. Nunca se mata por amor. Por ódio sim. Quando matamos alguém por ciúme, ou dizemos que foi por amor, na verdade, é o ódio por não ter sido correspondido em nossos desejos que falou mais alto.

Lembro-me de um romance que li na minha juventude, e depois assisti a um filme baseado nele, que tratava desse tema. Aliás, parece que até hoje foi o filme mais premiado da história do cinema, Ganhou onze Oscar, se não engano.

O livro e o filme homônimo se chamava Ben-Hur. Nele, o comandante da esquadra romana, que estava para entrar em batalha contra uma frota inimiga resolve testar a força dos remadores da sua escuna e chicoteia exatamente o personagem chamado Ben-Hur, que lá estava cumprindo pena por um crime que não cometeu. Quando vê os olhos do remador faiscando de ódio, mas que ele sabe conter, ele diz: “muito bem remador. Os seus olhos estão cheios de ódio, mas você sabe contê-lo. Continue assim. O ódio é bom. Ele nos ajuda a viver.”

Ele não estava falando bobagem. Jung nos ensina que todo sentimento tem a sua utilidade. O que temos que aprender é saber dosá-lo e utilizar quando dele precisarmos de verdade. É como dizia Aristóteles: qualquer pessoa pode zangar-se, e isso é bom, desde que seja no momento certo, com a pessoa certa, na medida certa e pelo motivo certo.

Podemos dizer o mesmo com respeito ao ódio. Ódio reprimido, como qualquer outro sentimento, vira uma sombra incômoda que não nos deixa dormir, nem comer direito, nem gozar plenamente qualquer outro prazer. As nossas sombras precisam ser integradas em nossa mente para que possamos dosá-la na medida certa, com a pessoa certa, no momento certo e pelo motivo certo. Se um homem se zanga com a mulher porque ela lhe serviu um café frio, ou com o filho porque ele não fez a lição da escola, e os motivos forem só esses mesmo, então está tudo bem. Mas geralmente não é. A explosão de ira vem pelo acúmulo de raiva reprimida em outros constrangimentos não digeridos e não por causa do incidente doméstico.

Se pensarmos bem este é um dos problemas que estamos vivendo hoje na nossa política. No próximo ano teremos um novo presidente eleito mais pelo ódio do que por amor ou por outra qualidade que qualquer um dos pretensos candidatos ao cargo apresentou até agora. Em sã consciência, ninguém que tenha alguma boa base de informação ou bom senso para fazer uma escolha centrada na lógica dos fatos, entregaria o comando do país para um sujeito com as credenciais de um Flávio Bolsonaro, cujo único currículo é a certidão de nascimento e uma história política para lá mais que suspeita. E também ficaria feliz em se livrar do Lula e do seu corrupto partido. Mas não é isso que parece vai acontecer.

As próximas eleições serão decididas mais pela rejeição menor ou maior que os candidatos tiverem do que pelas suas qualidades para governar. É muito triste, e ainda mais perigoso, quando as pessoas pautam suas decisões mais pelo ódio do que pelo amor. E no caso de uma decisão tão importante como a eleição do presidente, seria preciso que tivéssemos pelo menos algum respeito pela história e pelo currículo do candidato.

Se Deus, de fato, fosse brasileiro, bem que poderia fazer surgir, até o dia da eleição, alguém que se enquadrasse nesse modelo. Mas parece que ele também já imigrou por não aguentar mais o ódio e a insensatez que se instalou no nosso país

João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 15/08/2026
Alterado em 17/08/2026


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