João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


SOMOS TODOS NEURÓTICOS

 

Somos todos neuróticos, embora não nos demos conta disso e até nos recusemos a admitir. Se não fôssemos, não estaríamos correndo atrás de tantas coisas que só nos dão prazer no momento em que as adquirimos e no momento seguinte as descartamos como se já não tivessem valor algum.

Outra prova: ás vezes chegamos a brigar com algum amigo por causa de política ou futebol. Votamos em um candidato a presidente, por exemplo, esperando que ele possa resolver problemas que, em sã consciência, nem existem, ou se existem, estão longe de nos atingir.

Na verdade, a maioria dos nossos problemas está apenas na nossa cabeça. E quanto mais nos enredamos nas malhas sociais, mais sentimos necessidades que, se vivêssemos em um ambiente mais simples, nem teríamos consciência delas.

Não raras vezes até chegamos à vias de fato com alguém que não pensa como nós e há quem deseje até a ocorrência de conflitos armados para mudar uma situação que ele apenas “acha” que o constrange, mas que, na verdade, é apenas mais uma transferência de caráter subliminar que “influenciadores” midiáticos lhe induziram.

Como disse um personagem de Victor Hugo, em “Os Miseráveis”, o povo francês matou um rei que era ruim esperando que as coisas melhorassem para ele, só para ver que elas ficaram piores depois disso.

Porque esse é o problema das revoluções. Não se atenta para o caráter da mudança. Queremos apenas mudar. Ás vezes nem sabemos o que queremos mudar. Basta mudar. O povo russo, em 1917, promoveu uma mudança radical na sua sociedade, implantando o regime bolchevista. Os cubanos, mais tarde, fizeram o mesmo. Os alemães e os italianos também fizeram algo igual em seus países. O resultado todos sabemos qual foi. Cá entre nós ainda se discute se a volta da democracia melhorou a vida que tínhamos durante a ditadura. E há quem sonhe com uma nova ditadura e até tenha empenhado sua própria liberdade nesse projeto.

A verdade é que queremos que as coisas mudem quando o desconforto psíquico com uma situação se instala em nossa neurologia. E não nos importamos muito com o que muda, quem inspira a mudança, quem ela beneficia e como ela sucede. Queremos apenas que mude. 

Por isso colocamos na eleição de um presidente uma carga psíquica desproporcional a qualquer resultado que possa advir da mudança. É como se a nossa vida dependesse fundamentalmente disso, quando na verdade ela pouco nos afeta. 

O simbolismo arquetípico que energiza o nosso inconsciente tem muito a ver com as neuroses da sociedade moderna. Enquanto eles eram tidos como realidades tangíveis e estavam presentes na vida das pessoas, como acontecia na Idade Média, quando se acreditava em todo tipo de influência espiritual (boa ou ruim, divina ou demoníaca), as neuroses se curavam simplesmente com exorcismos, rituais mágicos, poções, feitiçarias e conjuros. Havia heróis que defendiam os fracos e santos que protegiam os desvalidos. O tirano, quando ultrapassava os limites da sua crueldade, era simplesmente destronado e tinha sua cabeça decepada. Não se precisava de longas seções nos tribunais nem de exaustivas investigações para se determinar se um indivíduo, muitas vezes preso em flagrante, era culpado. A partir do momento em que se tornou necessário procurar uma justificativa para tudo, a sociedade se tornou neurótica porque perdeu o sentido da vida e passou a procurá-la desesperadamente, como se ele de fato existisse e fosse um tesouro que só os eleitos conseguem. Por isso era tão difícil encontrar neuróticos nas sociedades primitivas e tão fácil de achá-los nas sociedades mais afluentes.

A sociedade moderna, com seu amor pela verdade científica (como se ela também não fosse uma criação da nossa mente), expulsou para o mais recôndito do nosso inconsciente a sabedoria do espirito. E com isso nos transformou a todos em neuróticos. Duvido muito que aquela multidão enlouquecida que invadiu Brasília no dia 8 de dezembro de 2022 para tentar mudar o resultado de uma eleição em que o seu candidato preferido perdeu, soubesse, de fato, o que mudaria em suas vidas se os seus tresloucados atos tivessem o sucesso que eles buscavam. Hoje, a vida de muitos deles está comprometida e tenho muitas dúvidas se eles não estão arrependidos por terem se deixado levar pela megalomania de um falso “mito” que prometia melhorar as suas vidas.

As novas eleições estão chegando. Espero que o nosso povo tenha aprendido alguma coisa com a História. Como diz Jung, o inconsciente da espécie humana está povoado de arquétipos, seja para o bem ou para o mal. E “até que tornemos o inconsciente consciente, ele dirigirá nossa vida e nós o chamaremos de destino.” Se cada um de nós aplicar a sua energia psíquica no seu próprio projeto de vida não precisará ficar na dependência de nenhum "herói" para trazer para ele dias melhores. Isso é o que Jung chama de individuação.

João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 18/08/2026
Alterado em 18/08/2026


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