REFLEXÕES JUNGUIANAS SOBRE MODERNOS ACONTECIMENTOS; O ASSASSINATO DE MARIELLE FRANCO
Liguei hoje cedo minha Tv num aplicativo que toca música popular brasileira e o primeiro som que entrou foi Luiz Melodia, cantando uma canção que fala em morrer de amor no Largo de Estácio.
“Se alguém quer matar-me de amor
Que me mate no Estácio
Bem no compasso, bem junto ao passo
Do passista da escola de samba
Do Largo do Estácio
O Estácio acalma o sentido dos erros que faço
Trago, não traço, faço, não caço
O amor da morena maldita domingo no espaço
Fico manso, amanso a dor
Holiday é um dia de paz
Solto o ódio, mato o amor
Holiday eu já não penso mais”
Luiz Melodia é um dos meus cantores e compositores favoritos. Sua voz adocicada e melodiosa me lembra, não sei por que, caldo de cana e pastel em quermesse de igreja de interior. Gosto da voz dele e das letras das suas músicas, que parecem ser feitas mais para o deleite da nossa imaginação do que para o gosto do nosso cérebro consciente, que precisa de alguma lógica no processo de organização da linguagem para poder sentir o sabor da comunicação.
As letras do Luiz Melodia parecem ter sido construídas com técnica junguiana. São feitas de associações livres que, se superficialmente consideradas num processo lógico de construção linguística, aparecem despregadas de sentido. “ Lava roupa todo, dia, que agonia/ Na quebrada da soleira, que chovia/ Até sonhar de madrugada/ Uma moça sem mancada/ Uma mulher não pode vacilar/... Quem entende isso se não fizer associações com conteúdos inconscientes que são levantados em nossa mente mais profunda quando ouve?
Daí o que me veio à cabeça foi o assassinato de Marielle Franco, justamente no Largo do Estácio. E também me passou pela cachola, rapidamente como um raio, a teoria defendida por Jung sobre a processo de sincronicidade que existe entre certos acontecimentos que parecem não ter nada a ver um com o outro. E logo também emendou em minha cabeça um outro elo que acrescentei em minhas especulações sobre o sentido das nossas inspirações psíquicas, quando li alguma coisa que se referia ao conteúdo inconsciente dos nossos estados mentais e, como diziam os autores desse texto ( Pauwels e Bergier, O Despertar dos Mágicos, se não me engano), são constituídos por tipos misturados de energia psíquica, ou sentimentos e emoções, se quisermos dar outro nome para eles.
Logo engrenei uma pergunta: Marielle foi morta por amor ou por ódio? Também não pude descartar outra pergunta que veio no bojo dessa: Existe o assassinato por amor? Não são todos os crimes dessa natureza motivado pelo ódio? Pauwels e Bergier lançam uma provocação intelectual muito interessante a esse respeito. Perguntam eles se entre esses estados mentais (ódio e amor, velar e dormir, crer e duvidar, etc.) não existiria uma espécie de vínculo comutativo que faria com que eles fossem compostos pelas duas estruturas psíquicas? Assim, se chamássemos esses estados psíquicos de Amódio ou Ódiomor, a crença e a dúvida de Crervida ou Vidacren, velar e dormir de Vemir ou Dorlar, por exemplo, não explicaremos melhor porque certos comportamentos são eliciados por sentimentos que parecem tão contraditórios quanto inexplicáveis?
Se um homem ou uma mulher intenta contra a vida de alguém que eles acreditam que ama, eles o fazem por amor ou por ódio? Há quem jure que o fez por amor. Mas não será pelo ódio de ter sido contrariado de alguma forma? Os Irmãos Brasão, supostos mandantes do assassinato da "morena maldita" agiram por ódio ou por amor? Amor pelo que eles achavam que poderiam perder por causa do trabalho de Marielle ou ódio que eles tinham por ela? Afinal, o que nos dá mais motivação para fazer o que fazemos? Evitar a dor de perder ou o prazer de ganhar?
Claro. O fato de ela ter sido assassinada justamente no Largo do Estácio foi uma coincidência. Pode ser uma coincidência significativa, mas logicamente apenas uma coincidência. Mas as nossas motivações interiores, que conformam a nossa vida psíquica não são. Vale a pena tirar alguns momentos de reflexão para pensar no assunto.